Prolongamento
Quando a Traffic dificultou a carreira de um jovem jogador português
Luís Santos Castelo
2018-01-11 20:00:00
Luís Almeida (na foto) já esteve na lista de Marco Silva. Entretanto, deixou o futebol e participou num reality show

A influência da Traffic no Estoril Praia trouxe uma nova vida ao clube que hoje participa na Primeira Liga. Contudo, a estratégia implementada pelo grupo empresarial dificultou e, em alguns casos, ajudou a acabar com a carreira de jovens jogadores portugueses. Luís Almeida, antigo jogador dos escalões de formação dos cascalenses que chegou a estar na lista de Marco Silva para uma eventual chamada à equipa principal, foi um dos que sofreu com isso e acabou por sair do clube no último ano da formação. Desde então, realizou uma mão cheia de jogos na URD Tires, participou no reality show 'Casa dos Segredos' e voltou ao Estoril para tentar a sua sorte - sem sucesso - na equipa B. Hoje, não está ligado ao futebol de forma alguma.

Desde que a empresa de origem brasileira adquiriu a SAD do clube, em 2010, o Estoril Praia subiu de divisão e até já foi à Europa, mas nem tudo é bom. Ao trazer do Brasil jogadores para integrarem os escalões de formação, alguns portugueses perderam o lugar, mesmo que não fossem de menor qualidade. Um deles foi Luís Almeida, que se sentiu injustiçado e acabou por não ter a motivação suficiente para dar a volta à situação. "Contou mais o dinheiro, e acho que o problema é esse. Se calhar o jogador brasileiro até era melhor que eu, não sei, mas não foi isso que o fez ser titular. Eu nem quero dizer o nome do treinador que fez isso porque ele nem é o principal culpado. Ele faz o que a direção lhe manda", contou Luís Almeida, de 21 anos, ao Bancada.

Quem conhece bem o antigo jogador é Nuno Aguiar, que foi treinador-adjunto em equipas de Luís Almeida no Estoril. Ao Bancada, o atual treinador dos juniores da AFD Torre confirmou que vários jogadores brasileiros chegaram ao clube pela via da Traffic. "No segundo ano de júnior do Luís houve um estreitamento de relações entre a SAD e o futebol de formação. A SAD é que mandou um pouco nos juniores. Chegaram, efetivamente, a ter alguns jogadores vindos do Brasil porque aquilo é da Traffic e a Traffic, antes de ser dona das ações do Estoril Praia, gere carreiras de jogadores e eles tinham o objetivo de colocar os seus jogadores para conseguir algum dinheiro com eles", começou por dizer o técnico.

Mas Nuno Aguiar considera que o maior culpado foi mesmo Luís Almeida. "O que falta a muitos miúdos a partir de uma certa altura é a capacidade de sacrifício. Eles não estão dispostos a abdicar de algumas coisas e pensam que é tudo fácil. Acontece muito no futebol de formação", realçou, partindo depois para o caso específico. "Se calhar, naquela altura, faltou aos treinadores falarem com ele e explicarem a situação e, a partir daí, ele ter a cabeça limpa para trabalhar. (...) O Luís não era um Messi, mas tinha perspetivas para subir ao futebol sénior. (...) A verdade é que são esses momentos que distinguem os que chegam lá daqueles que não chegam. Os que querem lá chegar querem chegar sempre. Se calhar o Luís não quis o suficiente e ficou sempre a pensar que era por causa disso que ele não conseguia. É evidente que essa situação pode ter tido efeito nele e noutros jogadores, porque pode parecer injustiça, mas se ele depois foi desistindo é porque ele também não queria o suficiente. Teve influência, obviamente, mas o principal culpado é ele próprio", disse Nuno Aguiar.

Mais recentemente, Luís Almeida soube que o seu nome estava na lista de Marco Silva, antigo treinador do Estoril, para uma eventual chamada aos trabalhos da equipa principal. "Já depois de eu ter acabado de jogar, o meu pai chegou a casa e contou-me que teve um encontro com um dos meus antigos treinadores. Esse treinador disse-lhe que eu cheguei a estar na lista do Marco Silva para ser chamado para os seniores. Foi no meu auge, quando passei de juvenil para júnior. Tinha 17 anos. Só não me chamaram logo porque queriam ver-me nos juniores para ganhar mais andamento. Acho que eles estavam à espera para ver como eu me dava nos juniores, mas não correspondi por variadíssimos motivos. Pelos brasileiros, por ter ficado desmotivado, por não ter dado tudo o que podia", lamentou.

Contudo, ver uma jovem promessa não render o esperado não é novidade. Um dos casos mais famosos é o de Fábio Paim, que prometeu muito no Sporting mas nunca atingiu aquilo a que estava destinado. Ainda assim, Luís Almeida assegura que o seu caso é bastante diferente. "O meu caso é muito diferente do do Paim. Ele tinha muito mais talento que eu. Ele teve muito mais acompanhamento e ajuda, mas deixou-se levar pela fama e pelo dinheiro. Se eu tivesse a oportunidade que ele teve, se calhar tinha-me agarrado logo."

O percurso de Luís Almeida

Luís Almeida começou a jogar futebol com seis anos de idade e o primeiro clube foi, precisamente, o Estoril Praia. Segundo o próprio, não era um dos melhores jogadores das equipas de formação do clube canarinho, mas continuou a utilizar a camisola amarela durante vários anos e sempre como defesa-central. Aos 12, depois de um torneio no Algarve, soube que não tinha sido um dos escolhidos para seguir para equipa de infantis de onze, continuando na equipa que jogava futebol de sete, mas essa decisão acabou por mudar a meio da temporada. Contudo, foi dispensado no final da temporada por "não sentirem evolução".

