Prolongamento
O segredo para o sucesso dos treinadores portugueses
António José Oliveira
2018-08-30 22:00:00
“Não há nenhum país no mundo que tenha tantos treinadores de sucesso como Portugal”, refere a ANTF

Os campeonatos profissionais vivem uma situação inédita de aposta declarada no treinador português ao ponto de apenas um dos 36 treinadores das equipas que fazem parte do escalão maior e da segunda liga não ter nacionalidade portuguesa. Wender, do SC Braga B, é a exceção num mapa que apresenta uma mudança radical de paradigma relativamente à tradição mais recente.

A que se deve esta mudança? A um reconhecimento de qualidade? Ou apenas por meras razões de ordem financeira? Vítor Manuel, vice-presidente da Associação Nacional de Treinadores de Futebol, não tem dúvidas em atribuir esta viragem no futebol nacional ao reconhecimento de um “factor indesmentível”: a qualidade intrínseca do treinador formado em Portugal. “Não é por acaso que o nosso país, seja na primeira, seja na segunda divisão vive a conjuntura que vive”, sustenta ao Bancada, sublinhando: “Os dirigentes estão a reconhecer a competência do treinador português.”

“Além da bagagem técnico tática e de metodologia, o treinador nacional tem uma tremenda capacidade de se adaptar a situações de dificuldade e é daí que advém o sucesso”, argumenta Vítor Manuel, que acrescenta. “Faz parte da nossa genética, com menos fazer mais. Esta é a frase chave. Com menos fazer mais. Há um respeito cada vez maior pelo treinador português. Trata-se de uma aposta firme, objetiva, concreta, que não é ocasional. Assim, não é preciso importar matéria prima pois ela está cá.”

O vice-presidente da Associação Nacional de Treinadores de Futebol lembra, neste contexto, que não é por acaso que os denominados três grandes inverteram a tendência de apostar em treinadores estrangeiros. “Era uma questão de moda. Os dirigentes pensavam que tinham um crédito maior, mas a realidade mostra que não é preciso recorrer ao estrangeiro para contratar treinadores. Não é por acaso que somos campeões europeus com um grande treinador que é o Fernando Santos.”

Segundo Vítor Manuel, histórico treinador da Académica que, entre outros, dirigiu também o SC Braga, o Belenenses e a União de Leiria, o treinador português personifica “um caso raro, um caso de estudo para o mundo inteiro” no que diz respeito à “qualidade técnico tática, capacidade psicológica e pela forma como consegue rentabilizar os ativos.” “Não há nenhum país no mundo que tenha tantos treinadores de sucesso como Portugal”, acentua.

Neste contexto, o dirigente do organismo dos treinadores lembra a importância de José Mourinho. “Desbravou este caminho”, refere, acrescentando mais nomes: “Manuel José, Jesualdo Ferreira e Carlos Queiroz têm sido autênticos embaixadores de Portugal. Deram dimensão ao nosso país.”

A realidade dos denominados grandes é exemplificativa da aposta clara no “produto nacional.” Sérgio Conceição, Rui Vitória e José Peseiro personificam uma tendência acentuada como nunca esta temporada ao ponto de 36 dos 35 treinadores dos campeonatos profissionais terem nascido em Portugal.

O Benfica vai completar precisamente no final desta época uma década de aposta recorrente no treinador português. Desde 2008/09, desde o reinado do espanhol Quique Flores, culminado com um terceiro lugar no campeonato e a conquista da Taça da Liga através da marcação de penáltis frente ao Sporting após um empate a um golo (Bruno Pereirinha marcou para os leões e Reyes empatou de penálti para as águias), que o clube da Luz virou agulhas para o mercado interno. Uma aposta plena de sucesso, primeiro com Jorge Jesus e, mais recentemente, com Rui Vitória, expressa na conquista de cinco campeonatos nacionais, duas Taças de Portugal e seis Taças da Liga.

