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2018-11-29 22:55:00

O DIA EM QUE FRANCO ACABOU COM O GRANDE CLÁSSICO MEXICANO

Quando América e Chivas entram em campo o país pára. Pelo México não há clássico como esse. É o grande clássico. El Clasico Nacional. El Súper Clásico. El Clásico de Clásicos. Simplesmente... El Clásico. América e Chivas são por esta altura os dois clubes mais bem sucedidos da história do futebol mexicano. Rivalidade que ganhou uma dimensão extra, se a precisava, nos últimos tempos, depois do América ter ultrapassado o Chivas em número de títulos totais conquistados ao longo da história do futebol mexicano tornando-se, por isso, no maior clube do país ferindo de morte o orgulho de qualquer adepto do Rebaño Sagrado. A história desaguou neste ponto, porém, tudo podia ser bem diferente atualmente não tivesse Franco e a ditadura espanhola mudado para sempre a face do futebol mexicano.

Apesar de se ter estabelecido praticamente desde a criação do futebol organizado mexicano como uma das grandes forças futebolísticas do país com quatro títulos consecutivos em meados dos anos 20, o América não foi sempre um dos dois clubes representativos do maior clássico do futebol do país. Não. El Clásico original, El Clásico histórico, era um El Clásico hispano. Disputado entre o Real Club España e o Cub de Fútbol Asturias, sem surpresa, duas equipas formadas for emigrantes espanhóis sediados na Cidade do México.

O futebol tem ironias que nem o melhor dos argumentistas se lembraria. Como a de Isidro Lángara, um dos maiores goleadores da história do futebol da primeira metade do século XX que fez história em Espanha e na Argentina antes de se tornar num dos melhores estrangeiros que alguma vez pisaram os relvados dos estádios de futebol mexicanos, numa carreira altamente marcada pelo contexto político da época em que viveu e que só por si merecia uma história só dele. Lángara, vencedor de três Pichichi ao serviço do Oviedo dos anos trinta, tornou-se um dos poucos jogadores da história do futebol mundial a vencer três troféus de melhor marcador de um país diferentes ao deixar a sua marca, também, na Argentina ao serviço do San Lorenzo e, no México, ao serviço do Club España.

Foi sob as cores do Club España que a ironia se escreveu. Herói nas Asturias, a lógica diria que, jogando no México, tal só poderia acontecer no CF Asturias, formado por um grupo de asturianos sediado no México e que durante décadas levaram o símbolo do Real Oviedo e as suas cores, azul e branco, ao norte e ao sul do México pelos vários campos de futebol do país. Lángara foi um herói em Oviedo, mas no México foi o pior pesadelo dos homens que o idolatravam. O Basco, que durante a passagem por Oviedo fez 257 golos em 193 jogos, apontou 120 golos nos três anos que passou ao serviço do Club España ajudando o clube à conquista de um título e de uma taça em 1944 e 1945, respetivamente, para desgosto do grande rival asturiano.

A ligação asturiana ao futebol mexicano não é, por isso, de agora, e ajuda a entender a razão do porquê de Carlos Slim, presidente do Grupo Carso e um dos homens mais poderosos do Mundo, quanto mais apenas do México, ter comprado o clube asturiano em 2012 numa altura em que o mesmo voltava a atravessar uma grave crise financeira e desportiva, encontrando-se enterrado na terceira divisão espanhola há vários anos. A recuperação do Oviedo tem sido lenta, regressando à segunda divisão em 2015 como vencedor da terceira divisão espanhola e entrando, por isso, em 2018/19, pelo quarto ano consecutivo no segundo escalão do país vizinho, ainda que em melhoria constante ao longo dos anos. Ainda assim, no plantel, apesar do forte investimento feito por Slim no clube, apenas o internacional Oswaldo Alanís representa o México em campo pelos asturianos, ainda que tanto Juan Forlín, como Saúl Berjon e Yoel Bárcenas tenham sido contratados pelo Oviedo na Liga MX. 

Durante a época amadora do futebol mexicano, vinte anos compreendidos entre 1922 e 1943, poucas vezes España e Asturias não terminaram a temporada num dos dois primeiros lugares do recém criado campeonato mexicano, tendo ambos vencido, também, as duas primeiras edições do campeonato mexicano já na sua Era profissional. Na verdade, ao Club España cabe mesmo a honra de ter sido o clube mexicano mais bem sucedido na primeira metade do século XX. Hoje, España e Asturias há muito que deixaram o panorama do futebol no México, tendo acabado dissolvidos em 1950. Há muito que o primeiro grande clássico do futebol do país não se joga. E, se isso aconteceu, culpem Francisco Franco e a ditadura espanhola.

Cidade do México, maio de 1950. O Estadio Azul, na altura denominado Estadio Olímpico de la Ciudad de los Deportes, recebeu um jogo que mudaria para sempre a face do futebol mexicano. Um combinado de “estrelas” da Liga Espanhola deslocou-se à Cidade do México para defrontar a seleção do país americano numa digressão que acabou por mudar para sempre o futebol no país. Em duas datas, a seleção mexicana não conseguiu qualquer vitória. Se a 26 de maio de 1950 o triunfo sorriu aos espanhóis, dois dias mais tarde a seleção azteca lá arrancou um empate a zero aos europeus.

O ambiente nas bancadas, porém, aqueceu. Os dois jogos ficaram marcados por problemas entre adeptos perante o crescente clima de hostilidade que ia afetando o país entre os mexicanos e os emigrantes e descendentes de emigrantes espanhóis residentes no país. Um golo anulado ao conjunto espanhol já perto do final do segundo jogo entre mexicanos e espanhóis foi a gota de água. A moléstia que a decisão causou junto das altas instâncias da comunidade espanhola no México fizeram com que responsáveis do governo espanhol e representantes de Franco no México ordenassem a que as equipas de futebol de origem espanhola do país se retirassem imediatamente de competição e do futebol profissional mexicano.

O futebol tornava-se um lugar perigoso, com os espanhóis a entenderem que o jogo se estava a tornar num veículo usado pelos mexicanos para dirigir todas as suas desconfianças e receios contra a população espanhola presente no México. Tudo isto, apenas vinte anos após a restauração da democracia mexicana conseguida pelos revolucionários anos antes. España e Asturias não contestaram e mesmo antes do início da temporada 1950/51 abandonaram o futebol profissional mexicano colocando um ponto final de quase três décadas do primeiro Clásico Original oficial da história do jogo em solo azteca.

Os registos, porém, ficaram. Ainda hoje o Club España é o clube que na história do futebol mexicano venceu um campeonato com maior antecipação e com maior diferencial de pontos para o segundo classificado, um recorde que dificilmente será batido a menos que toda a estrutura do futebol mexicano se reorganize, mais uma vez, num sistema de campeonato tipicamente europeu esquecendo os atuais play-off e “torneos curtos” que são parte da identidade do atual futebol no México. Já o Asturias, quase 70 anos após a sua dissolução, continua a ser o clube mexicano com mais Copas de México conquistadas em toda a história do futebol no país, tendo sido também o primeiro campeão mexicano de sempre.

Em 2018 o Asturias cumpriria o seu centenário caso não tivesse acabado dissolvido pela ditadura de Franco. O Club España, por seu lado, apesar de ter terminado com o futebol profissional no clube, é hoje um emblema importante no ecletismo desportivo mexicano permitindo aos jovens mexicanos a prática de mais de três dezenas de diferentes desportos.

A queda do Asturias e do España não foi suficiente, ainda assim, para que o futebol mexicano se ressentisse em termos de jogos clássicos. Bem pelo contrário. Poucos campeonatos do Mundo são tão ricos quanto o mexicano no que aos jogos clássicos diz respeito, jogando-se atualmente cinco clássicos diferentes, cada um encerrando um personalidade e identidade que garantem uma aura especial ao futebol do país. Se América e Chivas definem o Clássico dos Clássicos, o primeiro disputa ainda frente ao Pumas o Clásico Capitalino, dérbi da Cidade do México, bem como o Clásico Jóven frente ao Cruz Azul, também dérbi da Cidade do México e que ganhou uma dimensão especial com a ascensão do Cruz Azul já nos anos 70. Já o Chivas, luta ainda pela hegemonia de Guadalajara frente ao Club Atlas naquele que é conhecido como o Clásico Tapatío. A estes, junta-se ainda o duelo entre Tigres e Monterrey que desde 1974 se defrontam no Clásico Régio pelo domínio do futebol da região da cidade de Monterrey.

A rivalidade entre España e Asturias, dissolvida pela ditadura espanhola, porém, não é o único clássico mexicano perdido no tempo. Também a rivalidade entre Necaxa e Atlante, dois dos primeiros grandes clubes da história do futebol mexicana acabou dissolvida pelo tempo devido ao desaparecimento de ambos os clubes à medida que o jogo se transformou e apesar de ambos estarem presentes nas divisões profissionais do futebol mexicano atualmente - o Necaxa é mesmo primodivisionário -, os clubes que hoje ostentam os nomes de dois dos maiores clássicos do futebol mexicano são há muito apenas uma carapaça daquilo que foram em tempos, especialmente, devido à transladação de ambos da Cidade do México onde foram fundados para cidades como Aguascalientes e Cancún em regime de franchising ao estilo norte americano e também tão presente no futebol mexicano.

Necaxa, Atlante, Zacatepec, Tecos, Oro, Tampico, Marte, Asturias e España... Ao longo da história, foram vários os clubes clássicos do futebol mexicano que acabaram por desaparecer abrindo espaço às potências que atualmente pontuam junto da elite do desporto azteca. Nenhum como Asturias ou España, porém, viram o seu desaparecimento ficar ligado de forma indissociável à ditadura espanhola imposta por Francisco Franco. Se, hoje, Chivas e América definem aquele que é o maior clássico do futebol mexicano, o Clásico de los Clásicos, isso se deve a Franco.

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