Prolongamento
O Ramadão e o Mundial: Preparação à base de jejum e de uma fé inabalável
João Pedro Cordeiro
2018-06-02 21:00:00
Em 2018 participarão no Mundial sete nações muçulmanas que viram a sua preparação para a prova coincidir com o Ramadão.

Arábia Saudita, Egito, Marrocos, Irão, Tunísia, Senegal e Nigéria. Ao todo, serão sete as nações maioritariamente muçulmanas que irão estar presentes no Campeonato do Mundo que irá ser disputado este verão na Rússia. Pela primeira vez na história da competição, a mesma contará com a presença de quatro nações árabes entre as trinta e duas seleções participantes. Em 2018, serão, por isso, sete, as nações presentes na grande prova de seleções que irão ter a participação e, principalmente, a preparação na prova influenciada significativamente pelo Ramadão. O que poderá isso significar para os objetivos finais das equipas no Mundial?

Quis, o calendário islâmico que, em 2018, o Ramadão praticamente coincidisse com o Campeonato do Mundo. Ao contrário do calendário gregoriano, o islâmico tem por base as fases da lua e não do sol e, por isso, ainda que para os muçulmanos o Ramadão se inicie sempre no mesmo dia, transportado para o calendário europeu, o nono mês do calendário islâmico - conhecido como Ramadão e que celebra a revelação do Corão do Mundo - avança sempre onze dias de ano para ano no calendário gregoriano. Assim, em 2018, o Ramadão coincidiu com a preparação das equipas muçulmanas para o Campeonato do Mundo, iniciando-se a 16 de maio e terminando a 14 de junho, precisamente, a data de início do Rússia 2018.

Durante um mês, qualquer muçulmano que tenha já chegado à puberdade está religiosamente obrigado a jejuar durante as horas de sol. Da alvorada ao por do Sol, nenhum muçulmano adulto se pode alimentar, porém, o jejum, vai além de questões relacionadas com a alimentação. Reduzir o Ramadão a não comer e beber durante o período solar é redutor para uma prática que além de alimentar, é acima de tudo moral, religiosa e de disciplina. Além de não se alimentarem durante o período solar, espera-se que, durante o Ramadão, qualquer muçulmano adulto rejeite a prática de relações sexuais e qualquer comportamento que não seja moralmente positivo. O jejuante não deve limitar a sua ação somente à abstinência de comer e beber, mas também a tudo o que é visto como negativo. Sejam maus pensamentos, sejam maus actos. Em caso de insulto ou agressão deve ser indulgente, deve evitar obscenidades, ser generoso e aumentar a prática da reza através da leitura do Corão, bem como de uma presença mais assídua nas mesquitas durante o mês do Ramadão.

"Na preparação também temos tido esta situação especial do Ramadão, os jogadores não comem nem bebem durante o dia. Notou-se no jogo, sobretudo na segunda parte”, afirmou Héctor Cúper há poucas horas.

No caso dos futebolistas, em particular, o Ramadão obriga a uma mudança de hábitos, em teoria, pouco compatíveis com o futebol de alta competição e que podem ter implicação no rendimento desportivo dos atletas. Recentemente, por exemplo, Mohamed Salah, avançado egípcio do Liverpool FC, interrompeu o jejum imposto pelo Ramadão durante três dias de forma a que o mesmo não afetasse a sua prestação durante a final da Liga dos Campeões. Uma prática comum entre os desportistas muçulmanos segundo Rúben Pons, um dos elementos do corpo médico do Liverpool.

“Tanto quanto sei em Marbella, Salah cumpriu o jejum, mas ficou definido um plano para os três dias mais importantes. Na quinta, na sexta feira e no dia da final, Salah irá interromper o jejum de modo a que não o afete durante o jogo. Após a final irá recomeçá-lo”, afirmou o fisioterapeuta espanhol. A interrupção do jejum do Ramadão não é pecado. Diz, o próprio Corão, que “aquele que se encontrar enfermo, ou em viagem, jejuará depois o mesmo número de dias”, sendo apenas punido aquele que quebre inadequadamente o seu jejum. Aí, fica o pecador obrigado a um período de jejum de sessenta dias, o dobro do definido pelo Ramadão.

