Visto da Bancada
Pedro Boucherie Mendes (nº28)
2017-06-28 22:30:00
Diretor da SIC Radical e dos canais temáticos da SIC conta-nos a história de "Oliveira, a Fera"

Ir ao futebol quando se é uma pequena criança nem sempre resulta na perfeição. É uma questão de feitio. Uns entusiasmam-se como poucos e com pouco, outros, como Pedro Boucherie Mendes, não consideram a experiência a mais confortável possível. Contextualize-se, afinal, falamos de assistir a futebol ao vivo nos anos setenta e ainda por cima num estádio como o 1º de Maio em Braga. Quem não achou grande graça à falta de entusiasmo foi o pai de Pedro Boucherie Mendes e, para piorar a questão, o Sporting, o de Portugal, acabou derrotado pelo Sporting… de Braga. Três a um foi o resultado final.

“No primeiro jogo que alguma vez vi na vida ao vivo, o Sporting perdeu com o Braga por três a um, em abril de 1977, no defunto estádio 1º de Maio, em Braga”. Recorda-nos Pedro Boucherie Mendes, atual diretor da SIC Radical e coordenador dos canais temáticos da SIC. Só alguns anos mais tarde deu verdadeira atenção ao que se passava nas quatro linhas do jogo. Naquela tarde de domingo, porém, os seus interesses eram outros: “Tanto quanto recordo, devo ter visto pouco do jogo, distraído que estava a olhar em volta, ou a roer um nougat, para grande irritação do meu pai”.

Se já foi a Braga ainda antes do novo estádio ser construído, ou a qualquer palco do futebol português nos anos setenta na verdade, decerto se reverá nas palavras de Pedro Boucherie Mendes. Estádios com uma magia muito própria, mas definitivamente não os mais confortáveis possível. “Em criança, futebol ao vivo, no estádio, nunca foi a minha perdição. Era confuso e sobretudo tinha muita gente à volta a fazer barulho por tudo e por nada. E muito desconfortável. As bancadas eram rijas como corno, chovia-nos em cima e para um garoto baixote galgar aqueles degraus não era simples”, confessa. A paixão irrefutável chegaria mais tarde. Muito por culpa de “Oliveira, a fera”. Já lá vamos. Há declarações de amor a serem feitas antes disso. E, como qualquer amor, também este não tem explicação lógica. O amor por um clube que não atravessava a melhor fase da sua história. “Como qualquer sportinguista sabe durante muitas épocas a probabilidade de irmos à bola e ver o nosso clube perder ou empatar estupidamente era grande. O Sporting é obviamente o maior clube do mundo, mas também é o clube que mais consegue perder, empatar ou ser eliminado com golos ou falhanços que não lembram a ninguém. Só um sportinguista o pode afirmar e só um sportinguista pode perceber o que estou a escrever”. A declaração de amor tem um propósito. É que, “quando as coisas correm bem, correm bem de um modo quase mágico”.

Estádio de Alvalade, 29 de setembro de 1982. O Sporting recebeu o Dinamo de Zagreb na segunda mão da primeira ronda da Taça dos Campeões Europeus depois de ter perdido por um a zero em território, então, jugoslavo. “Eram tempos de conversa futeboleira do “físico” contra a “técnica”, sendo os lusitanos os franganotes e os eslavos os armários com tijolos nos pés com os quais era preciso ter cuidado”, recorda. A memória apenas o atraiçoa em matéria de pormenor - afinal, havia ou não já bancada nova no agora extinto José de Alvalade? -, porque, o resto, foi inesquecível. Até mesmo a pista de tartan verde do estádio do Sporting. Tudo por causa de um homem. A tal fera. António Oliveira.

“Não me levavam muitas vezes à bola, mas nessa noite lá estava eu, numa quarta-feira de noite”, conta-nos. O Sporting, esse, venceu por três a zero, seguiu em frente na competição e António Oliveira foi o herói da noite. “Noventa minutos depois, tinha visto a melhor exibição de um jogador que alguma vez vi: António Oliveira, um predestinado que chegara do Penafiel, depois de romper com o FC Porto, arrumou os jugoslavos com um hat-trick. Os três a zero foram absolutamente épicos e inesquecíveis, com cada golo a ser melhor que o anterior”. Se em campo, para Oliveira, o jogo foi de obra mestra, fora dele, a vida pregava-lhe uma partida. “Diz a lenda que o seu pai morreu nesse dia e que Oliveira, que era treinador jogador, só o soube no fim do jogo. Quando foi substituído por Freire, já na segunda parte, recebeu uma ovação colossal, como só o público de antigamente sabia dar. Eu devo ter pulado e saltado e batido palmas até não poder mais porque Oliveira era de longe o meu jogador favorito”, admite Pedro Boucherie Mendes.

Aquela noite de setembro foi tão memorável que experienciá-la apenas uma vez soube a pouco ao diretor dos canais temáticos da SIC. Ao ponto de recorrer aos meios possíveis que o permitissem viver tudo aquilo de novo. “Houve qualquer coisa de muito especial que se passou naquela noite e recordo ter ido comprar A Bola, ainda trissemanário, ainda em formato broadsheet, no dia seguinte tentando viver tudo de novo”. A vitória perante o conjunto de Zagreb colocou o orgulho sportinguista em alta, mas, ao contrário do que os filmes de animação sugerem, nem tudo tem um final feliz. “O Sporting vinha de ser campeão, a época estava no princípio, tudo parecia possível. Mas não foi. Oliveira acabaria por deixar de ser treinador antes do final da época e o clube demoraria dezoito longos anos a levantar a taça de campeão outra vez, num jogo que também vi, mas pela televisão”. Certo, é que para Pedro Boucherie Mendes, aquela noite, futebolisticamente falando, foi irrepetível e António Oliveira jogou como nenhum outro alguma vez mais o fez.