Prolongamento
No meio dos vikings, o lusitano destaca-se
Luís Santos Castelo
2018-10-08 23:00:00
Pedro Hipólito (à esquerda) chegou à Islândia em 2017 e foi agora contratado por uma equipa do primeiro escalão

O valor do sangue luso tem subido no mercado dos técnicos de futebol e, por isso, ser um treinador português a trabalhar no estrangeiro não é uma novidade. No entanto, ainda há culturas futebolísticas que não estão habituadas a ideias vindas de Portugal e uma delas é a longínqua Islândia, terra de frio e de vikings. Contudo, há um jovem treinador chamado Pedro Hipólito que tem vindo a criar bom nome na ilha do Atlântico e que promete continuar a ser emigrante durante algum tempo. “Para se viver na Islândia não chega o currículo ou o conhecimento. Se não formos 100% profissionais, não temos hipótese”, garantiu Pedro Hipólito em conversa com o Bancada.

Aos 40 anos, Pedro Hipólito foi agora contratado pelo ÍBV depois de se ter destacado como treinador do Fram Reykjavik, do segundo escalão do futebol islandês. Tudo isto anos depois de se ter formado como jogador no Benfica, jogado como profissional na Académica e ter orientado, entre outros clubes, o Atlético na Segunda Liga. Foi internacional pelas camadas jovens da Seleção Nacional, tendo inclusive feito parte da equipa que conquistou o Europeu de sub-16 em 1995 ao lado de nomes como Marco Caneira ou Hugo Leal e que foi à final do Europeu de sub-18 em 1997. Estes foram os anos mais brilhantes da carreira de Pedro Hipólito dentro das quatro linhas, tendo jogado em Torreense, Académica, Farense, Amora FC, Olivais e Moscavide e CF Caniçal antes de pendurar as botas em 2007, ainda antes dos 30 anos.

Mas já lá vamos. Comecemos pelo início e pela especial ligação que Pedro Hipólito tem ao Benfica e à Académica pelas palavras do próprio. “O Benfica marcou-me. Tenho dez anos de Benfica, cresci no Benfica. Comecei no Domingos Sávio e aos onze fui para o Benfica. Aprendi muito, cresci, fiz muitos amigos. Obviamente que a experiência na Seleção Nacional, onde fomos campeões europeus de sub-18, também foi muito importante. A Académica também me marcou muito, especialmente com a subida de divisão. São os dois clubes que mais me marcaram”, explicou. O final de carreira antecipado aconteceu devido a lesões nos joelhos que, de acordo com Pedro Hipólito, forçaram essa decisão.

Passar para treinador foi uma consequência natural. Quando ainda era um jovem jogador, Pedro Hipólito tirou logo os dois primeiros níveis do curso de técnico e, mais tarde, chegou ao nível 3. “Sempre gostei de entender o jogo, tentar arranjar alternativas ou estratégias”, disse, assegurando que, se tivesse de optar entre ser jogador ou treinador, escolhia a segunda opção. Começou a treinar em 2008/09, iniciando-se nas camadas jovens do GSMD Talaíde, no distrito de Lisboa. Os primeiros anos foram duros, mas importantes. “[Tive] muitas dificuldades próprias de equipas ou clubes do distrital. Obrigam os treinadores a arranjar alternativas para superar essas dificuldades e foi muito importante para crescer e desenvolver o conhecimento”, referiu.

Após pequenas aventuras no GD Joane e GD Ribeirão, equipas do Campeonato de Portugal, teve em 2015/16 um dos maiores desafios da carreira ao pegar no histórico Atlético na Segunda Liga. Nem tudo correu de feição e Pedro Hipólito saiu no decorrer da temporada, mas grande parte dos problemas vinham de cima, da SAD. “O Atlético tinha sido comprado por um grupo chinês e foi formada a SAD. Ser um grupo forte e ter capacidade financeira para comprar clubes não quer dizer que tenhamos capacidade para gerir um clube de futebol. Não podemos gerir um clube da mesma forma que gerimos empresas. Jogamos todas as semanas, os resultados contam. E isso criou muitos problemas ao Atlético, essa falta de sensibilidade. E não digo só comigo, porque antes de mim passaram grandes treinadores.”

