Prolongamento
Pedro Barroca, o Ferguson português foi o primeiro a ouvir os gritos de Jesus
Sérgio Cavaleiro
2018-03-08 21:05:00
O treinador é filho de José Barroca, bicampeão europeu pelo Benfica e vencedor da Taça das Taças pelo Sporting

Se é um verdadeiro apaixonado pelo futebol então prepare-se! Porque o que vai ler nos próximos parágrafos são histórias reais do futebol real. O Bancada esteve à conversa com um homem que tem futebol a correr-lhe nas veias. É filho de um bicampeão europeu, chegou a ser apelidado de “Alex Ferguson do futebol português” e, imagine-se, apadrinhou, como jogador, a estreia de Jorge Jesus, como treinador. Pedro Barroca está agora afastado do jogo, mas o bichinho já está a pedir que regresse. Que regresse ao mundo onde se sente bem, mesmo que seja “um mundo onde impera o ‘salve-se quem puder’”.  Ao Bancada, Barroca lembrou o dia em que Guerra Madaleno foi preso e a relação complicada de Jorge Jesus com os seus jogadores. Mas há mais. Muito mais.

Por trás da pessoa simples, calma e muito prestável está um baú repleto de histórias que encantariam qualquer amante do futebol. Um dia seria pouco para ouvir todas as peripécias que Barroca – como é tratado no mundo da bola – tem guardadas na memória. Memória, essa, construída por mais de 30 anos de futebol, primeiro como jogador e depois como treinador. Foi com muita simpatia que nos recebeu no estabelecimento comercial que gere atualmente e foi com muito orgulho que nos mostrou as duas faixas de campeão e bicampeão nacional de 1959/60 e 1960/61 que o seu pai, José Barroca, lhe pediu para guardar antes de falecer, em 2015. Que bela forma de começar uma conversa. Mas havia mais. Mais e um par de botas.

Do interior do estabelecimento, Barroca traz um dos primeiros pares de botas que o seu pai usou. Ou seja, estamos a falar de qualquer coisa na casa do final dos anos 50 do século passado. Uma autêntica relíquia. Os pitons são pregos de ferro cravados em pequenas barras que atravessam as chuteiras. Ter um objeto destes à mão de semear é um acontecimento raro, por isso aproveitámos a boa vontade de Pedro Barroca para nos deliciarmos enquanto podíamos e ouvíamos algumas das histórias sobre José Barroca, o guarda-redes que fazia parte do Benfica bicampeão europeu em 1960/61 e 1961/62, e, espante-se agora, que também fazia parte do Sporting que conquistou a Taça dos Vencedores das Taças, em 1963/64. Leu bem, sim. Apesar de ter sido poucas vezes utilizado, a verdade é que José Barroca fazia parte destas duas equipas portuguesas que conquistaram a Europa no início dos anos 60.

As faixas de campeão que Rui Costa quis

Deixámos, por momentos, as botas de lado e voltámos às faixas. As mesmas que Rui Costa, atual administrador da SAD e antiga glória do Benfica, quis que Barroca deixasse no Museu Cosme Damião. Mas o antigo camisola 10 dos encarnados não foi o único a “fazer olhinhos” às faixas, como nos contou o legítimo proprietário das mesmas. Antes de falecer, o meu pai disse que as faixas e as medalhas eram para ficar com os filhos. Por isso não dei nada. Vão ficar comigo para sempre. Mas tenho sido muito assediado. Havia um homem que não me largava por causa das faixas. Um senhor de Leiria que montou um museu do Benfica muito insistiu comigo para lhe emprestar as faixas durante dois anos. Mas eu disse sempre que não”

“Um dia fui com este senhor de Leiria ver um jogo do Benfica, ao Estádio da Luz, e fomos para a zona VIP, onde este homem distribuiu lembranças a toda a gente. No meio estava lá uma menina a vender cachecóis e como eu não tinha nenhum ela veio ter comigo. O tal senhor de Leiria disse à rapariga: ‘Deixe estar. Ele tem ali dois cachecóis que vai já usar’ – referia-se às faixas que eu tinha levada para ele puder olhar para elas. Quase que me obrigou a meter as faixas à volta do pescoço. Bem, já ninguém me largava só por causa das faixas. Quem lá estava era o Rui Costa que veio falar comigo para tentar convencer a deixar as faixas no museu Cosme Damião, mas eu não cedi.”

