Prolongamento
O jogo de uma vida do grego mais português de sempre
António José Oliveira
2017-11-09 18:50:00
Zeca começa esta quinta-feira no Croácia-Grécia a tentar garantir um lugar no Mundial da Rússia

O grego mais português de sempre começa esta quinta-feira no Croácia-Grécia a tentar concretizar o sonho de criança de alcançar um lugar no Campeonato do Mundo. Na senda de Fernando Santos, o português mais grego de sempre, Zeca, o camisola 8 da seleção helénica, personifica a relação histórica mas recente de Portugal com a Grécia, acentuada com o jogo de abertura e a final do Europeu de 2004 disputada em solo nacional. O antigo jogador de Casa Pia e Vitória de Setúbal atingiu a plenitude no futebol ao serviço do Panathinaikos. A experiência correu de tal forma a preceito que decidiu adquirir nacionalidade grega. Já Fernando Santos viveu o momento mais marcante da carreira no último Europeu, onde conquistou o título de campeão, mas teve também um percurso de tremendo sucesso por terras helénicas onde ainda hoje é endeusado.

"Vamos dar tudo o que temos para colocar a Grécia no Mundial e sabemos que este primeiro jogo fora é muito importante. Sair da Croácia com qualquer resultado que não seja a derrota pode vir a ser determinante. Falo por mim, estes serão os dois jogos da minha carreira", refere Zeca, que nasceu em Lisboa, joga na Dinamarca, ao serviço do FC Copenhaga, e é habitual titular da seleção liderada pelo alemão Michael Skibbe. "Quero concretizar o sonho da qualificação para o Mundial, feito que não está ao alcance de muitos futebolistas. Se passarmos, viverei os dias mais felizes no meu trajeto profissional", enfatiza.

Zeca não precisou de muito para se estrear a marcar pela Grécia. À quarta internacionalização, fez o gosto ao pé, frente à poderosa Bélgica empatando um jogo que os gregos acabariam depois por perder por 2-1. Esta quinta-feira, na Croácia, na primeira mão do "play-off" de acesso ao Mundial da Rússia, o médio, de 29 anos, vai completar o sétimo jogo com a camisola helénica depois de um longo processo para adquirir a dupla nacionalidade. "Tudo começou há pouco mais de um ano e meio. Numa conversa com o presidente do Panathinaikos, ele falou comigo e perguntou-me se eu não queria ter a cidadania grega. Na altura disse que sim, não vi problema nenhum. E começámos a tratar dos papéis, mas nessa altura ainda nem tinha havido nenhum contacto da parte da federação ou de alguém da seleção", recorda Zeca, justificando a opção: "Tudo o que tenho devo-o à Grécia. Foi aqui que criei o meu nome, as pessoas receberam-me muito bem. Sem esquecer o Vitória de Setúbal, que foi o clube que me abriu as portas do profissionalismo, e o mister Manuel Fernandes, que foi muito importante. O mister Jesualdo Ferreira, que foi quem me trouxe para o Panathinaikos, também ajudou a que tudo isto acontecesse. Sinto-me bem, sinto o carinho das pessoas e sinto que gostam de mim. Gosto do país e acho que com esta oportunidade era uma boa forma de retribuir aquilo que têm feito por mim nestes anos."

O agora jogador helénico garante, no entanto, que jogar pela Grécia não o tornou nem mais nem menos português: “Sei onde nasci e não abdiquei da nacionalidade portuguesa. Vibrei com Portugal no Euro 2016 e vou vibrar sempre. Desde que não seja contra nós ou desde que a Grécia tenha a possibilidade de ganhar uma competição."

É neste contexto que Zeca enfrenta a Croácia na esperança de fazer história e lançar a Grécia rumo ao Mundial de 2018. "A seleção está focada nestes dois jogos e enfrentá-los-á com a mesma determinação com que enfrentou o grupo. Sabemos o que temos de fazer", afirma o centro-campista, não mostrando receio face ao favoritismo que é atribuído à Croácia, onde ponfiticam Modric e Mandzukic. Não só não mostra receio como lembra o sucedido na última final do Campeonato  da Europa em que Portugal venceu a França em Paris e o... verificado no Europeu de 2004 quando a... Grécia venceu Portugal na final disputada em Lisboa por um golo sem resposta mediante um remate certeiro de Charisteas ao minuto 57. "É verdade que a Croácia tem uma grande equipa, mas a França também era favorita na final do Euro’2016 e Portugal chegou lá e ganhou. Assim como no Euro’2004, Portugal era favorito na final e a Grécia surpreendeu tudo e todos."

