Visto da Bancada
Pedro Gonçalves (nº 145)
2017-11-04 12:30:00
Pedro foi treinador na formação do Sporting durante mais de uma década e relembra a primeira vez que entrou em Alvalade.

“Muitas vezes, os primeiros jogos são aqueles que depois nos guiam para o resto da vida, daí a preocupação que os pais têm de ter em escolher os primeiros jogos. O meu pai não deve ter pensado no assunto, mas calhou-lhe bem, calhou-lhe bem...”, conta, entre risos, Pedro Gonçalves, que foi treinador da formação do Sporting durante mais de uma década, sobre a primeira vez em que entrou “num estádio a sério”, com nove anos de idade.

O treinador, que hoje trabalha na formação do Primeiro de Agosto, em Luanda, recordou o dia em que a família foi numa espécie de excursão até Alvalade ver um GD Chaves que acabava de se estrear na primeira divisão, em 1985. “A minha familia é de Trás-os-Montes e a família do meu pai é mesmo de Chaves, de maneira que sempre cresci a torcer pelo GD Chaves. Curiosamente o meu pai sempre foi sportinguista também”, explica Pedro, que teve, assim, a oportunidade de ver em ação as duas equipas a que estava mais ligado por questões familiares. “Fui com o meu pai, com o meu avô e com primos que estavam emigrados em França, que cá estavam na altura, porque isto foi no final do verão. Alguns estavam mais divididos porque eram do Sporting e do GD Chaves e recordo-me que acabámos, no meio daquilo tudo, também se calhar um bocadinho provincianos, por ir para o meio da Juve Leo. Para mim aquilo era tudo novidade, eu olhava para aquela gente toda, com o estádio cheio... isto tudo marcou-me imenso. Acabámos por ir para o meio da curva Sul. O meu avô, pai do meu pai, era todo portista, flaviense também, mas todo portista e já não achava tanta graça a estar ali como o meu pai acharia naquele tempo. Recordo-me daqueles momentos de emoção, com os adeptos do Sporting a protestar contra os jogadores do GD Chaves e o meu avô levantar-se e reclamar com eles, uma confusão... o meu pai teve de se meter à mistura para que aquilo não descambasse”, conta Pedro sobre um episódio sem gravidade.

O facto de o jogo ter sido à noite, numa altura em que ainda era raro tal acontecer, contribuiu mais para marcar aquele miúdo que, com nove anos, já acompanhava o mundo do futebol. “Já ouvia os relatos e via os resumos no Domingo Desportivo. O GD Chaves subiu e, logo à terceira jornada, depois de um empate e uma vitória, salvo erro, já não consigo precisar bem, veio com alguma moral a Alvalade. Mas, claro que, sendo um clube que estava pela primeira vez na primeira divisão num jogo em Alvalade, toda a gente esperava que levasse uma goleada”, lembra.

E o Sporting venceu, de facto, por 3-0, mas o GD Chaves deixou boa imagem, num ano em que veio a terminar o campeonato no sexto lugar. Pedro Gonçalves lembra-se do GD Chaves “a jogar um futebol de contra-ataque, fechadinho e depois a sair rápido”, numa partida que contribuiu para começar a definir os seus “ídolos de infância que, no GD Chaves, eram o Borges e o Diamantino Braz. O Borges, então, fez um jogão até o mandarem para a valeta. Teve de sair antes do intervalo, lesionado, porque já tinha protagonizado uns três ou quatro contra-ataques que quase deram golo e então sofreu umas entradas duras... Depois acabou por ser o Sporting a marcar a acabar a primeira parte. Sei que o jogo ficou 3-0 e salvo erro o Manuel Fernandes marcou dois golos. Era o Sporting do Manuel Fernandes, do Venâncio, do Litos, do Jordão, recordo-me de alguns jogadores”, diz Pedro Gonçalves e a memória não o atraiçoa. Esse era, de facto, o Sporting desses craques, a que ainda se juntavam jogadores como Vítor Damas, Carlos Xavier, António Sousa ou Jaime Pacheco, numa equipa treinada por Manuel José. Do lado do GD Chaves, António Borges fez, de facto, uma grande exibição até sair lesionado após uma entrada dura de Saucedo, o avançado argentino do Sporting que inaugurou o marcador naquela noite, antes dos dois golos de Manuel Fernandes. Mas as memórias não se fazem só do que se passa no relvado.

“O que me marcou mais foi esta emoção de estar em família, num contexto de futebol, com uma equipa que tinha acabado de subir. Vir lá de cima, de Trás-os-Montes, na altura era sair de madrugada e chegar à noite. Marcou-me imenso, fiquei um adepto inveterado do GD Chaves e, claro, depois também a simpatia pelo Sporting, também por uma questão familiar. Os primeiros jogos são sempre aqueles que nos marcam mais e muitas vezes definem quais as nossas preferências clubísticas”, explica. E, sendo o pai do Pedro flaviense e sportinguista, não sabemos se planeou estrategicamente aquela ida ao futebol mas, “calhou-lhe bem, calhou-lhe bem...”.

Sporting 3-0 GD Chaves, 7 de setembro 1985

Onze do Sporting: Vítor Damas, Gabriel, Morato, Venâncio, Romeu, Carlos Xavier, Jaime Pacheco, António Sousa, Forbs, Manuel Fernandes e Jordão.

Treinador: Manuel José

Onze do GD Chaves: João Fonseca, Amândio, Raúl, Carvalhal, Vivas, Pio, Paulo Rocha, Ferreira da Costa, Jorge Plácido, António Borges e Jorge Silva.

Treinador: Raúl Águas

Golos: Saucedo e Manuel Fernandes (2)

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