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Amâncio Fortes: O Globetrotter formado no Sporting e com passagem no Man Utd

RedaçãoPor Redação08/11/20187 Mins Leitura
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O Bancada esteve à conversa com o jogador que passou pela Indonésia e que participou na Liga Europa

É um verdadeiro Globetrotter. Fez grande parte da formação no Sporting onde partilhou o balneário com alguns dos melhores jogadores portugueses da atualidade, passou pelo Manchester United e viveu momentos de pânico na Indonésia. Esta é a história de Amâncio Fortes, o português – nascido em Angola – que está à conquista da Letónia, ao serviço do FK Ventspils. A nível profissional, o ponto mais alto da carreira deu-se com a participação na Liga Europa, onde defrontou o lateral mais implacável que encontrou até hoje.

Mas vamos por partes.

Amâncio chegou a Portugal, vindo de Angola, tinha apenas dois anos. Foi em Rio de Mouro que aprendeu o gosto pelo pontapé na bola e foi no clube local, pela mão do pai, que começou a jogar futebol um pouco mais a sério. Mas a coisa ainda se tornaria mais séria. Depois de alguns torneios a usar as cores do Rio de Mouro, Amâncio soube do interesse do Sporting. Isso mesmo. O mesmo clube que formara jogadores do calibre de Cristiano Ronaldo, Luís Figo, Ricardo Quaresma e Nani estava agora de olho no puto Amâncio.

A decisão não foi difícil. Afinal de contas não se diz que não a um dos maiores clubes de Portugal. Na Academia de Alcochete cruzou-se com Adrien Silva, Diogo Viana, Wilson Eduardo e André Martins, por exemplo, e por lá esteve cerca de cinco anos. “Até que a brincadeira acabou”, recordou Amâncio, com carinho e no meio de gargalhadas. É que depois foi emprestado pelos leões ao Real de Massamá – por lá ficou duas temporadas -, até que se decidiu pela sua primeira experiência no estrangeiro.

Amâncio Fortes em ação

 

A passagem pelo Manchester United

“Fui sozinho. Fui à procura”, recordou-nos Amâncio Fortes, hoje com 28 anos de idade. A verdade é que a presença de alguns amigos em Londres facilitaram a decisão do jovem Amâncio em tentar a sua sorte em Terras de Sua Majestade. Primeira paragem: Stratford – onde viria a ser construído o Parque Olímpico -, clube: o Leyton Orient, fundado em 1881, um histórico, portanto. E as coisas nem correram nada mal, pelo menos dentro dos campos, contou-nos o próprio Amâncio, que até já tinha um contrato apalavrado.

A verdade é que a situação complicou-se devido a umas férias e uma viagem fora de tempo e a coisa acabou por não acontecer, mas o impacto estava criado. Nos tempos que esteve em Londres conheceu alguém com alguma influência no Manchester United e a oportunidade surgiu. A viagem seguinte que Amâncio fez para Inglaterra já foi mais para norte. Desta feita o destino era Manchester e o clube era o Manchester United. O que mais poderia pedir um jovem à procura de se tornar jogador profissional?

Amâncio esteve quase cinco meses na academia do Manchester United, sempre sob a vigilância atenta de Alex Ferguson. A verdade é que nem tudo correu bem ao então miúdo de 16 anos e Amâncio teve de voltar a fazer as malas para regressar a Portugal e ao Real de Massamá. Uma coisa é certa. A experiência de ter treinado num dos melhores clubes do Mundo ninguém lha tira. O puto de Rio de Mouro.

 

O crocodilo que afinal era um papa-formigas

Em conversa com o Bancada, Amâncio Fortes reconheceu que tomou algumas opções das quais se arrepende, por exemplo, ter aceitado mudar-se para o campeonato angolano no seu primeiro ano de profissional. “Se calhar, na altura, as pessoas que estavam a tomar conta da minha carreira estavam mais preocupadas com as comissões do que com o meu futuro”, explicou-nos o atacante que está prestes a disputar a última jornada do campeonato letão antes de viajar para Portugal para gozar as merecidas férias.

No entanto, lembra-se de algumas decisões que tomou com receio e que no final correram às mil maravilhas, por exemplo, a transferência para a Indonésia. Explicou-nos Amâncio que não tivessem sido os pais a convencê-lo de que seria a melhor opção para a sua carreira, nunca se teria mudado para o outro lado do Mundo. “Mas nunca me arrependi da decisão. Aliás, não me importava nada de voltar para lá”, disse-nos de forma perentória, ele que esteve doi anos no futebol indonésio, o tempo suficiente para apanhar um susto.