A este propósito, Zeca lembra, de resto, a importância de a segunda mão do "play-off" se disputar em Atenas. "Temos de sair bem desta primeira mão porque depois sabemos que podemos resolver tudo em Atenas, onde teremos tudo a nosso favor."

O jogo desta quinta-feira promete ser escaldante tendo em conta as medidas tomadas pela FIFA e o tom das declarações assumido, por exemplo, por Ante Rebic. O atacante croata que representa o Eintracht Frankfurt, foi corrosivo em relação ao estilo de jogo do adversário desta noite. "Do futebol grego, só conheço dois jogadores que jogam na Bundesliga. O Sokratis, do Dortmund, é um dos jogadores mais conflituosos que defrontei. E em termos de seleção, eles jogam de forma muito mais suja do que quando representam as suas equipas."

Estreia inesquecível

A estreia de Zeca com a camisola da Grécia aconteceu a 26 de março deste ano. Um momento inesquecível para o médio que um dia chegou a capitão do histórico Panathinaikos. "É algo que vou guardar para o resto da minha vida. Senti bastante o hino nacional e foi mesmo inesquecível. Quero agradecer a todos os gregos e prometo dar tudo por esta camisola", afirmava na altura, depois de um precioso empate a uma bola averbado em Bruxelas, diante da Bélgica. Ou seja, a seleção belga ficará para sempre ligada à história de Zeca. Apadrinhou a sua estreia e foi também o adversário a quem o centro-campista marcou o primeiro golo na condição de internacional helénico.

E como é falar e entender grego? "Consigo comunicar, toda a gente me entende e eu entendo toda a gente. Não estudei a língua, aprendi grego com os meus colegas de equipa e com as pessoas na rua. Estava sempre a perguntar o que é que as coisas queriam dizer. Fui aprendendo e hoje acredito que consigo comunicar bem com as pessoas."

A 28 de agosto, Zeca não deixou de surpreender ao deixar o Panathinaikos para reforçar o FC Copenhaga. Uma opção que justificou através do site do próprio clube, do qual era capitão de equipa."Fui jogador do Panathinaikos nos últimos seis anos. Esses seis anos foram os melhores da minha carreira. Vivi momentos de alegria, de sucesso e insucesso. Conquistei uma Taça e tentei conquistar muitos mais títulos. Dei o meu melhor pela equipa e ao mesmo tempo recebi muito deste clube. Amo o Panathinaikos, tornei-me adepto do clube", frisou, para depois acrescentar: "Tornei-me cidadão grego e tenho a honra de representar a seleção nacional grega. Porém, chegou o momento de me despedir do Panathinaikos. É o momento certo para dar um novo passo na minha carreira. O Copenhaga ofereceu-me um novo desafio que quero aceitar."

Como demonstração de gratidão, o antigo médio do Vitória de Setúbal admitiu a vontade de voltar um dia. "Resta-me agradecer a todos que fazem parte desta família que é o Pana. Saio como capitão de equipa e gostava de deixar uma mensagem a todos os adeptos: continuem a apoiar o clube. Talvez um dia regresse para lutar por este clube. Vou estar sempre próximo."

Se Zeca procura um lugar no Mundial, Fernando Santos já lá está. O selecionador nacional fez história por Portugal no Europeu e fez jus ao estatuto conseguindo o apuramento direto rumo à Rússia, onde vai disputar a quarta fase final consecutiva de um Campeonato do Mundo. Já ao serviço do Grécia, o antigo treinador de FC Porto, Benfica e Sporting colocou a seleção grega no Europeu de 2012 e no Mundial de 2014.

"Fernando Santos cedo se tornou um rei. Ele era amado na Grécia, independentemente do clube", afirmava Jorge Rosário, treinador-adjunto do selecionador português em entrevista à FIFA, exemplificando com um momento conturbado no AEK Atenas, em que o treinador anunciou a sua saída, mas, passados alguns dias, cerca de três mil pessoas se juntaram a apoiar a sua permanência, o que acabou por acontecer.

Em 2010, Fernando Santos, já depois de ter sido eleito por três vezes o melhor técnico, foi mesmo eleito o treinador da década em solo helénico. Um ponto alto de uma carreira bastante reconhecida pela generalidade dos gregos. "É o reconhecimento do trabalho que fiz para o desenvolvimento do futebol grego", lembrava na altura. Dois anos depois, conduziu a Grécia aos quartos de final do Campeonato da Europa, conseguindo também levar os helénicos ao melhor resultado de sempre numa fase final de Mundiais: os oitavos-de-final. 

 

 

 

 

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