Visto da Bancada
Nº54: Guilherme Duarte
2017-07-24 17:00:00
Autor do blogue "Por Falar Noutra Coisa" recorda-nos a instabilidade de um adepto de futebol

"Se eu fosse o Vidigal, tinha-me virado para o público e feito uns piretes. Ele não fez, é melhor pessoa do que eu”. 

Se é assíduo em estádios de futebol, garantimos, desde já, que este episódio lhe soará familiar. Se não é, ficará a saber como é a volatilidade emocional de um adepto de futebol. Mas já lá vamos.

A história, essa, fica a cargo de Guilherme Duarte, criador e autor do blogue “Por Falar Noutra Coisa”, um dos mais seguidos a nível nacional (vencedor do prémio "blogue do ano") e do qual também nasceu o conhecido pseudónimo “Dr. G”, que tantos sorrisos tem oferecido aos seguidores do blogue. 

Primeiro, o contexto. A 6 de novembro de 1999, Guilherme Duarte foi ao estádio de Alvalade, uma prática cuja assiduidade, segundo o próprio, pode ser contabilizada pelos dedos das mãos. “Sempre achei que ver futebol sem repetições era parvoíce, porque assim não me posso queixar dos árbitros com propriedade”, explica, ao Bancada.

Fui ver os leões conta os galgos, ou seja qual for aquele bicho no símbolo do Campomaiorense”, começa por contar.

Guilherme assume não se recordar do lugar em que estava o Sporting, no campeonato, mas lembra-se de que “o jogo foi lastimável, com imensas perdas de bola”. “Enfim, era o mesmo ao que o Sporting nos tinha habituado nos últimos 18 anos. Parecia um jogo de divorciados contra viúvos, já que o adversário também não dava uma para a caixa”, detalha o “Dr. G”.

Chegamos, finalmente, ao clímax da história e ao momento que ilustra o que é um adepto de futebol, no calor de um jogo: “Os adeptos começavam a ficar impacientes e iniciaram aquele ritual tão português que é o de assobiar os jogadores da própria equipa. Quem diz assobiar diz também chamar-lhes nomes, a eles é às suas respectivas progenitoras”. O alvo estava bem definido: Luís Vidigal.

Pausa na história. Os mais antigos lembrar-se-ão das características de Vidigal, médio defensivo do Sporting. Para os menos instruídos, Guilherme Duarte encarrega-se da definição. “Esse monstro do meio campo, mas que tinha alguns problemas ao nível da técnica. Era uma besta, varria tudo, mas, por vezes, acertava mais na relva do que na bola. Ainda que fosse a ceifar os jogadores, tinha alguma utilidade”, descreve Guilherme, num misto de crítica e elogio.

As pessoas estavam sentadas ao meu lado a gritar ‘vai para casa!’, ‘Vidigal, és um cepo!’, ‘haverias de tropeçar e partir era o caralho!’, entre outros mimos. De cada vez que ele tocava no esférico havia uma enorme assobiadela de todo o estádio”.

Mas o que é o futebol sem um plot twist? Vidigal encarregou-se de provocar naquelas pessoas uma enorme felicidade, por um lado, e embaraço, por outro.

O relato fica totalmente a cargo de Guilherme Duarte: “Entre insultos e mais insultos, pautados por assobios e “buuhhhhs”, houve um canto. O minuto era o 84, a bola é centrada para o meio da área e é golo do Sporting!!! É golo de Vidigal!!! Os adeptos ao rubro começaram a gritar “Vi-di-gal! Vi-di-gal!” em plenos pulmões”.

Foi o dia em que deixei de gostar um bocadinho mais de ir ao estádio e aturar este tipo de anormais. Se eu fosse o Vidigal, tinha-me virado para o público e feito uns piretes. Ele não fez, é melhor pessoa do que eu, constata.

O facto é que Vidigal passou a herói e o Sporting, que se tornou campeão nessa temporada – quebrando um jejum de 18 anos – por apenas quatro pontos, bem pode agradecer ao “monstro do meio campo, mas que tinha alguns problemas ao nível da técnica”.

A terminar, sobretudo para os mais saudosistas, deixamos os onzes dessa partida.

Sporting: Nélson, Quim Berto, Quiroga, Beto, Rui Jorge, Delfim, Vidigal, Pedro Barbosa, Edmilson, De Franceschi e Beto Acosta.

Campomaiorense: Paulo Sérgio, Beke, Bruno Mendes, Cao, Rogério Matias, Abílio, Mário Jorge, Poejo, Torrão, Laélson e Wellington.

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