Acabou por seguir para a URD Tires, também no concelho de Cascais, mas "estava com uma autoestima futebolística muito baixa depois de sair do Estoril". No entanto, foi surpreendido na chegada ao novo clube, onde foi muito bem recebido. "Viam-me como o gajo que veio do Estoril", disse ao Bancada. A adaptação foi imediata: foi titular indiscutível e, em meses, passou a capitão. Benefeciando também da menor qualidade da equipa da URD Tires, acabou por passar da defesa para o meio-campo. No final da temporada, foi-lhe pedido que continuasse no clube, mas o objetivo de Luís era outro: voltar ao Estoril.

Fê-lo, através dos treinos de captação e começando tudo do zero. Ficou e lembra-se da expressão dos antigos colegas com quem voltou a partilhar o balneário. "Saí de lá como um defesa-central por quem ninguém dava nada e voltei como número 8. Ficaram surpreendidos e já me falavam de outra maneira. Foi muito estranho", contou. O regresso, com 14 anos, foi muito bem sucedido e ganhou o lugar de imediato, passando até a capitão e crescendo de época para época. Quando passou de juvenil para júnior, pensava que ia ter uma temporada com menos tempo de jogo por ser jogador de primeiro ano, mas foi titular logo desde o início da época e o treinador até o colocou entre o lote de capitães.

No Estoril, Luís Almeida chegou a ser capitão nas equipas e juvenis e juniores (foto: Facebook Luís Almeida)

O problema veio na temporada seguinte. "Vinham jogadores do Brasil para jogar na formação do Estoril com o intuito de subir para os seniores um ou dois anos depois. Um desses jogadores que veio do Brasil tirou-me o lugar e fui para o banco", começou por dizer Luís Almeida, explicando depois que esses jogadores brasileiros atravessavam o Atlântico graças à estratégia implementada pela Traffic no clube. Para além de ter perdido o lugar, o antigo jogador perdeu a braçadeira de capitão, o que considerou estranho visto que já era júnior de segundo ano e havia sido um dos capitães no ano anterior. "Pela lógica, pensei que passasse a primeiro capitão porque os dois outros capitães tinham subido para seniores", frisou.

Na primeira jornada dessa época (2014/15), o Estoril recebeu o Benfica e acabou goleado por 5-0. Luís Almeida, um dos principais jogadores da equipa no ano anterior, foi remetido para o banco de suplentes. "Estávamos a perder 5-0 e, a 15 minutos do fim, o treinador mandou-me entrar. Eu, apesar de já estar chateado por não ter sido capitão nem titular, tentei não mostrar o desagrado e corri como se fosse a final da Taça de Portugal", assegurou. O esforço foi recompensado e, no jogo seguinte, foi titular. A visita do Estoril a Alcochete, para defrontar o Sporting, acabou com a vitória canarinha por 3-2 e um dos golos foi marcado por Luís Almeida.

Tudo parecia ter voltado à normalidade, mas a Traffic trouxe mais um jogador brasileiro que, de imediato, remeteu Luís Almeida para o banco de suplentes. O ex-jogador contou até um episódio caricato. "Houve um jogo em Coimbra, contra o União de Coimbra, em que nessa semana de treinos esse meu colega brasileiro estava lesionado e não treinou. Eu pensei que seria a segunda opção e que iria jogar. Chegou ao último treino da semana e ele apareceu em campo cheio de ligaduras no joelho e só deu uns toques na bola. Ele foi convocado, foi titular e jogou o jogo todo. Perdemos e eu não entrei. A partir daí comecei a desmotivar-me." A época continuou com Almeida a perder cada vez mais espaço. O último jogo pelo Estoril aconteceu no Estádio do Restelo, diante do Belenenses. Foi expulso e nunca mais voltou a utilizar a camisola do clube onde deu os primeiros toques na bola. Depois dessa partida acabou por ir ao Brasil para marcar presença no casamento do irmão e, quando voltou, não foi a mais nenhum treino. Não avisou nenhum elemento do Estoril e, do outro lado, também não recebeu nenhuma tentativa de contacto.

Luís Almeida no campo onde jogou durante anos, ao lado do Estádio António Coimbra da Mota (foto: Débora Saturnino)

Esteve algum tempo parado. Já não estava a estudar e também não tinha emprego, mas surgiu a oportunidade de voltar a representar a URD Tires, desta vez já no escalão sénior. Chegou a ser convidado pelo presidente do clube, tendo aceitado. Fez alguns jogos, mas considerou que a URD Tires não tinha a seriedade necessária e, para piorar, voltou a ser utilizado na posição de defesa-central. "Os meus piores anos da formação foram a central. Não queria voltar a jogar nessa posição."

O rumo da vida de Luís Almeida mudou bastante nos meses que se seguiram. Participou no reality show 'Casa dos Segredos', da TVI, mas o futebol nunca deixou de ser a maior paixão e a chance de voltar ao Estoril voltou a existir quando a equipa B do clube foi criada. Recebeu o convite do treinador, que havia sido o mesmo que na equipa de juniores, e falou com ele para perceber os moldes em que a equipa e a sua utilização iriam funcionar. Esteve cerca de dois meses com a equipa, sem jogar, e acabou por voltar a desistir. Não informou ninguém e também não foi contactado. Hoje, lamenta a decisão. "Não sei se viria a ser profissional, mas estaria a jogar de certeza se não tivesse abandonado o Estoril. Agora já não tenho a forma física e o pulmão para correr, mas gostava mesmo de jogar à bola. Foi sempre o que eu quis fazer. Nunca mais tive nenhum plano para a minha vida a não ser jogar à bola", concluiu.

Nota: o Bancada tentou entrar em contacto com a Traffic, mas não o conseguiu fazer com sucesso.

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