Pedro Barroca nasceu em 1964, por isso mesmo as memórias que guarda do seu pai são já numa fase mais adiantada da carreira de José Barroca. “Recordo-me de ver o meu pai jogar no Estádio da Luz, mas como adversário do Benfica, primeiro pelo Farense e depois ao serviço do Olhanense”, contou, ao Bancada, o pai de duas filhas e avô de dois netos, um rapaz que, adivinhe, joga nos benjamins do Benfica. O futebol está no sangue de Pedro Barroca. Já lhe contámos a história do pai e falámos sobre o neto, mas a ligação dos Barroca ao futebol não fica por aqui. E se lhe dissermos que o avô de Barroca foi um dos fundadores do Estrela da Amadora? Exato. E que depois de ser presidente do Estrela foi para Linda-a-Velha onde fundou o SC Linda-a-Velha. Pois. Futebol, portanto. Muito futebol.

É portanto difícil, até para o próprio Barroca definir o momento em que sentiu que a sua vida ia ser relacionada com o futebol, porque o futebol era a sua vida, dentro e fora de casa. Os primeiros pontapés na bola, mais a sério, deu-os nas camadas jovens do Futebol Benfica – Fofó -, onde, segundo o próprio se ia formar num médio de “elevada qualidade técnica”, mas o destino tinha preparado outro plano para Barroca e aquele que poderia ter sido um grande médio tornou-se um guarda-redes. “Não te vou dizer que me arrependo, mas às vezes penso que se calhar a minha carreira poderia ter sido outra se tivesse continuado a jogar à frente. É que eu jogava muito. Tinha muito bons pés. Era tecnicamente muito evoluído. Não sei se teria sido melhor ou pior, um pessoa nunca sabe, mas que era bom de bola era”.

Mas o que se passou afinal?

“O nosso guarda-redes principal adoeceu e o segundo tinha um braço partido. Logo na semana que íamos ao Estádio da Luz jogar contra o Benfica e naquela altura, jogar contra os grandes, acabava sempre em goleadas. Eram aos dez e aos 15, enfim. O treinador, o Neto, que também jogou no Futebol Benfica, chegou-se ao pé da gente, todos miúdos, e perguntou ‘quem é que se ajeita a jogar à baliza?’ E eu disse, ‘epá oh mister, eu consigo mandar-me para o chão e tal’. E ele disse, ‘então pronto, vais tu’. E assim foi. Empatámos 0-0, defendi tudo, e o homem nunca mais me tirou da baliza. Há coisas que não têm explicação. Acabei por seguir as pisadas do meu pai”

O presidente que foi preso horas depois de ter oferecido um apartamento que Barroca rejeitou

O primeiro grande passo na carreira de Pedro Barroca aconteceu em meados dos anos 80 quando recebeu uma proposta do Ginásio Clube de Alcobaça, na altura, a disputar a segunda liga depois de um ano no principal escalão do futebol português. Barroca, então com 19 anos, jogava no UDR Algés quando recebeu uma chamada de Valter Ferreira, treinador do Alcobaça, a dizer que contava com ele para as próximas temporadas. Até aqui tudo normal. A cena bizarra aconteceu aquando da assinatura do contrato. O presidente era o advogado Guerra Madaleno. Uma figuraça, que no início do novo milénio chegou mesmo a concorrer à presidência do Benfica e que tinha uma forma muito peculiar de abordar as situações. Repare. Quem conta é o próprio Barroca:

“O Guerra Madaleno era advogado e tinha um escritório ali no Camões, onde eu me desloquei para assinar o contrato. No dia combinado, cheguei lá, subi ao primeiro andar e ele virou-se para mim, ‘ó miúdo, isto é um clube de primeira divisão. Representares o Ginásio de Alcobaça já é um orgulho muito grande para ti. Assinas por quatro anos e dou-te um apartamento nas Olaias’.