Numa altura em que a nutrição é tão ou mais importante do que o próprio trabalho técnico e tático, a prática de um jejum prolongado como exige o mês do Ramadão ao muçulmanos parece não se coadunar com o futebol de alta competição. Após o recente Egito-Colômbia desta sexta feira que terminou sem golos, Héctor Cuper, treinador argentino da equipa egípcia não evitou o assunto e assumiu que a prestação da sua equipa foi claramente influenciada pelo jejum do Ramadão. Não surpreende, dado que os seus jogadores não comiam algo há várias horas.

Durante o Ramadão existem então duas refeições. O Su-Hoor, antes do nascer do Sol e que substitui o pequeno-almoço e que é visto pelos muçulmanos como uma dádiva de Deus, e o Iftar, que é praticado logo após o início do crepúsculo, realizado ainda antes da oração. Para os muçulmanos, o Iftar é momento de reunião familiar, uma celebração de fé, e de oração conjunta com familiares e amigos. Mais do que uma refeição, o Iftar é um evento social e familiar.

Cuper tem sido mesmo um comentador bastante vocal das dificuldades que tem encontrado para preparar a sua equipa para o Mundial 2018. "Como é que vou conseguir treinar os jogadores durante o dia sem que eles possam comer ou beber água? Vou treiná-los às onze da noite, meia-noite, quando comerem depois do pôr do sol?", questionou-se. "Se tiver que tratar disto de forma pragmática, vou ter de virar os dias ao contrário. Talvez os jogadores egípcios estejam habituados a isto a fazer isto", afirmou ainda o técnico argentino à televisão egípcia.

"É uma questão de hábito. Recupera-se durante a noite, depois do pôr-do-sol, comendo e bebendo", afirmou Sougou, antigo avançado de UD Leiria, Vitória FC, Académica e Moreirense.

Se para os treinadores, como referiu Héctor Cúper, a prática do jejum do Ramadão obriga a pensar o treino e a preparação das equipas de forma diferente, são os jogadores que mais “sofrem” com a questão. Em 2015, várias notícias deram conta do desmaio de Nassim, antigo médio argelino do Vitória SC e tanto Sougou, como Wakaso ou Hassan já se pronunciaram publicamente acerca da influência do Ramadão nas suas prestações a nível desportivo. À Lusa, em 2009, Sougou disse não ser um problema: "No meu caso, não causa qualquer problema. Faço o Ramadão de segunda a quinta-feira e no domingo estou pronto a jogar, assim o técnico o entenda".

As declarações surgiram na sequência de uma observação de Rogério Gonçalves, então treinador da Académica, clube no qual jogava Sougou, com o técnico a afirmar que o período do Ramadão poderia vir a ter influência na prestação desportiva de Sougou. "Eu organizo-me assim, mas compenso os outros dias que falho mais tarde: pago-os nos dias de folga. Sei, no entanto, que há outros jogadores que o praticam de segunda a sábado, depende. É uma questão de hábito. Recupera-se durante a noite, depois do pôr-do-sol, comendo e bebendo”, defendeu o jogador senegalês que acredita que o Ramadão não tem qualquer influência no rendimento de um jogador.

Já em 2014, por Vila do Conde, eram dois os jogadores muçulmanos do plantel do Rio Ave que coincidiram o seu período de jejum com a pré-temporada da equipa. Hassan, hoje ao serviço do SC Braga, e Wakaso, que passou a temporada passada ao serviço do Vitória SC. “É muito difícil conciliar o jejum com o trabalho físico de jogador de futebol porque trabalhamos muito na pré-época, o período mais importante da época dos clubes e a mais exigente. Seria mais fácil se pudéssemos beber, mas não podemos e sentimo-nos fracos, sem forças com um trabalho tão duro”, afirmou então Hassan em declarações ao site oficial do Rio Ave. Uma ideia corroborada por Wakaso: “É difícil, mas treinar é tão importante quanto o jejum”.

