Prolongamento
O ex-contabilista que entrou na história de FC Porto e Sporting
Luís Santos Castelo
2018-07-10 22:00:00
Edmílson Pimenta levantou o título nacional em dois dos três 'grandes' do futebol português

Chegou a Portugal com apenas 21 anos para representar o Nacional no segundo escalão. Pouco passou até chegar à elite e ser campeão por dois dos três maiores clubes lusitanos. Mais: esteve para ser contabilista, mas foi peça importante em dois dos momentos mais importantes da história de FC Porto (o 'penta' dos anos 90) e Sporting (o título de 2000). Agora, aos 46 anos, falou com o Bancada sobre toda a carreira e as experiências em Portugal.

Nascido a 17 de setembro de 1971 em Santa Teresa, no estado brasileiro de Espírito Santo, Edmílson Gonçalves Pimenta começou a jogar futebol de forma série na Associação Atlética Colatina em 1989 no escalão de juniores. Foi mais ou menos por essa altura que começou a perceber que tinha mais jeito para jogar à bola do que os restantes e que podia chegar longe. Em 1991 assinou o primeiro contrato profissional no Real Madri Futebol Clube, outro emblema de Colatina, e foi aí que definiu o seu futuro. Até então, Edmílson trabalhava na contabilidade e estava encaminhado para ser contabilista, tendo já pensado em estudar na área. Em 1992 e 1993 representou o EC Democrata e foi aí que despertou o interesse do Nacional (e não só).

"Quando estava em Colatina surgiu a hipótese de ir para o EC Democrata, onde apanhava equipas mais fortes, e os meus treinadores foram-me dizendo que tinha qualidade para ir mais além. Depois surgiram vários clubes com os quais negociei, entre os quais o Nacional", disse ao Bancada. Entre os outros interessados estavam grandes clubes brasileiros como o Cruzeiro, o Atlético Mineiro ou o América Mineiro, mas Edmílson escolheu Portugal e rapidamente percebeu as diferenças entre os dois países no que a futebol diz respeito. "Um futebol bem mais forte, tanto fisicamente como bem jogado. No Brasil há a técnica, mas veem-se alguns defeitos táticos. Aqui aprendi várias coisas que não sabia taticamente", explicou-nos.

No segundo escalão do futebol português, Edmílson foi um dos maiores destaques do Nacional e uma das principais revelações do campeonato. As exibições na Divisão de Honra chamaram a atenção de clubes da Primeira Divisão e foi dessa forma que o avançado foi contratado pelo SC Salgueiros para a temporada 1994/95. E o ano de estreia na elite não podia ser melhor: o SC Salgueiros terminou na 11ª posição, longe dos lugares de descida, e Edmílson marcou 15 golos em toda a prova, revelando uma veia goleadora que ainda não se lhe conhecia. "Quando cheguei ao Salgueiros, o Mário Reis [treinador] apostou em mim e comecei a treinar ainda mais a finalização. As coisas começaram a correr bem, tínhamos uma equipa belíssima. Fizemos um campeonato tranquilo e consegui ser o quinto melhor marcador do campeonato."

Edmílson com Sérgio Conceição, atual treinador do FC Porto (Lusa)

Em 1995, apenas dois anos depois de chegar a Portugal, Edmilson chegou ao topo. Chegou a negociar com o Vitória de Guimarães, mas acabou mesmo por assinar pelo FC Porto que tinha acabado de recuperar o título nacional. Rapidamente assumiu a titularidade e tornou-se uma peça essencial entre 1995 e 1997, período em que conquistou dois campeonatos e uma supertaça. No total, foram 84 jogos pelo FC Porto e 30 golos marcados. Entre os encontros mais memoráveis de dragão ao peito está uma vitória por 6-3 ao SC Braga com um hat-trick de Edmílson e a goleada por 5-0 contra o Benfica na Luz na Supertaça de 1996. O brasileiro marcou o segundo golo. "Fui muito bem recebido. O Bobby Robson recebeu-me muito bem, todo o Porto recebeu-me bem. Qualquer jogador é bem recebido. Foram duas épocas maravilhosas no FC Porto. Sei que estou na história do FC Porto. (...) Deixando a modéstia de lado, foram duas épocas fantásticas. Sabia que era uma peça fundamental, o Bobby Robson e o Mourinho diziam-me isso."

No FC Porto, Edmílson partilhou o balneário com um jovem chamado... Sérgio Conceição. Acabado de chegar do FC Felgueiras, Sérgio Conceição começou a destacar-se na última época de Edmílson no FC Porto. Ao Bancada, o sul-americano explicou que já estava à espera de ver o antigo colega na frente da equipa portista. "O Sérgio sempre foi um jogador com muita personalidade e já via que ele ia vencer, apesar da tenra idade. Não é à toa que ele chegou ao FC Porto e se adaptou muito bem com a alma e o balneário do FC Porto. Sabia que o Sérgio ia, mais cedo ou mais tarde, treinar a equipa do FC Porto."

As duas épocas de grande nível no FC Porto deram a Edmílson um novo estatuto no futebol europeu. Tanto que teve vários clubes conceituados atrás do seu passe. Quem ganhou a corrida foi o Paris Saint-Germain, com o jogador, então com 25 anos, a mudar-se do Porto para a capital gaulesa. Mas a aventura não correu como esperado. "Tinha vários clubes interessados, fizemos uma Liga dos Campeões fantástica. Inter Milão, Milan, Deportivo, Marselha, Bordéus... Optei pelo Paris Saint-Germain, que o meu empresário disse que era a melhor opção. Era o clube que me dava mais garantias, estava lá o Ricardo Gomes, antigo jogador do Benfica. Mas a língua foi um entrave, não persisti em aprender o francês, o que foi um erro. Optei por voltar para Portugal", frisou.

O brasileiro nos tempos do Sporting (António Cotrim/Lusa)

E foi mesmo isso que aconteceu. Depois de 17 jogos e zero golos em seis meses no Paris Saint-Germain, Edmílson foi contratado pelo Sporting no mercado de inverno de 1997/98. Foi o segundo 'grande' do futebol português que representou, mas a situação encontrada em Alvalade não foi a mais simpática. "O Sporting estava a viver um momento de instabilidade, vários treinadores tinham passado e quando cheguei o clube estava com vários problemas", começou por dizer Edmílson, que realizou onze jogos até ao final da época e marcou três golos. Em 1998/99 adaptou-se melhor à equipa e faturou dez vezes em 26 partidas, mas foi em 1999/00 que Edmílson chegou ao ponto alto da experiência de verde e branco: 18 anos depois, o Sporting voltou a conquistar o campeonato. "Começámos a época com o [Giuseppe] Materazzi, que acabou por não ficar, e entrou o [Augusto] Inácio. A nossa equipa era fantástica: Schmeichel, André Cruz, Barbosa... O Inácio conseguiu juntar todos os jogadores, formar um balneário e ser campeão. O Sporting esteve bem ao longo do campeonato e quando assumimos a liderança nunca mais a perdemos. O ano foi memorável, apesar da lesão, mas contribui para o título. Fica gravado na nossa memória e na história do clube", frisou.

Demasiado simpático, Edmílson Pimenta foi politicamente correto quando lhe perguntámos qual foi o clube em que ser campeão foi mais marcante. "O 'bi' e o 'tri' foram fantásticos por estarem ligados ao 'penta', mas ser campeão após 18 anos foi fantástico. Tem o mesmo peso."

Edmílson (ao centro, com os calções número 10) nos tempos do Portimonense (Estela Silva/Lusa)

Saiu do Sporting em 2001 para, segundo o próprio, "cumprir o sonho de jogar no Brasileirão porque nunca tinha jogado". Assim sendo, assinou pelo Palmeiras, mas a aventura não durou muito. "Quando fui para o Palmeiras já tinha 31 ou 32 anos. Tinha uma meta de acabar a minha carreira aos 32 anos. Acabei por esticar e joguei no Portimonense. Pena que o Portimonense não estava bem, mas voltei de seguida ao Brasil e ainda joguei na Noruega e na Bélgica." Edmílson representou o Portimonense na Segunda Liga, o Lyn na Noruega, o RSC Visé na Bélgica e ainda regressou a Portugal para uma 'perninha' no ADCRS Guilhabreu. Mas ainda houve mais um emblema que viu Edmílson jogar de forma competitiva: o Espírito Santo Sociedade Esportiva, clube fundado pelo próprio jogador."Foi um clube que fundei quando estava no Paris Saint-Germain, nos anos 90. Sempre quis ter um clube de futebol. Ainda tenho o clube no Brasil, de momento está parado. Ainda pretendo, talvez, voltar ao Brasil para disputar outro campeonato."

Edmílson chegou a jogar no clube já vários anos depois de terminar a carreira. "Ainda me sentia com força e o treinador pediu-me. Lembro-me que houve um penálti e o treinador disse que o presidente é que os marcava", contou-nos, bem disposto. Hoje, é agente e representante de alguns jogadores no Brasil e notícias recentes apontavam para que Edmílson passasse a ter um cargo diretivo no Nazarenos a partir de 2018/19. Contudo, confrontado com esse tema, Edmílson admitiu que não sabe "se o projeto vai avançar". O que vai na cabeça do antigo jogador é escrever um livro. "São várias situações que temos que gostaria de por no papel, várias memórias minhas. Quero fazer uma coisa diferente do que existe, uma coisa agradável de se ler", explicou-nos. Com uma carreira tão recheada, muito ainda há para contar. Cá estaremos à espera.

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