Visto da Bancada
Ruim (nº 41)
2017-07-11 15:30:00
O Ruim contou ao Bancada a história do pai "lagarto" que foi "lampião" por instantes pelo filho

Não existe maior paixão que a que temos por um filho ou assim me consta, dado que ainda não sou pai. Não existe maior paixão que a que um adepto tem pela sua equipa ou assim me consta, dado que não a sinto dessa forma também. Pais e filhos, adeptos e as suas equipas. Duas paixões que se tendem a cruzar e a alimentar mutuamente por entre estádios e campos espalhados por este país fora. O meu pai não era diferente, ele sim, um apaixonado por futebol e pelo seu clube de leão ao peito. Ele deve ter notado alguma apatia da minha parte ao olhar para um jogo de futebol e que não o motivou a insistir muito na coisa. Desde cedo mostrei uma inclinação pelo clube da Luz que também o deixou pouco ou nada afetado, como se a minha amena demonstração de paixão fosse justamente o que o Benfica merecia ter (algo como “o meu filho é o do Benfica, mas ele ainda não está convencido). Foram bastantes as tardes de “futebol de sofá” com o meu pai a ver os jogos do Sporting. Descobri nesta situação, uma nova paixão: ver o meu pai a ver a bola. Um espectáculo dentro de outro espectáculo. Os rituais, manias e superstições. O seu salto e grito de vitória e o cigarro que era sempre acendido religiosamente após qualquer golo sofrido. Quis o senhor levar-me ao estádio uma vez que fosse na vida. Uma última tentativa para acender a chama imensa. Teve de ser. É daquelas coisas que qualquer amante de futebol com um filho tem de fazer eventualmente, mesmo sendo eu um simples lampião apagado e ele um leão resignado a toda essa situação. 1993. Final da Pepsi Cup entre o Barcelona de Romário e o Benfica de Rui Águas. Tinha eu onze anos. Um dos muitos miúdos de mão dada com o pai ou mãe nas bancadas do antigo Estádio da Luz. Lembro-me de perguntar ao meu pai se ele ia festejar os golos do Benfica, caso houvesse algum. “Lá vai ter de ser, não é?” - responde de forma trocista. Todo aquele ambiente de estádio era novo para mim. Gritos, cânticos e apitos. Olhava para o meu pai a bater palmas às melhores jogadas do Benfica e a discutir as mesmas com outro adepto sentado ao seu lado como se fossem companheiros de bola que se conheciam há anos. Mal sabia ele do “lagarto”que o meu pai era . Ri-me. Novamente, era ele o espectáculo dentro do outro que decorria nas quatro linhas e que continuava a não me fascinar tanto como devia. Golo do Benfica! Saltou de mãos no ar, festejando com o seu novo melhor amigo. Olhou para mim, encolheu os ombros e riu-se. Continuava a achar mais fascinante olhar para as pessoas a vibrar com futebol do que propriamente com o jogo em si. A primeira vez que o meu pai me levou à bola. A primeira vez que o nosso pai nos leva à bola. Será sempre um dos mais importantes jogos que poderemos assistir. A passagem deste testemunho da paixão de pai para filho. Todo o pai quer ser do clube do seu filho, mas nem todo o filho irá ser do clube do seu pai (para grande “desgosto” do último). O jogo terminou 2-1 com a vitória do clube da Luz. Para grande satisfação minha, logo no meu primeiro jogo no estádio, vejo a minha equipa ganhar ao Barcelona. E pelos vistos, a do meu pai naquele momento.

“As coisas que um pai faz por um filho.” - ouvi eu à saída. Sem dúvida.

Há jogos que não se esquecem.

O Ruim alegra diariamente milhares de portugueses com as histórias que partilha no Facebook e aceitou escrever para o Bancada uma que jamais esquecerá

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