Prolongamento
Um português à conquista do México: que comece a Fiesta Grande [5/14]
2018-11-29 22:55:00

OS FAVORITOS

AMÉRICA

Com o melhor jogador da Liga MX, o melhor treinador mexicano da atualidade e um plantel de fazer corar de inveja muitos dos clubes dos principais campeonatos europeus, estranho seria se o clube mais bem sucedido do futebol mexicano de há várias décadas a esta parte não voltasse a estar na discussão pelo título. Nos últimos cinco anos, e portanto últimos dez torneios disputados no futebol mexicano, só por uma vez o América não chegou à Liguilla, feito que apenas é igualado pelo Tigres.

Para ter sido ainda mais dominadora, à equipa de Miguel “Piojo” Herrera, antigo selecionador mexicano e que já havia estado na base do América que deu a conhecer Miguel Layún ou Raúl Jiménez, que curiosamente até só venceu um título nacional, o Clausura 2013, apenas faltou a vitória na fase regular do Apertura 2018. A equipa da Cidade do México que divide o colossal Azteca com o Cruz Azul de Pedro Caixinha, apenas perdeu a corrida para os vizinhos azuis por três pontos, ainda que tenha sido a equipa que menos jogos perdeu durante a primeira metade da temporada e que tal como o Cruz Azul e o Santos Laguna terminou o Apertura sem qualquer derrota a jogar em casa. O América foi ainda a equipa que mais golos marcou, a segunda que menos sofreu e a que chega à Liguilla com o melhor saldo de golos da competição.

Tudo isto muito por culpa de um plantel de excelência, potenciado pelo melhor meio campo da liga com Mateus Uribe e Guido Rodríguez, principalmente, o melhor jogador da competição por esta altura. A cumprir a segunda temporada completa no América, o médio internacional argentino de 24 anos, ex River, e que já havia trabalhado com Miguel Herrera no Xolos em Tijuana, tem sido um verdadeiro polvo no meio campo, aliando uma grande capacidade de recuperação de bola e de equilíbrio a chegadas constantes à área adversária e que já lhe permitiram apontar quatro golos esta temporada.

Tudo isto num plantel em que pontua ainda o melhor guarda redes da Liga em termos potenciais - Jesús Corona, do Cruz Azul, terá sido ainda assim o melhor em termos de rendimento durante o Apertura -, Agustín Marchesin, um dos defesas mais entusiasmantes a nível mundial - Edson Álvarez - e ainda uma frente de ataque devastadora onde se contam nomes como Roger Martínez, Cecílio Domínguez, Andrés Ibargüen, Renato Ibarra, Oribe Peralta e, claro, Diego Lainez, o novo menino bonito do futebol mexicano, um desequilibrador por excelência e, para muitos, jovem com potencial para vir a ser ainda melhor do que Hirving Lozano.

O América assume-se, por isso, como um dos dois grandes candidatos ao título mexicano - já lá vamos ao outro -, e nem o seu histórial ou história recente deixariam que fosse de outra forma. Ainda para mais, chegando o América à Liguilla numa forma demolidora, depois de atropelar o Veracruz por 4-1 na jornada final, jogo que culminou uma sequência de onze jogos consecutivos sem qualquer derrota para a equipa de Miguel Herrera. A dúvida, em relação ao América, não é se a equipa de Miguel Herrera é ou não candidata ao título. Não. A dúvida é perceber se há alguém capaz de evitar que o América não se distancie ainda mais na liderança dos clubes mexicanos com mais títulos conquistados.

E se o FiveThirtyEight avisa que o América é a equipa com a maior probabilidade de vencer o Apertura, quem somos nós para duvidar? Há quatro anos que o América não vence o título e, isso, é quase impensável. E, para que não restem dúvidas acerca do poderio atual do América, nenhuma equipa da Liga MX ao longo do Apertura repartiu tantos golos por tantos jogadores, sinal de que é praticamente impossível anular o conjunto de Miguel Herrera e que os perigos surgem de todos os lados. Dos jogadores habitualmente utilizados por Herrera, só Marchesín e Paul Aguilar não marcaram qualquer golos e oito jogadores do plantel do América marcaram três ou mais golos ao longo da primeira metade da temporada.