“Um dia estava sentado à porta de casa com o meu primo – levei-o para a Indonésia comigo – e estávamos na conversa quando ao longe vimos um crocodilo, no fim da rua. Ficámos com medo. Arranjámos maneira de o estarmos a ver de longe, meio com medo, meio curiosos. Aquilo passou, mas andávamos sempre com receio de que se pudesse aproximar de nós. O que lá aconteceu, um dia. Mas afinal não era um crocodilo… era um papa-formigas. Nós a pensar que tínhamos visto um crocodilo e afinal era um papa-formigas”, lembrou-nos Amâncio no meio de muitas gargalhadas.

 

A vida difícil no leste e a falta de pagamento

Depois da experiência no futebol asiático, Amâncio regressou à Europa, mas apenas por alguns meses, foi o tempo que representou a equipa B do Recreativo de Huelva. Depois de alguns jogos na Segunda Divisão B espanhola, o atacante decidiu regressar ao futebol angolano. Foi lá, na sua terra natal, que começou a carreira de profissional cinco anos antes. Mas as coisas não correram muito bem e Amâncio optou por regressar Portugal e recomeçar. Tomou uma decisão que lhe abriu outras portas. Assinou por uma agência com relações vincadas com o futebol do leste.

Mas desengane-se quem pense que a vida se tornou mais fácil para Amâncio. Esteve no CSKA Sofia (Bulgária) e não lhe pagaram, depois foi para o FC Zimbru, na Moldávia, e não lhe pagaram. Teve de fazer as malas e regressar a Portugal, onde esteve ao serviço de, adivinhe-se, Coruchense, do Campeonato de Portugal. Depois recebeu nova proposta do FC Zimbru, com a promessa de que desta vez tudo seria diferente, e lá foi Amâncio de novo para a Moldávia. Mas não foi nada diferente. Voltaram a não cumprir com o que lhe tinham dito e lá veio Amâncio de novo para Portugal. Desta feita para representar o casa Pia.

Mas os moldavos nunca mais o largaram. Tinham visto o que era Amâncio capaz de fazer com uma bola nos pés. Desta vez foi o FC Dacia que o convidou e desta vez as coisas já correram bem melhor. Pelo meio destas aventuras e desventuras, Amâncio teve a oportunidade de participar na Liga Europa, nas pré-eliminatórias, mais propriamente. E foi num destes jogos que o extremo encontrou o defesa-lateral que mais o marcou.

 

O melhor lateral que defrontou

Depois de eliminar o Chikhura, da Geórgia, ao FC Zimbru calhou em sorte o Osmanlispor, da Turquia. A primeira mão, na Moldávia até correu bem. O jogo terminou empatado 2-2, com duas assistências de Amâncio. O pior estava para vir. E chegou em força. “Na segunda mão deixaram-se de brincadeiras”, lembrou Amâncio. “Já jogaram com os titulares e apanhei o lateral mais complicado da minha carreira: o Tiago Pinto. Tanto a defender como a atacar. Não me deu um segundo de descanso”, recordou Amâncio.

A vida de Amâncio, por estes dias, é passada na pacatez de Ventspils, uma cidade costeira que fica a cerca de três horas de Riga, capital da Letónia. “A minha vida é treino/casa, casa/treino. Não faço mais nada. Não há nada. Não há um centro comercial. Os restaurantes são muito poucos. Não se passa mesmo nada aqui”, desabafou Amâncio, que já assinou mais um ano de contrato com o FK Ventspils. “Vou ver se para o ano trago a minha namorada para me vir ajudar a passar o tempo”, disse-nos.

Amâncio sente-se bem no FK Ventspils, apesar de alguma solidão fora dos relvados, a verdade é que, dentro de campo, sente-se importante. É uma das peças chave da manobra ofensiva da equipa e para um jogador de futebol é fundamental sentir que a equipa melhora com o seu contributo. O desejo de voltar a Portugal existe, mas não é uma obsessão para Amâncio Fortes, o puto de Rio de Mouro que passou pelo Sporting e chegou a treinar no Manchester United. Por agora está à conquista da Letónia.

Amâncio Fortes Angola FK Ventspils Liga Letã Sporting
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