Chegar, ver e vencer na Islândia

A mudança para a Islândia faz-se em 2017, quando foi contratado pelo Fram Reykjavik, clube da capital do país. E encontrou algo bem melhor do que a maioria dos portugueses possa pensar. “Vim à Islândia, conheci o clube e o futebol e acabámos por chegar a acordo. A Islândia não era um país de futebol, mas, até pela evolução da sua seleção nacional, tem que se olhar para o jogador islandês de uma forma diferente. São jogadores competitivos, com uma paixão muito grande. O Fram é o terceiro clube com mais títulos da história do futebol islandês. Sempre quis e continuo a querer trabalhar no estrangeiro e aproveitei esta oportunidade”, começou por revelar.

Tendo pegado na equipa a meio da época, conseguiu garantir a permanência do Fram Reykjavik na segunda divisão do futebol islandês e partir para 2018 com mais estabilidade. Com o português Tiago Fernandes, antigo júnior de Sporting e Belenenses, no plantel, assegurou mais uma permanência. Aos poucos, foi conhecendo também melhor o país que considera ser “altamente desenvolvido”. “Está tudo muito bem estruturado com excelente qualidade de vida e sistema de segurança social. É um país que está no topo da Europa. É uma experiência diferente. Gosto muito do nosso país, do nosso clima e das pessoas, mas não sou muito agarrado a essas coisas. Aquilo que Portugal dá, a Islândia não dá e vice-versa”, considera, admitindo um ligeiro choque cultural. “São nórdicos, mais ponderados, não entram tanto em conflito e têm regras e discplina muito rigorosas. Nem digo se é melhor ou pior, é o que é. É uma cultura muito disciplinada. Regras são regras, orçamentos são orçamentos e é assim que se tem de trabalhar. A disciplina do islandês faz um bocadinho a diferença.”

Regressando ao futebol, Pedro Hipólito não negou que os islandeses “não acompanham muito o futebol português”, tendo especial atenção a José Mourinho devido ao gosto que têm pelo futebol inglês e a Cristiano Ronaldo pelos motivos óbvios. A vitória no Europeu de 2016 também deu algum relevo à Seleção Nacional na Islândia, mas a nível de clubes só dois emblemas têm expressão: “só o Benfica e o FC Porto é que têm alguma dimensão aqui na Islândia. Mas olham para o jogador português como um jogador talentoso, olham para o treinador português como um treinador de sucesso. Têm uma boa imagem”.

Menos talentosos mas, talvez, mais raçudos são os jogadores islandeses. “É um futebol muito competitivo, não há jogos fáceis. Os jogos são disputados até ao limite. O jogador islandês não pára de correr, trabalhar, lutar. Supera-se a falta de conhecimento do jogador pela sua vontade e dedicação ao jogo, o que faz com que sejam muito difíceis de bater. Por vezes, o conhecimento de algumas equipas não é o melhor mas também porque os jogadores mais talentosos saem muito cedo do país. As equipas são bem orientadas, têm bons treinadores. São jogos muito interessantes e com um ritmo alto.”

O bom trabalho no Fram Reykjavik valeu-lhe um salto para a Primeira Liga da Islândia, o que o deixou “muito contente”. A época, no entanto, não se afigura nada fácil depois de um grande corte no orçamento do plantel para a próxima época. “O objetivo é manter a equipa na Pepsi League. A equipa não vai à Liga Europa e reduziu em 20% o orçamento. Queremos manter a equipa obrigatoriamente na Liga e tentar melhorar o sexto lugar na época passada. Ainda estou a conhecer o clube, vou mudar de localidade e têm outra forma de pensar.”

E voltar a Portugal? Só por uma “proposta irrecusável”. Questionado sobre se se essa proposta irrecusável seria um convite para um clube de Primeira Liga, Pedro Hipólito respondeu que sim, mas que esse não é o único fator. “Neste momento estou muito focado para fazer carreira na Europa, fora de Portugal. É um objetivo de vida viver e ultrapassar estes desafios, conhecer pessoas e culturas diferentes. Para voltar a Portugal teria de ser uma coisa mesmo... Teria de dizer que «não há hipótese, tem mesmo de ser»”, assegurou, explicando depois uma das coisas que o vai afastando de Portugal.

“Não é uma das razões, é um lamento que eu tenho. Hoje coloca-se tudo em causa em Portugal. Todas as estruturas e todos os clubes colocam-se em causa. Temos um país campeão europeu, temos o melhor jogador do mundo, temos um dos melhores treinadores do mundo, muitos e bons jogadores por esse mundo, a melhor academia do mundo que é a do Benfica... Estar-se sempre neste clima de guerra é matar o futebol em Portugal e matar o campeonato português”, concluiu.

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