“É um sacrifício que fazemos para lembrar que há pessoas que não têm dinheiro para comer e beber. Queremos sentir o que eles sentem. Nós temos dinheiro, posses e por isso temos de viver as dificuldades dos que não têm”

O avançado egípcio que, este ano, irá estar presente na Rússia ao lado de Mohamed Salah afirmou mesmo que apesar das divergências culturais e religiosas, o apoio e compreensão recebidos em Portugal tem sido grande. “Gosto muito a forma como os treinadores compreendem a nossa situação. Eles respeitam a nossa religião e por isso sugeriram um plano de trabalho diferenciado. Treinar de manhã, depois dormir e treinar novamente á noite e, claro, nós ficamos agradecidos”.

O jogador pode, no entanto, contornar a questão através de ações solidárias, como também explicou Hassan: “Imaginem que temos um jogo. No jogo é difícil aguentar e competir cumprindo o jejum porque temos de beber muitos líquidos. Então, há a possibilidade de, em alguns jogos, não se cumprir o Ramadão, mas depois do Ramadão tem de se cumprir esse dia de jejum e procurar uma família carenciada e oferecer-lhe comida para as necessidades deles”.

Algo que os três jogadores franceses muçulmanos presentes no plantel de Dider Deschamps também terão feito em 2016 quando o período de jejum relativo ao Ramadão também coincidiu com o torneio de seleções europeu. Pogba, Kante, Sissoko e Sagna acabaram por chegar a acordo com a federação francesa para não cumprirem o ritual durante a competição. "É um período complicado. Os jogadores foram colocados à vontade, não os obrigámos a qualquer sacrifício das suas religiões. Entenderam eles próprios que esta era a melhor maneira, até porque podem cumprir outro período de Ramadão ao longo do ano", afirmou então Noël Le Graët, presidente da Federação Francesa de Futebol.

Também Mesut Özil, em 2016, decidiu não praticar o jejum durante o torneio: "O clima é muito quente no verão e vamos ter treinos e jogos intensos. Será impossível para mim fazer jejum em França".

A solução saudita perante o Ramadão

Quem encontrou solução para preparar o Mundial de forma natural apesar dos condicionalismos próprios do jejum relativo ao Ramadão foi a Arábia Saudita. A federação saudita propôs aos seus jogadores que adiassem o período de Ramadão, sendo o mais provável que o jejum seja feito de forma intermitente e consoante os planos de preparação e jogo sauditas. Omar Bakhashwain, diretor técnico da seleção saudita, aludiu a situações anteriores para justificar as decisões da federação saudita.

“Quando se viaja é possível adiar o jejum. Não se está obrigado a ele. Mas podemos adaptá-lo perfeitamente com os jogadores, tenho a certeza. Já jogamos anteriormente durante o Ramadão e não será um problema”, afirmou o dirigente.

Cientificamente, porém, a situação não é tão linear. Apesar do jejum intermitente minimizar os danos físicos e reduzir a possibilidade do rendimento físico e desportivo ser afetado pelo Ramadão, a situação continua a não ser a ideal. “Jejuar de forma intermitente regularmente faz com que o corpo nunca se adapte ou entenda a situação, enquanto se o jejum for feito de forma consistente o corpo habitua-se à energia que dispõe e adapta-se. Idealmente seria melhor evitar o jejum durante a duração da preparação e do torneio e adiá-lo para um período mais tarde”, afirmou Nick Worth, antigo membro das equipas médicas de Manchester City e Wigan Athleic à imprensa saudita.

“A nossa qualificação ocorreu durante o Ramadão, portanto sabemos como lidar com isso. Ainda para mais, a nossa liga saudita tem sido jogada durante o mês sagrado. Sabemos como gerir este tipo de coisas, não será complicado, acreditem. Irão ver a equipa jogar a uma intensidade muito alta. Estamos preparados para tudo o que é preciso. Vamos fazê-lo”, afirmou ainda Omar Bakhashwain.