CRUZ AZUL

Já diziam os galegos: eu não acredito em bruxas, mas que elas existem, isso existem. E num país tão religioso e até tão dado às superstições, talvez o melhor tivesse sido não arriscar. O Cruz Azul de Pedro Caixinha venceu a Fase Regular do Apertura, porém, qualquer pessoa que siga o futebol mexicano e esteja interiorizada com as suas vicissitudes, acabou a torcer o lábio a este feito. Afinal, a Maldição do Superlíder é real.

Ao longo das várias décadas de futebol mexicano sob o atual formato, foram muito raros os clubes que venceram os play-off, fosse de Apertura, fosse de Clausura, depois de terem vencido a fase regular do torneio. Isto, ao ponto de se tornar figura presente no futebol mexicano o conceito de Maldição do Superlíder. Em 44 torneios disputados no México desde que nos anos 90 se instituíram os torneios curtos, apenas em sete deles o vencedor da fase regular da competição acabou por se sagrar campeão mexicano. Desde 1996 só quatro clubes conseguiram quebrar a Maldição do Superlíder, Toluca (em três ocasiões), Pachuca (em duas ocasiões), Santos e América, sendo que esta é a sexta vez que o Cruz Azul chega à Liguilla depois de ter vencido a fase regular de um torneio curto mexicano, tendo ficado sempre pelo caminho nos quartos de final.

A explicação para o constante falhanço dos vencedores da fase regular dos torneios mexicanos nos play-off é relativamente simples, se ela existir. Vencer a fase regular da prova significa ter garantido a Liguilla mais cedo do que a esmagadora maioria dos restantes clubes e, por isso, ter chegado a um nível de descompressão mais cedo do que os concorrentes. Ou seja, o vencedor da Liguilla terá “deixado de competir” a um nível de empenho máximo antes de terminar o torneio, retirando “momentum” à equipa ao ponto de chegar à Liguilla longe do nível de concentração dos adversários e em pior forma do que os restantes concorrentes. No caso do Cruz Azul, porém, a vitória na Copa MX e a luta com o América pelo primeiro lugar até ao final do torneio poderão deixar antever que, este ano, a coisa poderá realmente ser diferente.

Para isto, Pedro Caixinha irá contar com aquele que foi, muito provavelmente, a melhor contratação da Liga MX para este Apertura: Iván Marcone. Com um percurso de carreira altamente semelhante ao de Guido Pizarro, não deverá durar muito a estadia do médio argentino de 28 anos pela Cidade do México, tal o nível apresentado durante a primeira metade da temporada e que em muito contribuiu para a fase demolidora que o Cruz Azul vai passando por esta altura. Dotado de uma capacidade invulgar para recuperar bolas, Marcone é o pêndulo de uma equipa altamente vocacionada para o momento ofensivo, sendo igualmente o cérebro principal na construção de jogo da equipa de Pedro Caixinha. Não faltam exemplos da capacidade de Marcone em quebrar linhas com passes a rasgar por completo as defensivas contrárias e que em muito ajudam a equipa do Cruz Azul em desmontar a organização adversária.

Marcone está, ainda assim, longe de ser a única figura em destaque na equipa do Cruz Azul. Chuy Corona foi muito provavelmente o melhor guarda redes do Apertura, num plantel que muito se reforçou para o ataque a um título que há muitos anos foge a um dos maiores clubes do México e que nos últimos anos tem sido quase uma anedota cultural. A cumprir a primeira temporada fora do Estadio Azul, casa do Cruz Azul durante décadas e que se prepara para ser demolido, o Cruz Azul fez chegar ao Azteca nomes como Milton Caraglio, Elías Hernández, Pablo Auilar, Andrés Rentería, Igor Lichnovsky e, acima de tudo, Roberto Alvarado, que em conjunto a nomes como Corona, Aldrete, Baca, Edgar Méndez ou Cauteruccio fazem do Cruz Azul um dos plantéis mais fortes em qualidade individual da Liga MX.

