Visto da Bancada
Vasco Samouco (nº163)
2017-11-23 11:00:00
A primeira vez do jornalista Vasco Samouco no Jamor foi também a primeira ida ao futebol em família.

"Isto não se devia dizer, mas, mais de 20 anos depois, já não deve ter importância. Fui a este jogo com o meu pai e o meu irmão num carro de dois lugares e, para evitar as multas, eu e o meu irmão fizemos os 400 quilómetros da ida... na mala. Eu tinha 11 anos, o meu irmão tinha 5. E íamos felizes da vida, claro.  

O Jamor tem aquela aura especial, já se sabe, mas só anos mais tarde é que me apercebi disso. Neste jogo em particular apenas me lembro de coisas que se passaram dentro do estádio. E não foram boas. Era o último jogo do Sánchez e do Nuno Gomes pelo Boavista [final da Taça de Portugal 1996/97 que o Boavista venceu o Benfica por 3-2], nesta altura já se sabia que iam para o Benfica. No fim do jogo, nem eu nem o meu irmão os queríamos ver à frente. E nem a lucidez do meu pai nos acalmou, até ao dia seguinte. Foi por causa deles que perdemos. 

Vimos o jogo ao lado dos adeptos do Boavista, o meu irmão às cavalitas do meu pai, e à meia-hora já o Sánchez e o Nuno Gomes tinham marcado. E num deles, o Nuno Gomes, o tal que vinha para nós, deu um sprint de um lado ao outro do campo para festejar. Como era possível que semanas depois estaria do nosso lado? Não podia ser. Os boavisteiros festejavam, o meu irmão segurava as lágrimas (ainda hoje não sei como ele conseguiu) e eu só queria que aquilo acabasse depressa. Ainda hoje, penso que esse jogo foi a pior exibição que me lembro de ter visto do fabuloso Preud’Homme. E o João Pinto, o ídolo, pouco se viu.  

Do que o Benfica fez nesse jogo, lembro-me pouco. Não deve ter feito nada de importante, portanto. Foi tão esquisito que até um tal de El-Hadrioui marcou um golaço que, na altura, nos devolvia a esperança num final feliz e pelo menos teve o condão de nos animar. A inocência, às vezes, é boa. Vimos a entrega da taça e outra vez o Nuno Gomes eufórico. (acho que me lembro mais dele do que do Sánchez por causa do cabelo) 

Regressamos a casa desolados, pois. Mais o meu pai, até, que tinha mais noção das coisas e via como o Benfica se ia afundando naquela que seria a pior crise da história: não voltaria a ganhar um troféu nos próximos anos. Só que ele ainda teve conduzir mais 400 quilómetros, enquanto eu e o meu irmão regressámos à mala e só acordamos na garagem de casa. O Benfica perdeu, mas, hoje, quando olho para trás não sei se trocava esse dia por outro em que o futebol foi mais feliz para mim".

Texto escrito pelo próprio Vasco Samouco, jornalista do diário Jornal de Notícias

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