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2018-11-29 22:55:00

OS BASTIADORES (POLÉMICOS) DA LIGA MX

As características peculiares da Liga MX não se ficam por questões estruturais. Na verdade, vão bem além disso. Questões como o “Draft”, o “Pacto de Caballeros”, a “Junta de Duenos” e a multi propriedade fazem da Liga MX uma realidade alternativa e paralela no futebol Mundial. Mais uma vez, para o bem e para o mal. Ao mesmo tempo que são características identitárias da competição concedendo-lhe uma personalidade e autoridade muito próprias, são também portas de entrada à corrupção no futebol mexicano, algo do qual este é muitas vezes acusado.

O que é, então, o “Draft”? Apesar da Liga MX estar abrangida como qualquer outra por janelas de transferência limitadas e sob supervisão FIFA, a grande generalidade e quase exclusividade das transferências domésticas realizadas na Liga MX acontecem durante as reuniões bienais dos donos dos clubes que compõem a competição. Um evento à antiga em que os responsáveis dos clubes se reúnem em resorts luxuosos, quase sempre, em Cancún. O evento é especialmente polémico já que os jogadores que saem do draft sem colocação ficam apenas com o mercado internacional como recurso, com os clubes anteriores a descartarem-se de responsabilidades em relação ao futuro dos atletas.

Os direitos dos futebolistas, no México, são por isso uma luta recente. Só em outubro de 2017 foi criada a primeira associação de futebolistas, apoiada por vários antigos internacionais, e com o objetivo de lutar, lá está, pelos direitos dos jogadores mexicanos e em última instância tentar terminar com o “draft”, mas também com o “pacto de caballeros” e ainda questões pouco claras relacionadas com os direitos económicos e desportivos dos jogadores - Ainda há poucos meses estalou uma polémica no México relacionado com pagamentos fantasma aos jogadores, os chamados contratos duplos, em que os clubes pelos quais determinados jogadores jogavam simulavam o pagamento destes jogadores, quando estes eram na verdade pagos por outras entidades. Sobre isto, é procurar as palavras chave: Veracruz, Memo Vázquez e Fidel Kuri.

Falemos agora do infame “pacto de cavalheiros”. Se achava que o “draft” já era suficientemente ofensivo para os direitos dos futebolistas pense assim: e mesmo terminando contrato com determinado clube, o jogador em questão continuasse a não ser dono do seu futuro? É o que acontece nesta situação. O pacto de cavalheiros é uma regra não escrita do futebol mexicano em que mesmo em situações de final de contrato, os clubes negoceiam valores de passe para determinados jogadores, obrigando-os a transferirem-se para o outro clube, mesmo que em teoria tenham terminado contrato com o clube anterior.

Ora o “draft” e o “pacto de cavalheiros” são então vistos como uma espécie de manipulação de resultados por uns, mas defendido pelos donos dos clubes como medidas que ajudam a potenciar a qualidade média da Liga MX e a manter todos os clubes da competição competitivos. A primeira visão que acaba por ser repetida quando pensamos no facto de vários clubes pertencerem aos mesmos grupos económicos. Tijuana e Dorados, são pertence do Grupo Caliente. O Morelia e o Atlas do Grupo Salinas e o León e o Pachuca do Grupo Pachuca. Em tempos, até ao desaparecimento do clube de Chiapas, também Jaguares e Puebla pertenciam ao mesmo grupo económico. Situação que levanta sérias questões no que à transparência do futebol mexicano diz respeito, nunca esquecendo todas as suspeitas que recaem sobre grande parte desses grupos ou indivíduos em particular das quais nem vale a pena aprofundar. É usar a Internet, diria António Guterres se na altura fosse 2018.

A verdade, é que apesar de tudo isto, o futebol mexicano organizou-se ao ponto de ser uma das ligas americanas mais ricas e que mais dinheiro movimenta ao ponto dos clubes mexicanos pagarem bem o suficiente para que as suas principais estrelas se mantenham confortáveis e sem grandes desejos de deixar a competição, algo com claro impacto na qualidade futebolística e competitiva da Liga MX. Algo que torna a Liga MX um fenómeno de popularidade no mercado Norte Americano, liderando as audiências televisivas a nível futebolístico tanto no México como nos Estados Unidos e até a CONMEBOL entende o impacto económico de uma aproximação ao México com convites constantes para participação na Copa América e Libertadores.

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