Visto da Bancada
Pedro Emanuel (nº 206)
2018-01-13 12:30:00
O dia em que uma criança teve de prometer não contar à mãe que se tinha perdido se quisesse voltar a ir ao futebol

A história de hoje vale por tudo. Pelos rituais criados em redor de uma ida ao futebol que marcam a memória de quem os viveu vezes e vezes sem conta. Pelos laços familiares que se criam no cumprimento desses rituais e pelos laços que por vezes quase se perdem, como é o caso que hoje partilhamos. É verdade. Coitado do pequeno Pedro que se viu no meio de uma multidão sem saber onde estavam pai e avô. Apavorado. Mas a coisa acabou por se resolver com a promessa de poder voltar a ir ao futebol…se não contasse nada do que se tinha passado, à mãe.

18 de abril de 1990, Estádio da Luz, Lisboa. O Benfica acabava de eliminar o Olympique Marselha e estava a caminho da final da Taça dos Campeões Europeus. Conseguiu fazê-lo de forma inesquecível. Vata marcou, com a mão, o golo decisivo. O árbitro não viu. Nem a maior parte das 120 mil pessoas que enchiam o antigo Estádio da Luz. No meio dessas 120 mil pessoas estava o pequeno Pedro Emanuel. O Pedro, que um dia viria a marcar dois golos - nenhum com a mão - e colocar o seu Caldas SC nas meia-finais da Taça de Portugal. Mas voltemos atrás. Ainda antes do golo Vata, quando o pequeno Pedro viu a sua vida, também ela, a andar para trás.

Naquela manhã de 18 de abril os nervos estavam à solta, jogava o Benfica. “O meu pai e o meu avô andavam sempre nervosos nos dias em que o Benfica jogava. Era normal. E nesse dia lá nos preparámos nós com o farnel, porque passávamos o dia em viagem, na antiga estrada nacional 1. Ao chegar a Lisboa arranjámos um lugar tranquilo para estacionar o carro e para podermos comer sossegados .” Até aqui tudo bem. A grande romaria ao Estádio da Luz para ver a meia-final da Taça dos Campeões Europeus. Mas é aqui que a coisa começa a complicar. Imaginem 120 mil pessoas a tentar entrarem num estádio.

“É que as coisas não eram como são agora”, diz o Pedro e diz com razão. “Não havia torniquetes e o controlo era quase inexistente. Abriam aquelas portas que mais pareciam os portões dos quartéis dos bombeiros e o pessoal começava a entrar. Todos à procura dos melhores lugares”, lembra. E foi nesta momento que as coisas ficaram feias aos olhos do pequeno Pedro. No meio da multidão, Pedro perdeu-se do pai e do avô. Nem sinal dos mais velhos. Mas calma. Isso nem foi o pior. “Eu estava a sufocar. Nem me conseguia mexer no meio daquela gente toda.” Pobre criança.

Mas a situação lá se resolveu. “Alguém me viu todo assustado e foi-me entregar à polícia”, diz o Pedro, agora, entre gargalhadas. “Lembro-me do polícia subir a uma caixa de cimento e começar a perguntar ‘de quem é este miúdo?’. Ainda fiquei ali uns minutos à espera que alguém me reclamasse. Até que vi o meu pai e o meu avô em pânico, primeiro, por não saberem onde eu estava, e aliviados, depois quando me encontraram. Nunca mais me vou esquecer desse momento”, diz o atual jogador do Caldas SC.

O que se passou depois é a história de 120 mil pessoas. Aquela que contámos antes. O Benfica ganhou com o tal golo do Vata e qualificou-se para a final da Taça dos Campeões Europeus, onde viria a perder com o Milan por 1-0. Na viagem de regresso a casa, entre festejos pelo resultado do jogo e o alívio pelo susto não ter passado disso mesmo, houve espaço e tempo para um pedido do pai do Pedro, repetido muitas vezes: “Por favor, não contes à tua mãe que te perdemos. Caso contrário nunca mais vens ao futebol outra vez.”

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