Opinião
O Sporting depois de Portimão
2018-10-15 14:00:00
Carlos Daniel é jornalista na RTP e escreve no Bancada às segundas feiras.

É hábito enraizado em Portugal o de se analisar os jogos pelo prisma dos grandes, exacerbando-se quer o mérito de qualquer dos três maiores emblemas em caso de vitória – no que não fazem mais que a obrigação em 80 por cento dos casos – quer o demérito quando pontualmente não são três os pontos que arrecadam. O adversário de ocasião é uma espécie de funcionário do teatro chamado ao ensaio só para dar as deixas ao protagonista da peça. Se sucede uma derrota, e com muitos golos, como ocorreu com o Sporting em Portimão, não há outra leitura: a crise está instalada. Um ex-candidato agita o fantasma da falência quando era tempo de estar calado, o homem que aguentou o clube no Verão mais louco do mundo também estava bem em silêncio mas vem exigir que tenha sido só um dia mau, e até um capitão de equipa vai para as redes sociais admitir que tinha acontecido “mais uma vez (!!) uma péssima noite”. Não havia necessidade. Posto isto, resolve intervir o treinador, José Peseiro, para explicar aos “notáveis”, de novo, que o Sporting tem de se unir, aos protagonistas da transição que, durante dois meses, teve se ser “treinador, diretor desportivo e até pai” e aos jogadores que já não são filhos de uma formação superior e que os rivais tem argumentos mais fortes.

Peseiro foi sincero e cru porque terá sentido que era o momento de explicar como se está a fazer o caminho das pedras, também por saber que pode ser ele o primeiro a ser levado por nova onda mais forte. Com a experiência que tem hoje, o técnico ribatejano já percebeu que nem o facto de ter chegado entre a poeira do caos o livra de um julgamento severo. Os adeptos não terão com ele a condescendência que tiveram com Jorge Jesus, apesar dos orçamentos gradualmente mais recheados ao longo de três anos. É por isto que, ao fim de três meses e apesar do bom início, sentindo que vários adeptos já lhe apontam o dedo, Peseiro baixa a expectativa. Para não sair em breve pela esquerda baixa.

Quanto ao jogo de Portimão propriamente dito, terá sido a pedra de toque para o técnico dos leões acreditar que não dá para jogar como na primeira passagem dele por Alvalade. Aí já coloco reticências. Uma coisa é reconhecer que não há a mesma qualidade individual disponível – o que é evidente -, outra é recusar a ambição de jogar um futebol de iniciativa, seguindo a ideia-guia do treinador. Dizer “quisemos ser diferentes e levamos quatro” reforça a ideia de que o opositor não conta e que foi apenas por uma ambição excessiva, associada a menor rigor na hora de defender, que o Sporting perdeu com estrondo. Não foi. É certo que a transição defensiva do Sporting chegou a ser desastrosa no Algarve mas não só a qualidade de jogo tinha ficado aquém do exigível noutras partidas mas também o Portimonense se revelou claramente mais forte, e até nas individualidades, o que é raro acontecer. Não há como dizer isto senão com alguma crueza: nenhum dos avançados do Portimonense naquele jogo (Tabata, Nakajima e até um Jackson ainda em convalescença) é – pelo menos nesta data - inferior aos que surgiam no trio de ataque do outro lado do campo (Jovane, Raphinha e Montero). É raro acontecer tal equiparação de argumentos no campeonato português. E anotem o nome de Lucas Fernandes, que o valor do médio crescido no São Paulo está muito acima do que clubes da dimensão do Portimonense costumam importar por estes dias, junto do de Paulinho, já identificado por cá e com experiência num grande. Sim, o Sporting cometeu erros crassos em Portimão. Mas não, os leões não perderam apenas por isso. Do outro lado havia um coletivo (que Folha está a fazer crescer) equipado com tal quantidade de talento que que só ficará abaixo dos três grandes e do Braga. O futuro irá provar que este Portimonense não é, de todo, uma equipa como as outras.

Carlos Daniel é jornalista na RTP e escreve no Bancada às segundas feiras.

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