Opinião
Convocatória com vitamina
Mauro
2018-05-18 14:00:00

Independentemente de uma ou outra preferência que possamos ter, a lista de Fernando Santos é bem elaborada na sua imagem final. E é bem elaborada porque manifesta sensibilidade na conjugação dos vários fatores que são tidos em conta nesta história: qualidade e forma individual, adequação ao sistema tático e ideia de jogo dominantes, possibilidade de ter opções para variação de estilo e regeneração de curto prazo.

A ideia geral que fica, tendo como termo de comparação a comitiva de França, é a de uma convocatória com vitamina de ataque, enriquecida com a adição de gente que traz estilos mais alternativos e complementares da linha do meio-campo para a frente, pensando em Bernardo, Gelson, Bruno e Manuel Fernandes, Guedes e André Silva. Logo aí, FS ganha mais utensílios para expandir o jogo em ataque, podendo torná-lo mais completo, adaptável e ligeiramente menos padronizado nas projeções ofensivas de pouca duração.

Rony Lopes era o meu ‘wishful thinking’, confesso. Adorei a época que o médio-ala fez no Mónaco e achei teria uma vaga para a novidade nos 23 se Fernando Santos, mediante a ausência anunciada de Danilo, pensasse em Adrien como possível penso-rápido na função de médio-centro mais protetor caso William ficasse indisponível por lesão ou castigo durante o torneio. Não me enganei na segunda premissa, pelo menos. E há dois ou três pormenores que justificam, por exemplo, a ausência de Rúben Neves, que era tido como um dos prováveis para cobrir a vaga direta de Danilo, o trinco.

Em primeiro lugar, Rúben Neves também não é alguém para jogar em permanência à frente da defesa. Podia fazê-lo, mas, em Wolverhampton, ele alterna os avanços e recuos no tandem com Saiss, no eixo. Tendo em conta o aparecimento de um centrocampista tão versátil e utilitário como Bruno Fernandes, Adrien, unidade fundamental a condicionar o jogo do oponente, até pode ser mais vezes pensado para um papel diferente, mais tempo posicionado à frente da defesa. Por outro lado, FS explicou, com clareza, ontem, na sala de imprensa, a questão dos “seis” e dos “oitos”.

Na verdade, a Seleção tipificada por FS não joga verdadeiramente com um “seis”. Até pode haver um médio que fique mais vezes atento às coberturas quando o outro se libertar em ataque. Mas no sistema-base de “4-4-2 linha” de Santos, em fase defensiva, os dois médios-centro jogam normalmente alinhados, lado a lado, não tanto em duas camadas com um atrás do outro.

Em todo o caso, compro bem a inclusão de Manuel Fernandes. No Lokomotiv, foi jogando como médio-ofensivo do lado esquerdo e foi um dos melhores intérpretes da liga russa. Aqui também o pode fazer em alternativa a João Mário. A grande qualidade de João Mário é que deriva da ala para o meio no tempo certo para contribuir para a ligação e favorecer as triangulações, que é como quem diz: dar mais opções de passe e qualidade na progressão da equipa com a bola. Raciocina e sabe quando o deve fazer, na busca pela superioridade numérica e posicional na zona central. Com João Mário, Moutinho, Bernardo, André Silva e Cristiano, imagina-se mais a tabela e a combinação segura com bola no chão, como se viu contra a Suíça, em Lisboa. E aí que acho que esta Seleção pode subir um degrau relativamente aos campeões de 2016.

Falando em João Mário, nunca me passou pela cabeça a sua ausência desta lista por motivos técnicos. Só se ele tivesse uma lesão. É um dos melhores jogadores portugueses da atualidade, embora a sua lucidez de jogo não tivesse encontrado correspondência da parte de Spalletti, que também descontextualizou Banega pela mesma ordem de ideias, em prol da luta, promovida com Gagliardinis e Vecinos. Rafinha já faz um bocadinho de diferença, entretanto.

Uma das questões mais delicadas prende-se com Nelson Semedo. O lateral-direito do Barça, que já não tinha estado no Euro 2016 (foram Cedric e Vieirinha), jogou geralmente bem nesta época e só não participou mais vezes e com mais relevância no onze do Valverde porque também havia Sergi Roberto à mistura. Em cada uma das laterais, Santos levou um homem que já tinha estado em França (Cedric e Guerreiro) e compreendo que se pretenda jogar com o facto de ser aconselhável manter o máximo possível da base do Europeu, exceto em relação àqueles cuja situação foi de inequívoca desilusão na temporada, como André Gomes, Renato, Nani e até Éder, remetido à condição de suplente de Farfán, ao contrário dos meses anteriores ao Euro, quando andava a marcar golos a torto e a direito no Lille.

Resumindo o tópico dos laterais-direitos: Ricardo, o único representante do Porto, é incluído na lista. Pode, no limite, jogar na esquerda, se faltarem Guerreiro e Mário Rui. E não há dúvidas que tanto Ricardo como Cedric têm nível para lá estar. E nem falei de Cancelo, que, no Meazza, está a jogar o melhor futebol da carreira. Mas Semedo é o melhor de todos os laterais-direitos do panorama português e a convocatória fica estranha sem ele.

Rúben Dias, o único pertencente ao Benfica, está longe de ser um nome-surpresa nos 23. Ele e Pepe são atualmente os dois melhores centrais portugueses. Já escrevi sobre a obrigação de o defesa do Benfica aprender a dosear o nível de agressividade, mas a verdade é que há poucos que consigam proteger tão bem a grande área e a baliza como ele. Não o inferiorizo por não ter internacionalizações-A. Primeiro, porque tem um percurso vasto nas seleções jovens e o “choque térmico” não deverá, em teoria, ser dos mais acentuados. Depois, porque quando a capacidade e a estaleca existem, como no caso de Rúben Dias, o resto é secundário. Contem quantas presenças tinha Umtiti na Seleção-A francesa antes de jogar contra a Islândia, nos “quartos”, em pleno Euro. Eram zero, já para o caro leitor poupar tempo de pesquisa.

É difícil passar por Rúben em 1v1 e a sua corrida mais rápida em distância prolongada permite controlar melhor a profundidade defensiva, assegurando com mais compostura as situações em que Portugal quiser avançar a linha defensiva para se instalarem em ataque organizado, de maior duração, na metade do campo adversária. Em caso de recuo mais pronunciado, Bruno Alves serve muito bem. Fonte está na lista, mas tem mesmo de se recompor depois daquele jogo com a Holanda.

Numa leitura abrangente, e apesar de um outro retoque que cada um de nós pudesse ter em mente, a lista de Santos é sensata e gosto até da ideia de contemplar Guedes para emparelhar com Cristiano numa dupla mais centrada de atacantes, caso André Silva tenha um arrefecimento durante o torneio. E continua a haver o detalhe e o génio de Quaresma.

Luís Catarino é comentador da Sporttv e escreve no Bancada às sextas-feiras.