Grande Futebol
A "terrível experiência" de Carlos Santos, ex-capitão do Boavista, em Chipre
Eduardo Botelho
2017-09-07 17:00:00
“A dois dias de fechar o mercado chamaram-me e as condições tinham mudado totalmente”, contou o jogador ao Bancada

“A dois dias de fechar o mercado chamaram-me e as condições tinham mudado totalmente”, contou ao Bancada Carlos Santos, ex-central e capitão do Boavista, sobre a “terrível experiência” que viveu em Chipre, há pouco mais de uma semana. O jogador português de 28 anos chegou a ser apresentado no Aris Limassol, onde treinou uma semana e contava com o apoio do treinador, mas foi surpreendido pelas mudanças que quiseram impor ao contrato que assinara e cuja cópia nunca recebeu. Neste momento está sem clube, numa altura em que a maior parte dos plantéis já estão formados.

Depois de cinco temporadas ao serviço do Boavista, clube que acompanhou na subida do Campeonato Nacional de Seniores à Primeira Liga e de que chegou a ser capitão, o contrato de Carlos Santos chegou ao fim e o jogador teve de procurar alternativas. “A partir do momento em que soube que não ficava no Boavista, o objetivo foi ir para fora. Eu e a minha mulher falámos e concluímos que este era o melhor momento, porque o miúdo, com um ano, não ia sentir tanto o choque de sair, para ele a adaptação era muito mais fácil. Falámos e também era uma experiência para mim”, explicou Carlos Santos que, a 20 de junho, deixou uma mensagem de despedida e agradecimento ao clube nas redes sociais.

 

 

 

 

A proposta do Aris Limassol

Depois, já em agosto, a proposta do Aris “apareceu de repente. Eu deixei para a última, fui esperando, não fui vendo nada para Portugal, estava sempre à procura para fora, até que o empresário me falou dessa situação. Tive de arrancar de um dia para o outro. Foram-me apresentadas as condições, que aceitei. Cheguei lá, assinei e fui apresentado. Tudo bem. Fui logo treinar, arranjaram-me o apartamento, que ainda era o aparthotel, e ficaram de me arranjar casa”, recorda o central. Tudo parecia correr bem e, a 25 de agosto, o clube anunciava oficialmente a chegada do português.

“Depois, fui achando tudo muito estranho, porque não me deram a cópia do contrato, que costumam dar logo, mas fui confiando nas pessoas. A dois dias de fechar o mercado, chamaram-me e as condições tinham mudado totalmente. Eu disse que não aceitava, mandaram-me rasgar o outro contrato, eu disse que não aceitava e que ia embora e eles foram, um de cada vez, sempre a vir falar comigo - era o diretor, depois era o presidente, depois era outro - para aceitar, que faltavam dois dias para fechar o mercado e que ia ficar sem jogar, mas eu disse na mesma que não foi o acordado, não podia ficar lá assim. Tenho a mulher e o filho, não ficava lá pelos valores que eles me queriam dar, nem compensava jogar no Campeonato de Portugal [o terceiro escalão do nosso futebol] aqui em Portugal”, explicou Carlos Santos ao Bancada, que não exclui a hipótese de a situação ter sido premeditada pelos dirigentes do Aris. “Pensando agora, foi muita coincidência não me darem logo o contrato. Pedi para mandarem para o empresário, porque fui sozinho, e eles disseram que iam mandar e também não mandaram. Vendo as coisas assim, se calhar até já tinham planeado assim, porque fazer uma coisas dessas a dois dias de fechar o mercado…”

O apoio do treinador, apesar da adaptação difícil

Carlos Santos reconheceu que a sua adaptação ao país não estava a ser fácil, pelas dificuldades da Língua, mas o treinador contava com ele. “Estive uma semana a treinar. A minha adaptação não estava a ser muito fácil, porque percebo inglês, o básico, mas não sei falar e não estava a ser muito fácil, até porque eles falam grego. Só tinha dois brasileiros no plantel e um era central e o outro era um médio que também podia fazer de central, e não é fácil. Fui falar com o treinador, a dizer que não estava a ser muito fácil a adaptação e ele disse para eu estar tranquilo, que ia jogar, que ia ajudá-los muito e ele ia-me ajudar a mim. Tinha assinado, eram dois anos de contrato, agora tinha era de me preparar para os jogos, porque estava parado há algum tempo e o campeonato já tinha começado [a Liga Cipriota começou a 19 de agosto]. O treinador já tinha feito um plano para mim, de ginásio de manhã e treino à tarde, para poder ficar o mais rápido possível em condições”, explicou o jogador que garante que o treinador não teve qualquer responsabilidade no que lhe aconteceu, “tanto que o treinador, no dia em que venho embora, dá uma entrevista, que tinham dispensado um jogador porque eu tinha chegado. Nesse dia estava eu no aeroporto para arrancar, que queria era vir embora! Acho que ele nem sabia das condições que o presidente me tinha proposto.”

À procura de clube enquanto mantém a forma

Depois de regressar de Chipre e sem nenhum contrato ou documento que possa usar como prova do que lhe aconteceu, resta a Carlos Santos procurar um novo clube, para continuar a sua carreira. “Neste momento não tenho clube, mas ainda há mercados onde posso entrar, a questão é que a maioria dos plantéis já estão feitos. [Em Portugal] até posso ser inscrito por ser um jogador livre, mas tem de haver uma lesão ou algo assim para eu conseguir entrar porque agora já está tudo com o plantel definido…”, conta, acrescentando que, enquanto procura oportunidades no estrangeiro, vai treinar com uma equipa, para manter a forma.

Uma má experiência e uma lição

Infelizmente, a experiência vivida por Carlos não é inédita. “Sei que não foi caso único no mundo do futebol, já falei com alguns empresários e todos me disseram que é normalíssimo…”, diz o jogador que garante que aprendeu a lição. “Cheguei à conclusão que tem de se ver bem para onde se vai, não se pode ir assim para qualquer lado”, conclui.

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