O Cruz Azul apostou forte para esta temporada, mas o sucesso estava, ainda assim, longe de ser previsto e de forma tão imediata. Não só porque foram várias as mexidas no onze inicial de La Maquina, um dos primeiros clubes empresa da história do futebol, mas por todo o contexto à volta da equipa orientada por Pedro Caixinha dada a sua saída do Estadio Azul e passagem para o Estadio Azteca. E mesmo numa temporada em que o relvado do Azteca se apresentou absolutamente deplorável e um dos piores relvados das principais ligas do futebol Mundial, o Cruz Azul de Pedro Caixinha terminou o Apertura com um registo praticamente perfeito em jogos caseiros com apenas um empate nos nove jogos disputados. Todos os outros foram vencidos pela equipa de Pedro Caixinha, o que torna a temporada do Cruz Azul ainda mais valorizável.

A pressão para o sucesso do Cruz Azul, fruto de anos em subrendimento, deblaces que se tornaram parte da cultura do futebol mexicano, mas também fruto de uma aposta forte em termos financeiros, facilmente poderiam fazer tender a época do Cruz Azul para o lado negro. A equipa de Pedro Caixinha, porém, não deu espaço para especulações e a fase regular do Apertura correu ao nível do potencial do clube que é imenso. Ninguém fez mais pontos do que o Cruz Azul durante o Apertura e, mais do que isso, nenhuma equipa sofreu tão poucos golos quanto a equipa de Pedro Caixinha. Será, porém, tudo isto, suficiente para quebrar a Maldição?

MONTERREY

De todos os favoritos, o Monterrey é talvez o menos favorito. Ainda assim, liderado por um treinador já campeão do futebol mexicano, bem como um dos plantéis mais poderosos e valiosos da competição, complicado é afastar os Rayados de uma possível luta pelo título. Ainda para mais, depois de um Apertura tão tranquilo como aquele que foi realizado pela equipa do Monterrey com o quinto lugar alcançado na fase regular do torneio e a qualificação para a Liguilla com alguma antecipação.

Monterrey que também apostou forte para este Apertura e investiu mais de vinte milhões de Euros no reforço do plantel à disposição de Diego Alonso. Ao novo estádio do clube chegaram nomes como Marcelo Barovero, mas também uma das novas figuras do futebol mexicano, Jesús Gallardo, numa jogada de antecipação brilhante da equipa de Monterrey já que o ala esquerdo mexicano acabou por se destacar no Mundial disputado na Rússia ao ponto de talvez ter podido garantir ali uma transferência para a Europa. Porém, a grande contratação do Monterrey para esta temporada acabou por ser Rodolfo Pizarro, contratado ao Chivas, e de quem o Monterrey acabou por fazer o jogador mais caro do futebol mexicano numa altura em que se esperava que o versátil jogador azteca se transferisse para a Europa. Pizarro que, recorde-se, surgiu na equipa do Pachuca que de uma assentada deu a conhecer também Hirving Lozano, Érick Gutiérrez e Jürgen Damm.

Nomes que se juntaram a um plantel já de si bastante valioso. Segundo o conhecido portal Transfermarkt, o Monterrey tem mesmo a seguir ao América e ao Tigres o plantel mais valioso da competição, suplantando mesmo o do poderoso Cruz Azul. Um plantel onde pontuam ainda nomes como César Montes, Nico Sánchez - uma das figuras da competição durante o Apertura -, Vangioni, Stefan Medina, Jonathan González - também ele uma das novas coqueluches do futebol mexicano -, Celso Ortiz, Jesús Molina, Ponchito González, Avilés Hurtado, Urreta, Dorlan Pabón e, claro, Funes Mori. Ou seja, muitos dos melhores jogadores de toda a competição.

Um poderio que, porém, ainda não encontrou em Diego Alonso o homem certo para o potenciar. Sem um estilo claramente definido, a equipa do Monterrey chega a esta fase muito por culpa da qualidade individual dos seus jogadores e não tanto pela capacidade coletiva ou dos processos da equipa. Curiosamente, uma ideia que já tinha sobressaído do Pachuca de Diego Alonso que contra alguma lógica em termos coletivos acabou por se sagrar campeão mexicano, mesmo tendo um plantel recheado de uma qualidade individual inquestionável. Repetir-se-á a história agora por Monterrey?

