Prolongamento
O mercado não está louco ou por que Neymar pode valer 222 milhões
Eduardo Botelho
2017-09-06 20:10:00
Há vários argumentos que ajudam a justificar o investimento feito pelo Paris Saint Germain em Neymar

“É a economia, estúpido!”, disse o Paris Saint-Germain ao entregar 222 milhões de euros ao FC Barcelona, para assegurar a contratação de Neymar. “É a política” disseram outros, olhando a origem do dinheiro, enquanto muitos preferiram a versão mais simplista: “o mercado está louco”. Neymar vale, de facto, 222 milhões? O PSG acha que sim, senão não o teria comprado. O FC Barcelona e a Liga Espanhola também concordam, daí se terem mostrado contra a realização do negócio. E, apesar de nunca se ter visto uma transferência parecida, há alguns argumentos para contrariar os que diagnosticaram a loucura do mercado.

Uma evolução natural

“Nenhum jogador do mundo vale 100 milhões de euros” disse o presidente do Bayern Munique, Uli Hoeness, dando voz ao que muitas pessoas pensam. Mas quanto poderão valer, então? Este tipo de avaliações terá de ser feito com base naquilo que os jogadores podem trazer ao clube. Os jogadores são os principais ativos destas empresas e são eles que geram, direta ou indiretamente, quase todas as receitas. Se nas últimas temporadas as receitas dos clubes têm aumentado drasticamente, com as receitas de patrocínios e contratos televisivos à cabeça, é natural que aumente também o valor que os clubes estão dispostos a investir em jogadores.

Olhando a relação entre as receitas do clube e o valor da contratação, a transferência de Neymar não foi a que implicou o maior esforço financeiro na história do futebol. Os valores pagos pelas contratações de Zinedine Zidane, em 2001, e de Luís Figo, em 2000, representaram uma percentagem maior das receitas totais do Real Madrid do que representaram os 222 milhões de euros para o PSG.

Segundo um artigo publicado na “The Economist”, apesar de os valores das transferências terem vindo a aumentar, o seu peso no total das receitas dos clubes tem-se mantido constante, com o valor pago por um jogador raramente a ultrapassar os 25 % das receitas totais do clube. Assim, investir mais de 40% das receitas de um ano inteiro em apenas um jogador é um esforço considerável. No entanto, as contratações de Figo e Zidane parecem ter sido boas apostas.

De resto, é verdade que o PSG se destacou como o grande gastador deste verão, mas houve muito dinheiro a ser movimentado no geral. O CIES – Observatório do Futebol revelou que os clubes das cinco principais ligas europeias investiram mais de cinco mil milhões de euros em passes de jogadores, o que supera em 38% o valor do ano passado, que era o recorde até então. Mas esse recorde vem sendo batido há cinco verões consecutivos, o que sugere que este ano o mercado não enlouqueceu, apenas confirmou a tendência que já se verificava. Em 2013, o valor total gasto em transferências subiu 35% em relação ao ano anterior e, em 2015, registou-se um aumento de 32% nesse valor, comparativamente ao ano anterior.

 O PSG poderá obter retorno com o investimento em Neymar de diversas formas

Em primeiro lugar, com Neymar, o clube fica mais próximo de conquistar títulos. Não só se tornou ainda mais favorito a vencer a Liga Francesa, que viu escapar para o AS Mónaco na última temporada, como também aumentou as suas chances na Liga dos Campeões, onde até enfraqueceu um rival direto (o FC Barcelona eliminou o PSG por três vezes nas últimas cinco edições da Champions).

Quando os rumores da transferência de Neymar para Paris ganharam força, as casas de apostas reagiram, subindo a probabilidade de vitória associada aos parisienses (de 6% para 9,5%) e baixando a dos catalães (de 18% para 16%), segundo um outro artigo da “The Economist”.

Do ponto de vista financeiro, no entanto, os prémios de desempenho nas diversas competições poderão dar apenas uma pequena ajuda para que o PSG recupere o dinheiro investido em Neymar. Ser campeão na Liga Francesa dá apenas mais dois milhões de euros do que ficar em segundo lugar, e vencer a Liga dos Campeões em vez de ficar pelos quartos de final, onde o PSG tem caído, significa uma diferença de 25 milhões de euros. As receitas de bilheteira também poderão ser aumentadas, subindo o preço dos bilhetes, mas não será por aí que a contratação de Neymar poderá ser compensada.

Onde o Paris Saint-Germain poderá passar a fazer muito mais dinheiro é através da visibilidade que o clube espera que Neymar traga. “Quando se pensa no Neymar como uma marca, talvez não seja assim tão caro” disse o presidente do clube, Nasser Al-Khelaifi, no dia em que foi anunciada a transferência.

Atualmente, segundo a “The Economist”, a Nike paga ao FC Barcelona 155 M € por ano e ao PSG apenas 24 M €. Neymar, sozinho, não conseguirá fechar esta diferença de 131 M € por ano, mas irá certamente fazer com que a mesma seja reduzida e, assim, começará a pagar a sua transferência. Para se perceber o impacto mediático que poderá ter Neymar, olhemos para o seu alcance nas redes sociais: são quase 61 milhões de fãs no Facebook (contra 31,5 M do PSG) e 81 milhões de seguidores (face a apenas 9,5 M do seu novo clube).

Outro dado interessante é o número de pessoas que pesquisaram por Neymar e por Paris Saint-Germain no Google, durante o último ano. Neymar é praticamente tão pesquisado como o seu novo clube, o que é algo fora do comum. Os únicos jogadores que são mais pesquisados do que Neymar são, sem surpresa, Cristiano Ronaldo e Lionel Messi, mas os seus respetivos clubes, Real Madrid e FC Barcelona, são ainda mais pesquisados do que eles próprios.

Para cumprir os objetivos a que o Paris Saint-Germain se propõe, a qualidade de Neymar por si só não é suficiente. Os dirigentes do clube francês sabem que o jogador brasileiro vale também pelo estatuto que traz ao clube e que poderá fazer com que se torne mais fácil trazer novos patrocinadores, mas também jogadores. Exemplo disso é Daniel Alves que, apesar de ter chegado a Paris antes de Neymar, disse que foi o seu colega de seleção brasileira que o convenceu a mudar-se.

Assim, os 222 milhões de euros pagos ao FC Barcelona foram mais do que a simples contratação de um jogador, foram um desafio aos clubes que dominam o futebol europeu e uma tentativa de arrombar a porta dessa festa onde os gigantes europeus não querem que entre mais ninguém. Talvez 222 milhões de euros não sejam uma loucura, mas o preço necessário a pagar.

De qualquer forma, certo é que a análise à razoabilidade deste negócio obriga a ir além do “não há nenhum jogador que valha x milhões”. É o mundo das finanças a entrar no futebol. Já sabíamos que todas as pessoas, sejam médicos, advogados ou economistas, têm opinião sobre futebol. Agora, é a vez do futebol contra-atacar (ou será que é sair em transição ofensiva?) com gente de calções e chuteiras a discorrer sobre lesões musculares, cláusulas contratuais e investimentos de milhões. É o futebol, estúpido!

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