“Eu achei aquilo muita fruta. E, eu, como já tinha a experiência de vida do meu pai e do meu avô, sempre ligados ao futebol, estava avisado para este tipo de coisas. E é importante não esquecer que não altura não havia cá empresários, nem nada disso. Andei sempre sozinho a tratar dos meus assuntos. E o Guerra Madaleno continuou: ‘Quatro anos e um apartamento nas Olaias. No primeiro ano vais aprender como é que os jogadores entram numa cabine. No segundo ano é para aprenderes a equipares-te como deve de ser e no terceiro ano já vais poder ser uma opção para a equipa.’

“Eu virei-me para ele e disse: ‘ó presidente, não quero o apartamento. Assino dois anos e quero dinheiro.’ Ou seja, o ordenado base eram 50 escudos e depois havia as luvas, isto é, o apartamento. Mas eu queria era dinheiro. E ele disse-me: ‘Então vai lá fora e manda entrar o teu colega’. Estava lá o Luís Alberto que também vinha do Algés para assinar com o Ginásio de Alcobaça. E ele assinou contrato: quatro anos e o apartamento nas Olaias.

“Volto a entrar. Assim que olho para a secretária dele vejo-a coberta de notas de 20 escudos. ‘Miúdo, apanha isso tudo e assinas por dois anos’. Na altura, nunca tinha visto tanto dinheiro. Agarrei no dinheiro e assinei o contrato de dois anos. Só quando cheguei a casa é que contei o dinheiro: eram cerca de 230 contos. Na altura, muito dinheiro.

“Mas calma, no dia em que assinei o contrato deixei lá o Bilhete de Identidade, nos escritórios da empresa de advogados do Guerra Madaleno, para que a assinatura fosse reconhecida. E disseram-nos, a mim e ao Luís Alberto, para voltarmos lá no dia seguinte para os recuperar.

“Assim fizemos. Eu e o Luís Alberto, no dia seguinte, encontrámo-nos e fomos ao Camões buscar os Bilhetes de Identidade. Subimos ao primeiro andar, e quando chegamos à porta, vimos que estava selada com fita vermelha e branca. Olhei para o Luís e disse, enganámo-nos no prédio. Voltámos à rua e olhámos para a o prédio ‘Escritórios de advogados tal e tal…É este pá’. Voltámos a subir e a porta selada.

“Saímos dali e fomos falar com os treinadores, o Valter e o Matine. Disseram-nos que o Guerra Madaleno tinha sido preso. Ou seja, ele foi preso no dia em que eu assinei. Eu assinei de manhã e ele foi preso à tarde. Tive de ir buscar o meu Bilhete de Identidade à Polícia Judiciária. Só te posso dizer que durante essa temporada não recebi um salário. Foram dez meses sem ver um tostão. E eu que tinha acabado de ser pai da minha primeira filha.”

Guarda-redes do Trofa por uma noite

Depois de passagens pelo SC Caldas, onde se sagrou campeão, e pelo UD Santarém, Pedro Barroca mudou-se para o GD Bragança, na altura a disputar a Segunda Divisão. E foi aqui que se deparou com mais um episódio muito bizarro. Depois de apenas alguns jogos disputados com as cores do Bragança, Barroca recebe uma chamada de alguém muito desesperado. Do outro lado da linha estava o treinador do Trofense. “Barroca. Fiquei sem guarda-redes. Preciso que venhas para cá. Quanto é que recebes aí? Nós pagamos-te o dobro”

Pedro Barroca, então com 25 anos, não podia rejeitar tamanha melhoria de contrato, mas o compromisso, estabelecido há pouco tempo, com o Bragança era uma realidade e as coisas não podiam ser tratadas às três pancadas. Quem disse? Barroca transmitiu as suas preocupações a António Jesus, então, o treinador do Trofense, e explicou que tinha um compromisso com o Bragança. Mas do outro lado apressou-se a solução. “Ok. Fazes o seguinte. Pedes dispensa para ires tratar de uns assuntos a Lisboa. Estás a ouvir? Dizes que tens de ir a Lisboa, é urgente. E vens até à Trofa. Eu depois trato do resto.” E assim foi.