Juan Antonio Pizzi, treinador argentino que irá orientar a Arábia Saudita no Campeonato do Mundo também abordou o assunto, deixando-o nas mãos dos atletas. “Vamos respeitar totalmente aquilo que os jogadores decidirem. Temos de o compreender. Nós enquanto equipa técnica apenas podemos explicar-lhes o que irão encontrar em termos competitivos no Mundial, portanto terão toda a informação ao seu dispor para poderem tomar uma decisão em total conhecimento de causa”.

Quando até Cajuda cumpriu o Ramadão e Karimi foi despedido por não o fazer

Pelo Irão, Ali Karimi é uma lenda. Lado a lado com nomes como Nekounam, Daei, Mahdavikia, Teymourian ou Bagheri, Karimi luta pelo estatuto de melhor jogador iraniano da história do futebol. Chamavam-lhe o “Maradona da Ásia”, tal era a qualidade do antigo jogador do Bayern Munique e Schalke 04. A passagem pela Europa, porém, talvez possa ter amolecido a religião de Karimi que, em 2010, foi despedido pelo Steel Azin por não ter cumprido o jejum durante o Ramadão.

Depois de passagens pelos Emirados Árabes Unidos, Alemanha e Catar, Karimi regressou ao seu país em 2008, inicialmente, por empréstimo Persépolis, clube que o deu a conhecer ao Mundo e, mais tarde, a título definitivo, no Steel Azin. Foi precisamente neste último que tudo aconteceu. Depois de uma temporada fulgurante com quinze golos em 31 jogos pela equipa, já depois de ter passado pelo Bayern Munique, Karimi acabou despedido por não ter cumprido com um dos grandes pilares da sua religião.

O clube não o perdoou. Num comunicado divulgado no site oficial do clube, o Steel Azin explicou a decisão de rescindir o contrato com Karimi com o não cumprir dos hábitos muçulmanos, bem como com os insultos proferidos pelo jogador quando elementos da Federação Iraniana e um dirigente do clube o questionaram sobre o porquê de tal desrespeito. Karimi acabou sem clube e, talvez por isso, tenha regressado à Alemanha para representar o Schalke em duas ocasiões. Regressou, mais tarde, de novo, ao Persépolis para terminar a carreira em 2014 ao serviço do Tractor Club.

Para Cajuda não foi no Irão, mas foi lá perto. Na outra margem do Golfo Pérsico, nos Emirados Árabes Unidos por onde passou entre 2009 e 2011 e, mais tarde, na temporada 2014/15, Cajuda abraçou a cultura muçulmana e também ele jejuou. Foi, aliás, no Golfo Pérsico, que Manuel Cajuda largou o vício do tabaco. “Lá, fiz o Ramadão. Mas fi-lo mesmo, exatamente como eles fazem. Não basta dizer que estive lá. O que mais me custava era não fumar, e não fumava mesmo. E os medicamentos que tinha de tomar, tomava-os sem beber água. E gostei. Aprendi muito. Fumava que nem um desalmado e hoje não fumo, acabei com o tabaco. Um dia pus o maço de tabaco em cima da mesa e disse “até amanhã”. E de manhã dizia “bom dia”. Mas dizia mesmo. Se consegui fazer o Ramadão, também ia conseguir deixar de fumar”, afirmou em entrevista ao jornal I o agora treinador do Académico Viseu.

Em 2018 serão sete as nações maioritariamente muçulmanas as que irão participar no Campeonato do Mundo, duas delas, Irão e Marrocos, presentes no grupo de Portugal na competição. Duas equipas que irão chegar ao Campeonato do Mundo na sequência de um período com fortes implicações na preparação das equipas. Irá Portugal beneficiar com isso? Começa, a competição, a 14 de junho. Precisamente o dia em que o nono mês do calendário muçulmano termina e o jejum não é mais necessário. Será o suficiente para que Portugal tire disso alguma vantagem? Que role a bola.

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