Grande Futebol
Lopetegui, o homem do desmaio, da torre e da língua mordida
Diogo Cardoso Oliveira
2018-06-12 22:00:00
Lançou Rúben Neves, convenceu Casillas e trouxe Brahimi e Óliver. Na foto, surge ao lado de Vítor Baía.

Não foi feliz em Portugal, pelo FC Porto, ainda não sabe se será feliz no Mundial 2018, pela Espanha, mas Julen Lopetegui já sabe que será o treinador do Real Madrid na próxima temporada. Vai pegar numa equipa tricampeã europeia – um fardo pesado – e que tem falhado o título em Espanha – um fardo não menos complicado. Trata-se de um homem que, um dia, desmaiou em direto, que decidiu montar uma torre e que, possivelmente, terá de corrigir algo que já disse. Já lá vamos.

Lopetegui vai substituir Zidane e, em boa parte, ambos têm semelhanças: ambos ex-jogadores, ambos ex-atletas do Real e ambos ex-treinadores das camadas jovens do clube. Não será coincidência, certamente. É um homem expansivo, durante os jogos (ao contrário de Zidane) e, há uns aninhos, era uma criança rebelde. Quem o diz é o próprio pai. “Era muito rebelde, não no mau sentido, nada de delinquência, mas pegava-se com as outras crianças, metia-se com elas. Pegava-se ainda mais com os seus amigos mais próximos. Era assim, mas, por exemplo, era também muito bom nos estudos”, disse, ao “Record”, quando o técnico foi anunciado no FC Porto.

Antes de irmos mais longe na vida de Lopetegui, olhemos para o que fez no FC Porto. Muito investimento, zero títulos. Acabou por ficar muito ligado à obsessão pela posse de bola, algo que nem sempre foi verdade, mas que, inegavelmente, foi a matriz-base de boa parte dos meses passados no Dragão. Mas Lopetegui não foi sinónimo de desastre. Fez coisas boas. Oh se fez.

Pausa na história. Lopetegui trouxe uma novidade para Portugal. Nunca um clube português tinha montado uma torre no seu campo de treinos. Sim, uma torre. Uma ideia de Lopetegui, para poder filmar o treino a partir de uma perspetiva elevada.

Mas voltemos às coisas boas. Primeiro, Rúben Neves. Com apenas 17 anos, Lopetegui apostou nele. Apostou e tornou-o o capitão mais jovem da história do clube. Em segundo lugar, convenceu Casillas a vir para o Porto. Em terceiro lugar, foi sob o seu pedido que chegaram ao clube craques como Brahimi, Casemiro ou Óliver Torres. Nada mau…

No relvado, também houve coisas bem giras. Não se lembra daquele 3-1 ao Bayern Munique de Guardiola? E daquela vitória frente ao Chelsea de Mourinho? Lopetegui não foi sinónimo de incompetência total, mas acabou por ser sinónimo de mãos… cheias de nada. Zero títulos.

Para quem vê a bola lá de cima, da torre, a queda seria grande. Já diz o povo que quanto maior é o salto, maior… exato, isso mesmo. A queda de Lopetegui não foi bonita e Pinto da Costa chegou a criticar publicamente o treinador. “Fui buscar o Sérgio Conceição para melhorar e jogar bom futebol. Para não ganhar teria ido buscar o Lopetegui”.

Zero títulos, mas uma polémica à portuguesa. Ficou célebre a pega entre Jorge Jesus e Lopetegui. Disse-se que tudo começou porque Jesus tinha dificuldade em dizer o nome de Lopetegui e o espanhol não gostava disso, até porque chegou a parecer propositado. Após um Benfica-FC Porto, as coisas começaram com uma conversa aparentemente cordial, que rapidamente se tornou num desentendimento fervoroso. Dias depois, surgiu um vídeo, que se tornou viral, a ilustrar a zanga entre os dois treinadores.

O homem do desmaio

Lá bem no norte de Espanha, no País Basco, nasceu Lopetegui. O guarda-redes Lopetegui. Começou a jogar futebol lá por cima, na Real Sociedad, mas acabou por descer para Madrid e, no Real, fez boa parte da formação. Chegou a jogar pelo Real (um jogo apenas), antes de aventuras no Logronés – aí era o titular – e no Barcelona, onde voltou a ser suplente. A verdade é que a carreira de Lopetegui teve mais anos de suplente do que de titular, chegando a estar atrás, por exemplo, do português Vítor Baía.

Como treinador, sempre mostrou mais credenciais. Depois da passagem pelo Real Madrid B, atirou-se aos escalões jovens de Espanha. Aí, foi o rei daquilo tudo. Conquistou dois Europeus sub-19 e um Europeu sub-21 e, neste último, em 2013, orientou craques como de Gea, Koke, Thiago, Isco, Morata, Carvajal ou Rodrigo.

Lopetegui foi protagonista de um dos episódios mais bizarros da história da televisão espanhola. Em junho de 2006, no programa “Una noche Mundial”, Lopetegui tinha a missão de analisar taticamente o sistema de jogo da Espanha. A meio do exercício, caiu. Do nada, Lopetegui desapareceu do ecrã. O programa foi imediatamente para intervalo e, no regresso, parecia que nada tinha acontecido. Lá estava Lopetegui fresquinho, a continuar a lição.

Messi ou Ronaldo? Algo nos diz que vais fazer uma correção…

É um clássico: quem treina Messi diz que o argentino é o melhor, quem treina Ronaldo diz o mesmo do português. Mas e quando um treinador elogia Messi e, depois, vai treinar Ronaldo? É o caso de Lopetegui.

“Messi é o melhor jogador que conheci. É muito difícil que voltemos a ver outro como ele. Ninguém marcou tanto a diferença e em cenários tão diferentes. Para mim, é o melhor da história”, disse o espanhol.

Ora, sendo certo que também elogiou a capacidade de trabalho, disciplina e força mental de Ronaldo, a verdade é que Lopetegui poderá ser o primeiro treinador de Ronaldo a ter dito, clara e inequivocamente, que Messi é o melhor. Sim, é apenas um fait-diver que poderá não ter qualquer importância. Mas também não é por acaso que, poucas horas depois do anúncio da contratação de Lopetegui, já se fala, com maior intensidade, da possível saída de Ronaldo.

A talhe de foice, destacamos outro aspeto: Lopetegui é, como já dissemos, um treinador adepto da posse de bola. Controlar o jogo com a redondinha é a ideia-base de um treinador que quer jogar no meio campo adversário e tentar baralhá-lo com circulação rápida, movimentações constantes, passes curtos e mudanças de flanco que façam “bailar” a organização defensiva. Isto colide com a lógica do Real Madrid, nas últimas temporadas – uma equipa de transições – e, por extensão, com o estilo de jogo de Ronaldo. O português tem-se tornado, cada vez mais, um jogador que não precisa nem quer ter a bola no pé muitas vezes por jogo. Quer tê-la quando há espaço para correr com ela e quer tê-la quando isso significar uma possibilidade de finalização. Muda Lopetegui? Muda Ronaldo?

O certo é que a ida de Lopetegui para Madrid provocou surpresa total no Mundo do futebol. Nem o jornal “Marca”, habitualmente bem informado dos assuntos do clube, tinha noticiado este cenário. A contratação de Lopetegui já trouxe, claro, reações de paródia nas redes sociais. Há, até, quem peça... Zidane.

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