Na Trofa. Bem, na Trofa, foi assim que tudo aconteceu:

“Sai de Bragança um dia e cheguei à Trofa eram para aí umas cinco horas da tarde. “Assim que lá cheguei encontrei-me com o treinador que me disse: ‘Vais jogar hoje, temos um jogo para a Taça da AF Porto’.

- ‘Hoje? Mas eu sou jogador do Bragança’

- Não te preocupes, eu é que sei. Jogas hoje e os diretores veem-te a jogar já hoje.

“Assim fiz, joguei, com um cartão de outro jogador qualquer. Ganhámos, passámos a eliminatória e no fim reuni-me com os diretores para assinarmos o contrato. Quando olho para o contrato vejo que não era nada daquilo que me tinham dito ao telefone. Era quase a mesma coisa que recebia no Bragança. Ou seja, fui passar uma eliminatória da Taça da AF Porto e jantar à conta. O pessoal do Bragança nunca soube nada. Dois dias depois já estava de novo em Bragança para treinar. Na ficha de jogo nunca apareceu o meu nome.

Os anos no Amora FC passados com Jorge Jesus

Barroca ficou apenas uma temporada em Bragança. “Fazia muito frio e nevava” e assim que teve a possibilidade de se aproximar de casa, não hesitou. A próxima paragem do guardião foi o Amora FC, onde testemunhou a estreia de Jorge Jesus como treinador. Com o atual treinador do Sporting, Barroca aprendeu muita coisa, mas também viu características com que nunca se identificou, principalmente a forma com Jesus lidava com os jogadores: “Era demais para os jogadores. Tinha colegas meus que não podiam com ele. Ele levava as pessoas ao limite. Lembro-me, nos treinos, quando ele explicava os exercícios aos jogadores e o que ele queria, caso os jogadores não conseguissem à segunda ou à terceira ele chamava tudo e mais alguma coisa à malta. ‘Vais mas é jogar para o Cascalheira’.

       Barroca é o quarto, em cima, do lado esquerdo.

“Mas ele tem uma coisa boa que muito poucos treinadores conseguem e que para mim, é muito importante. Ele é muito bom a transportar os ensinamentos teóricos, ou seja, tudo o que nos explicava no quadro, para o treino, no campo. E isto é muito importante. É que há muitos treinadores que sabem muita teoria, mas depois têm dificuldade em replicar isso nos treinos práticos. E é nisto que ele é muito bom. Tem essa sensibilidade. Consegue transformar tudo o que é estático, em movimento.”

“Tanto que nós, com ele, jogávamos de olhos fechados. Já sabíamos que o nosso colega ia estar ali. Podíamos passar a bola que ele ia lá estar. Nesse aspeto, o Jorge Jesus é muito bom, agora em termos motivacionais peca muito. Muitas das vezes nem os titulares estavam satisfeitos com ele quanto mais os que não jogavam.”

Barroca recorda a incessante procura de Jorge Jesus pela perfeição, e para o, então treinador do Amora FC, havia um modelo a seguir: o Milan de Sacchi, Gullit, Ancelotti e Van Basten. “Ele obrigava-nos a ver o Milan jogar. Chegávamos a estar horas seguidas a ver o Milan, sempre que havia estágios lá estava o Jesus a meter os jogos do Milan.”

Pedro Barroca garante-nos que há muitas histórias para contar. Muitas delas que poriam a um canto a tão falada verdade desportiva. Os bastidores do futebol é um meio que não aconselha a ninguém, aliás, Barroca tem mesmo uma certeza “o melhor do futebol é o jogador, o resto é para esquecer. É o salve-se quem puder.” E se há alguém que pode falar assim é mesmo este homem. Depois de terminar a carreira de jogador onde, curiosamente, a havia iniciado – no Futebol Benfica -, Barroca abraçou a carreira de treinador e, espante-se, foi no Fofó que esteve os 16 anos que viveu como técnico principal, qual Alex Ferguson.

Deixou o clube depois de tantos anos por sentir que o tempo havia chegado. Viu-se rodeado de pessoas com quem não se identificava e preferiu sair. Hoje aguarda por uma proposta, quer voltar a treinar, mas tem de ser algo que o convença. Nós aguardamos pelo regresso da família Barroca ao futebol.

 

Sê o primeiro a comentar: