Opinião
Bolsonaro, Jardim, Cardoso
Mauro
2018-10-20 14:00:00
Régis Dupont é jornalista do L’Équipe e escreve no Bancada sempre ao terceiro sábado de cada mês

Esta semana, o sulfuroso favorito nas eleições presidenciais do Brasil, Jair Bolsonaro, apareceu num vídeo a discutir política vestido com uma camisola do FC Porto. Que mensagem quereria enviar o homem que, daqui a oito dias, pode tornar-se o dirigente mais poderoso de toda a América do Sul? Nem ele próprio o saberá com toda a clareza, no final de uma campanha eleitoral que implicou gente do futebol muito para lá do aceitável. Vários jogadores brasileiros deixaram mais ou menos claro o seu apoio a Jair Bolsonaro, esse nostálgico da ditadura militar. Homofóbico, racista, reacionário, este populista pode conseguir a proeza de unir elites e a massa de pobres deixada á beira da estrada por sucessivos governos.

Até Neymar se deixou seduzir. A estrela do PSG exibia na testa uma faixa a dizer “100 por cento Jesus” quando recebeu a medalha de ouro olímpica, em 2016. Há dias deixou nas redes sociais uma mensagem de apoio a Bolsonaro. Um post que foi rapidamente apagado, é verdade, mas que importa. Frequentemente de fé evangélica, a maioria dos internacionais brasileiros – e o maior de todos eles – rodam de forma mais ou menos aberta pelo Trump sul-americano, que se aliou aos partidos religiosos.

É possível que Ganso, o antigo companheiro de Neymar no Santos FC, deposite também o seu boletim de voto a favor de Bolsonaro. No entanto, o jogador do Amiens, evangélico, contou algumas verdades na primeira entrevista que deu após chegar a França, neste verão. Na edição de ontem do “L’Équipe” afirmou: “Não devo ser eu, Ganso, a dizer que o melhor candidato é A ou B”. Lamentou que “por vezes, no Brasil, as pessoas não sabem verdadeiramente por que razão votam no candidato A, B ou C. Não têm verdadeira consciência política”. E, sobretudo, juntou: “Se melhorássemos a educação em geral, o Brasil estaria muito melhor. Eu tive a sorte de estudar em bons estabelecimentos e vivo no estrangeiro. E isso dá-me, sem qualquer dúvida, um maior distanciamento”.

Ao ouvi-lo, comentámos que esta antiga grande esperança do futebol brasileiro nunca será presidente de um clube. Pelo menos em França. Em poucas semanas, a Ligue 1 separou-se dos seus dois treinadores portugueses. Se as partidas de Miguel Cardoso e de Leonardo Jardim não são da mesma natureza, ambas ilustram a falta de nível dos dirigentes franceses. É certo que FC Nantes e AS Mónaco fizeram um mau início de época, mas os resultados dececionantes tinham explicações objetivas: a completa mudança de filosofia do FC Nantes e o mercado muito discutível protagonizado pelo AS Mónaco.

Meses depois de ter declarado que queria fazer dele “o Alex Ferguson do Principado”, Vadym Vasyliev, o vice-presidente monegasco, demitiu Leonardo Jardim por causa de um banal conjunto de maus resultados. Por ter pressentido que o treinador madeirense estava a iniciar uma época a mais, sacrificou um técnico que encaixava perfeitamente na política do clube para fazer chegar uma lenda da casa. Formado no Rocher, Thierry Henry conseguirá, sem qualquer dúvida, colocar a equipa de Radamel Falcao na metade superior da classificação. E depois? Depois deparar-se-á com o “trading” desenfreado dos seus superiores, que será prejudicial às suas ambições pessoais. E o AS Mónaco terá de procurar novo técnico, um treinador com perfil “à Jardim”.

Para já, a ironia de tudo isto situa-se nas referências citadas na sua apresentação pelo ex-capitão da seleção francesa. Além de Pep Guardiola, Aimé Jacquet, Didier Deschamps ou outras figuras já esperadas, Thierry Henry falou de José Arribas, Jean-Claude Suaudeau e Raynald Denoueix, os artesãos do famoso “jogo à FC Nantes”. “Os percursores do futebol de transição”, recordou. Ao evocar estes grandes treinadores,m de notoriedade muito francesa, o antigo ídolo de Highbury não pensaria certamente em Miguel Cardoso. E no entanto era um pouco dele que falava.

Com o seu gosto pela posse, pelo movimento, pela técnica, o ex-treinador do Rio Ave seguia um pouco os passos destes grandes nomes do FC Nantes. Só que estes tinham beneficiado de um privilégio quase inimaginável em 2018: no tempo deles, em Nantes, o patrão era o treinador. A ponto de, quando decidiu terminar a carreira e entronizar o seu número dois, a poucas semanas do início da época de 1997/98, Jean Claude Suaudeau limitou-se a convocar Raynald Denoueix para o seu gabinete, onde teve com um ele um diálogo surreal:

- Tudo bem?

- Sim, está tudo bem.

- Estás pronto?

- Pronto para quê?

- Vais ser tu, vais continuar. Os jogadores chegam daqui a uns minutos, eu vou falar com eles. És tu que continuas.

Durante algumas semanas, alguns meses, Denoueix ouvia pelas costas: é um Suaudeau menos bom. Mas tinha o tempo à sua frente. Em quatro épocas, ganhou duas Taças de França e um campeonato. O destino de Cardoso foi traçado pelo seu impaciente presidente em meia-dúzia de jogos, entre outras razões porque os jogadores punham em questão o seu método em termos semelhantes aos que se ouviram da boca de alguns monegascos no início da era-Jardim.

O sucessor de Miguel Cardoso, Vahid Halilhodzix, é, como Henry no AS Mónaco, uma lenda do FC Nantes. Começou por desvalorizar o trabalho do seu antecessor, deixando crer que à chegada tinha descoberto um campo de ruinas. É evidentemente falso. Mas o jogo maldoso dos bancos de futebol ou da política de hoje leva a que o fundo dom problema fique sempre atrás de uma cortina de fumo.

Régis Dupont é jornalista do L’Équipe e escreve no Bancada sempre ao terceiro sábado de cada mês.

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