TIGRES UANL

Tudo o que foi escrito para o América podia facilmente ser repetido para o Tigres, o clube mexicano mais bem sucedido dos anos mais recentes com três títulos conquistados nos últimos dez torneios disputados e apenas uma Liguilla falhada durante esse período. Isto liderados pelo técnico mais experiente da história do futebol mexicano e, seguramente, um dos mais titulados: Tuca Ferretti, o brasileiro mais mexicano da história do país. A temporada do Tigres, porém, dado o poderio do clube de Monterrey esteve longe de ser tranquila. Culpa própria, ainda assim.

Mesmo em ritmo de cruzeiro durante grande parte da temporada e distraídos por toda a novela que envolveu a sucessão de Osorio no comando técnico da seleção mexicana, que obrigou Tuca Ferretti a dividir tarefas entre o banco do Tigres e quase diárias intervenções na imprensa em função do cargo de selecionador nacional interino da seleção mexicana, a verdade é que o Tigres nunca pareceu realmente em risco de falhar a presença na Liguilla e assim que se viu apertado e jogou a sério, resolveu a questão sem grandes sobressaltos.

Ainda que tivesse perdido apenas um jogo em nove, o Tigres chegou à antepenúltima jornada do Apertura em oitavo lugar, último com direito a presença na Fiesta Grande. Se o Tigres precisava, mais do que nunca, fazer pela vida, o conjunto de Ferreti não defraudou as expetativas, acabando o Apertura com três vitórias concludentes, inclusivé, com um atropelo ao Puebla pelo meio por 6-1, jogo em que Gignac apontou quatro golos, acabando por se sagrar melhor marcador do torneio. Por aquela altura ninguém devia ter ficado surpreendido. Chama-se experiência.

Mais do que distração ou desespero, é plano. É já histórico o facto do Tigres, nos últimos tempos, começar a temporada de forma lenta, ganhando forma à medida que a temporada avança. Isto, ao contrário do que sucede na questão do Superlíder, permite ao Tigres chegar à Liguilla em pico de forma com os níveis de competitividade, exigência e concentração no topo. Não se deixe enganar, por isso, com o facto do Tigres “só” ter terminado a fase regular do Apertura 2018 em sexto lugar. A época da equipa de Tuca Ferretti ainda agora começou.

O Tigres que chegou à nova temporada sem alterações significativas no plantel. E porque haveriam de as fazer, não é verdade? Ainda para mais, fazendo regressar a Nuevo León, El Conde, Guido Pizarro. Mais do que América, Cruz Azul ou Monterrey, o Tigres volta a assumir-se como o grande candidato ao título, voltando a reunir esta temporada, como de há várias a esta parte, o melhor plantel das Américas e um plantel que a nível Europeu seguramente não dececionava entre os principais campeonatos do Velho Continente.

O Tigres é uma equipa poderosa. A mais poderosa do México e apesar de ter no seu setor mais recuado o seu ponto mais débil, compensa esse facto com uma organização tática sem igual na competição e até no continente, com os processos de Ferretti e um poder ofensivo absolutamente absurdo para o contexto a mascararem alguma falta de qualidade da linha defensiva do Tigres, em especial, de Juninho, defesa central brasileiro de 36 anos e capitão do conjunto do Volcán, talvez o estádio mais explosivo do país. Não, o nome não é por acaso.

Vencedores dos três Aperturas anteriores, e atuais Campeónes de Campeónes, é difícil vislumbrar algo diferente do que o Tigres a fazer o póker de Aperturas em 2018. Tudo bate certo nesta equipa e o poder ofensivo é tal que dificilmente todos os jogadores à disposição de Ferretti irão estar num dia não, sucessivamente, durante a Liguilla. Muito menos a jogar em casa onde o Tigres praticamente não perde pontos, e ainda para mais quando a equipa chega no melhor momento da temporada à Fiesta Grande. São cinco jogos invicto, e três vitórias nos últimos três jogos. E, mais do que isso, vitórias impossíveis de contestar. Eis o Tigres, o grande candidato ao título mexicano.

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