O FC Porto é, dos grandes, aquele que levou até mais tarde a aposta em treinadores estrangeiros. O também espanhol Julen Lopetegui saiu em 2015/16 sem ser campeão nacional. O melhor que conseguiu foi chegar aos quartos de final da Liga dos Campeões, onde após um triunfo de 3-1 na primeira mão, caiu de forma estrondosa em Munique, diante do Bayern, ao ser goleado por 6-1. A escolha recaiu, então, nos portugueses Nuno Espírito Santo e Sérgio Conceição, que levou os dragões à conquista do tão ansiado título, quebrando a hegemonia de quatro anos do Benfica.

Pelo meio no “timing” destas apostas ficou o Sporting. O belga Franky Vercauteren foi o último estrangeiro a dirigir tecnicamente os leões. Decorria a temporada 2012/13 quando substituiu Ricardo Sá Pinto acabando poucas jornadas depois por ser substituído por Jesualdo Ferreira naquela que ficou na história como a pior época da história do clube de Alvalade, culminada com um sétimo lugar, fora, portanto dos lugares de acesso às competições europeias.

De resto, à parte os chamados grandes, também os clubes insulares com uma tradição de aposta em treinadores brasileiros viraram antenas para o mercado português. O Marítimo “descobriu” Daniel Ramos e esta época avançou para a contratação de Cláudio Braga. Paulo César Gusmão, que resumiu a sua estadia a quatro derrotas em cinco jogos no início da temporada 2016/17, foi o último treinador estrangeiro dos verde-rubros.

Já o Nacional da Madeira subiu de divisão com Costinha e manteve a aposta nesta temporada, depois da horrível época de 2016/17 que relegou o clube para o segundo escalão. Pedrag Jokanovic, o último treinador estrangeiro da equipa da Choupana substituiu Manuel Machado mas também não resistiu aos maus resultados, cedendo o lugar a João de Deus.

OS TREINADORES CLUBE A CLUBE

FC Porto-Sérgio Conceição (Coimbra)

Benfica-Rui Vitória (Alverca)

Sporting-José Peseiro (Coruche)

SC  Braga-Abel Ferreira (Penafiel)

Rio Ave-José Gomes (Matosinhos)

GD Chaves-Daniel Ramos (Vila do Conde)

Marítimo-Cláudio Braga (Lisboa)

Boavista-Jorge Simão (Pampilhosa da Serra)

Vitória SC-Luís Castro (Vila Real)

Portimonense-António Folha (Vila Nova de Gaia)

CD Tondela-Pepa (Torres Novas)

Belenenses-Silas (Lisboa)

CD Aves-José Mota (Paredes)

Vitória FC-Lito Vidigal (Lubango, tem dupla nacionalidade)

Moreirense-Ivo Vieira (Machico)

Feirense-Nuno Manta Santos (Santa Maria da Feira)

Nacional-Costinha (Lisboa)

Santa Clara-João Henriques (Tomar)

Benfica B-Bruno Lage (Setúbal)

Académico Viseu-Manuel Cajuda (Olhão)

Farense-Rui Duarte (Lisboa)

Famalicão-Sérgio Vieira (Póvoa de Lanhoso)

Mafra-Filipe Martins (Amadora)

Estoril Praia-Luís Freire (Ericeira)

Varzim-Nuno Capucho (Barcelos)

FC Paços de Ferreira-Vítor Oliveira (Matosinhos)

SC Covilhã-Dito (Barcelos)

CD Cova da Piedade- Eurico Gomes (Santa Marta de Penaguião)

FC Arouca-Miguel Leal (Marco de Canavezes)

Leixões-Filipe Gouveia (Massarelos)

FC Penafiel-Armando Evangelista (Guimarães)

Académica-Carlos Pinto (Paços de Ferreira)

UD Oliveirense-Pedro Miguel (Oliveira de Azeméis)

Vitória SC B-Alex Costa (Guimarães)

SC Braga B-Wender Said (Guiratinga, Brasil)

FC Porto B-Rui Barros (Paredes)

Sê o primeiro a comentar: