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2018-11-29 22:55:00

MÉXICO: O BERÇO DO FUTEBOL CONTEMPORÂNEO

A imagem repete-se um pouco por todo o Mundo por esta altura. De há mais de uma década a esta parte, diga-se. Guarda redes com a bola. Defesas centrais bem abertos a toda a largura no campo e médio defensivo a encaixar entre os dois, criando superioridade numérica em zonas de construção muito recuadas. Desde 2006, particularmente, que a “saída de bola a três” ou, crédito seja dado a quem de direito, “Saída Lavolpiana”, se tornou numa constante, tendo-se definido como uma das maiores revoluções táticas, ou pormenores táticos, a ocorrer nos anos mais recentes do futebol.

Ricardo la Volpe nasceu na Argentina, mas foi no México que El Bigotón, atual treinador do bizarro Pyramids FC do Egito, fez carreira. Foi ao comando da seleção mexicana, em particular no Campeonato do Mundo de 2006, que Ricardo la Volpe instituiu um pormenor tão simples na organização ofensiva mexicana que acabou por se tornar numa das maiores inovações táticas que o futebol recente observou ao ponto de praticamente todas as equipas do Mundo a utilizaram. Pioneiro, La Volpe concluiu que para criar superioridades e desequilíbrios desde uma fase muito precoce do seu momento ofensivo precisaria reduzir a arbitrariedade e aleatoriedade que um pontapé longo do guarda redes ou defesas centrais sempre encerrava. Assim nasceu a “Saída Lavolpiana” que acabaria por ser referência muito particular do “tiki taka” de Pep Guardiola, sistema em que a revolução de La Volpe mais serviu e mais a justificou.

O futebol mexicano não é apenas apaixonante na sua espetacularidade, paixão e riqueza histórica. Ao longo das últimas duas, três décadas, tem sido palco de algumas revoluções que serviram de base importante para aquilo que é o futebol de hoje, ao ponto do México poder mesmo ser considerado o “berço do futebol contemporâneo”. Não o confundamos com o que comummente chamamos de futebol moderno. Esta é toda uma outra questão e é em muito influenciada por nomes como Ricardo La Volpe, mas também Marcelo Bielsa, sempre ele, Juanma Lillo e, claro, Pep Guardiola. Sem estes nomes terem passado pelo México nos últimos anos, talvez o futebol dos dias que correm fosse hoje muito diferente daquilo que é.

O futebol mexicano vive hoje um momento de especial fulgor. Com um campeonato interno forte financeiramente, capacidade para atrair e manter jogadores relevantes, academias de formação cada vez mais profícuas (veja-se o que tem saído de Pachuca nos últimos anos), jogadores e talentos jovens capazes de se tornar figuras relevantes do futebol europeu e pelo menos dois técnicos promissores capazes de revolucionar a forma como o futebol é pensado e trabalhado no país como o são Rafa Puente Jr. ou Marcel Michel Leaño, apenas se estranha a pouca projeção internacional que a Liga MX conseguiu ainda recolher. Nem tudo é perfeito, claro. Entre a desorganização das altas instâncias e do futebol mexicano, a incompetência arbitral e as nuvens da corrupção que sempre pairaram sobre o futebol mexicano, muito há a fazer para que a Liga MX se torne uma referência do futebol como já podia muito bem ser e como todas as semanas justifica dentro de campo. Poucos campeonatos se vestem de tamanho carisma como este.

La Volpe, contribuiu para isso, como contribuiu Bielsa e, diga-se, muito contribuiu La Volpe do trabalho realizado por Bielsa em Guadalajara ao serviço do Atlas. Um clube que o icónico treinador argentino revolucionou por completo e que tal como no Newell’s, definiu um antes e um depois na história do clube, do próprio futebol mexicano e até do futebol mundial no geral. Se hoje as redes de observação e prospeção a nível nacional e até internacional são uma normalidade, no início dos anos 90 a história era outra, ainda para mais, em países como o México. O sucesso de Bielsa nesse pormenor, ora no Newell’s, ora no Atlas, definiu uma nova “trend” a nível internacional.

Bielsa chegou ao Atlas em 1992 e em apenas dois anos mudou a história do clube. Inicialmente como diretor desportivo e com a missão de reorganizar a formação do clube como, aliás, fizera no Newell’s, quando Bielsa dividiu o mapa argentino em 70 secções e visitou cada uma delas em busca de novos talentos para a equipa de Guadalajara sempre vista pelos rivais como uma “anedota” do futebol mexicano e em constante subaproveitamento, com um único título mexicano conquistado no início dos anos 50. Bielsa conduziu durante mais de cinco mil quilómetros para conseguir revolucionar o clube argentino e no México não seria diferente.

Convencer Bielsa não foi fácil. Durante um mês, o técnico argentino esteve por Guadalajara a assistir a encontros das equipas jovens do clube e só depois decidiu assinar em definitivo com o Atlas ao concluir que havia ali, de facto, potencial a ser explorado. E que correto estava. Já lá vamos. Fernando Acosta, presidente do Atlas responsável pela contratação de Bielsa, ainda hoje destaca a influência de Bielsa na montagem de uma rede de observação no clube que ainda perdura em 92 cidades mexicanas e que permitiu ao Atlas formar recentemente talentos como Antonio Briseño, hoje em Santa Maria da Feira, Arturo González, Daniel Álvarez, Bryan Garnica ou Martín Barragán, três dos melhores jovens talentos que surgiram no futebol mexicano recentemente, independentemente do rumo cujas carreiras acabaram por tomar.

Mas o trabalho de Bielsa permitiu algo muito mais grandioso do que o teste do tempo e Ricardo la Volpe foi um dos maiores beneficiários disso mesmo. “Eu desenhei uma estrutura que permitiu a observação de vinte mil jogadores anualmente”, assegurou Bielsa em entrevista em 1997. “O Atlas ficou presente em 2500 cidades mexicanas, organizou torneios e treinos de captação e escolheu quinze jogadores de cada uma delas”. O trabalho de Bielsa permitiu que o Atlas passasse a ter, segundo os maiores especialistas do futebol mexicano, com factos a comprovarem-no, a melhor escola de formação do país até ao início de 2010, altura em que o Pachuca lhe começou a ganhar o lugar. Uma rede de observação pouco vista no futebol Mundial e que definiu uma nova forma de trabalhar a formação até a nível internacional. Podia ser em qualquer outro lado no Mundo, mas foi em Jalisco, Guadalajara.

Com isto sorriu La Volpe. Se Bielsa revolucionou o futebol fora de campo, foi com o produto dessa revolução que La Volpe pôde criar a sua, dentro de campo, durante o Mundial de 2006 onde levou o México aos oitavos de final da competição caindo apenas aos pés da Argentina de El Bigotón. Seis dos onze jogadores que iniciaram o jogo pelo México nessa tarde foram identificados ou treinados por Bielsa durante os dois anos que o argentino passou no Jalisco: Oswaldo Sánchez, Rafa Márquez, Mario Méndez, Pável Pardo, Andrés Guardado, Jared Borgetti, enquanto José Castro se encontrou com Bielsa, mais tarde, ao serviço do América - onde o impacto do treinador argentino já não foi tão grande. Graças ao trabalho de Bielsa, nomes como Chuy Corona, Juan Pablo Rodríguez, Hugo Ayala, Juan Carlos Valenzuela, Néstor Vídrio, Edgar Pacheco, Gerardo Flores, Jorge Torres Nilo, Darvin Chávez ou Juan Carlos Medina, alguns dos nomes mais importantes dos últimos anos de futebol e seleção mexicana, foram também formados pela equipa de Guadalajara.

Não foi só fora de campo que Bielsa revolucionou o Atlas. Esta não é uma biografia de “El Loco”, mas fica ainda este apontamento: perante o trabalho realizado como diretor desportivo do clube, Bielsa assumiu o cargo de treinador na temporada 93/94 de forma relutante, mas com um conjunto jovem e inexperiente, com base quase total na academia do clube, Bielsa levou o Atlas ao segundo lugar na liga durante a fase regular e a um apuramento para o play-off da competição que fugia ao clube há doze anos e apesar da sua saída do emblema de Guadalajara, a herança deixada por Bielsa no clube permitiu que o Atlas chegasse a uma final inédita da competição dois anos após a saída de El Loco. Bielsa nunca acabou por colher todos os frutos que semeara por Guadalajara, mas uma coisa é certa: a revolução estava feita e não foi só no Atlas ou no México. Foi a nível internacional.

Se La Volpe beneficiou com o trabalho feito por Bielsa no Atlas e com isso deixou para sempre a sua marca no futebol através da sua criação, El Bigotón foi também uma das referências já assumidas por Pep Guardiola numa fase de definição da sua filosofia futebolística. A passagem de Guardiola pelo México, ao serviço do Dorados de Sinaloa, entre 2005 e 2006, coincidindo com o trabalho de La Volpe na seleção mexicana permitiu a Guardiola estudar de perto o trabalho realizado por La Volpe e aproveitar muito daquilo que o treinador argentino incutia na formação azteca. E, isso, não seria possível sem que outro nome entre na equação: Juanma Lillo.

O futebol podia até ter seguido o mesmo rumo que tomou até aos dias de hoje, porém, o mais certo, é que o jogo de hoje não fosse aquilo que é caso Juanma Lillo em 2005 não se tivesse tornado treinador do Dorados de Sinaloa. Sem Lillo em Sinaloa não existiria Guardiola em Sinaloa e tudo o que isso possibilitou. Já lhe contei essa história. Cinco meses de trabalho entre Lillo e Guardiola ajudaram a transformar, para sempre, a forma de jogar e ver o futebol a nível mundial. Foi no México que Guardiola se definiu enquanto treinador e estudou de perto um pormenor tático que seria fulcral para a sua própria ideia de jogo e para a obsessão de iniciar o processo ofensivo em zonas bastante recuadas do terreno de jogo.

Juanma Lillo e Guardiola cruzaram-se em Sinaloa em 2006. Por fim, dois homens que se idolatravam mutuamente trabalhavam juntos. A promessa havia sido feita anos antes e só o basco poderia ter levado Guardiola até ao México. Lillo pode não ter muito para apresentar no seu currículo, mas detém algo que é inquantificável: o quanto mudou o futebol por intermédio de Guardiola. Afinal, Juanma Lillo, é colocado a par, por parte de Guardiola, de Cruyff no que à influência na visão de jogo e forma de jogar do catalão diz respeito. 

A início de história remonta a 1996. Meses antes, talvez, que Guardiola sempre fora um homem atento. O FC Barcelona, então orientado por Bobby Robson, deslocou-se a Oviedo e no Carlos Tartiere, com golos de Luis Enrique e Stoichkov (dois cada) venceu o Real local. Treinava, o Oviedo, Juanma Lillo. "Acabámos por perder por 4-2, foi um grande jogo, tanto que regressámos ao relvado para ser aplaudidos pelo público. Era a minha segunda temporada na liga espanhola, a primeira havia sido com o Salamanca. Entramos no balneário e fui informado por um delegado do clube que Guardiola estava à porta e perguntava se podia falar comigo. Pep ainda não tinha ido sequer ao balneário, estava todo suado e ainda com as botas calçadas. Saí e, bom... Cumprimenta-me, não parou de falar, disse-me que a minha equipa o havia surpreendido na temporada passada quando o defrontámos e que hoje o Oviedo tinha jogado muito bem. Perguntou-me se podíamos começar a ter um contacto regular. Ali começou a nossa relação que rapidamente transcendeu o futebol. Chegámos a jantar em casa um do outro, com as famílias de ambos". Lillo contou a história vezes sem conta e foi ao El Grafico, em 2015, que a recordou.  

Se era no Catar que Guardiola procurava terminar a carreira, a promessa feita anos antes entre Lillo e o catalão falou mais alto em 2006. Para Pep, havia ainda um capítulo por escrever: trabalhar, por pouco tempo que fosse, com Juanma Lillo. Contou, El Loco Abreu, que aos 41 anos ainda segue forte no futebol, na sua biografia, que no Dorados de Sinaloa, Pep absorveu tudo quanto pôde de Juanma Lillo, que idolatrava. Para os treinos, contou o uruguaio, Guardiola levava sempre um caderno preto onde apontava todos os passos e exercícios de Lillo. Foi do técnico basco, tal como de Cruyff anos antes, que Guardiola retirou ideias acerca da movimentação ofensiva e da construção de jogo a partir da defesa - tal como fizeram bem de perto com La Volpe como o próprio Guardiola admitiu anos mais tarde -, bem como, como controlar o adversário em zona defensiva. 

Depois de ter definido uma nova forma de se ver e trabalhar o futebol, por Barcelona, elevando os blaugrana a uma das melhores equipas da história do futebol, Guardiola transportou agora a discussão para Inglaterra. Talvez tal nunca tivesse acontecido se Juanma Lillo nunca tivesse contratado Guardiola, mesmo que o técnico basco rejeite tal honra. Uma coisa é certa. É o próprio Guardiola quem o diz: Lillo foi o melhor treinador que alguma teve e dele absorveu muito do que impõe em jogo também durante a fase defensiva e de transição defensiva, sendo que ainda hoje Lillo é conselheiro de Guardiola e considera o catalão um filho, o irmão mais novo e um grande amigo. 

Muito é aquilo que faz do futebol mexicano um cenário especial. Da paixão dos adeptos, à iconografia e cultura mexicana, passando pela riquíssima história do futebol mexicano, os seus inúmeros clássicos e até o próprio estilo de futebol e filosofia futebolística que impera por terras aztecas. As constantes batalhas individuais, o pouco rigor tático, a mentalidade ofensiva, o tempo e espaço que há para decidir e definir que possibilitam golos de fora da área como em nenhuma outra liga sucede. Equipas estendidas à largura e comprimento do relvado. A mão de Deus. O Azteca. O golo do Século. A defesa de Banks a Pelé. Dois dos mundiais de futebol mais icónicos da história. Tudo influi numa das ligas mais espetaculares do Mundo e num dos futebóis mais apaixonantes do planeta.

Mas, muito mais do que isso, é a influência do México naquilo que é o jogo contemporâneo, um pouco por todo o Mundo, a grande herança deixada pelo país centro americano. Por tudo isto, o México é hoje o berço do futebol contemporâneo. Tal como os aztecas estiveram na génese e foram uma das grandes influências para o jogo que acabou por ser criado pelos britânicos centenas de anos mais tarde, foi no início dos anos 90 que o futebol contemporâneo começou a tomar forma. O México, mais uma vez, teve um papel central.

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