Prolongamento
O campeonato das consolas já chegou e veio para ficar (e crescer)
2018-02-21 21:30:00
A Federação Portuguesa de Futebol e a Liga já começaram a investir nos eSports, que ganham cada vez mais adeptos

Alguma vez se virou para um amigo, em tom de brincadeira, e disse que o clube do qual ele é adepto só ganhava na PlayStation? Se sim, vai ter de parar com essa provocação o quanto antes. Tudo porque os clubes portugueses estão a apostar cada vez mais no futebol virtual - já são vários os emblemas da Primeira Liga com uma secção de eSports - até a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) tem um departamento virado para os desportos eletrónicos. Goste-se ou não, há uma certeza: os jogos de futebol nas consolas entre clubes conhecidos dos adeptos vieram para ficar e o caminho, agora, só pode ser para cima.

Um dos primeiros clubes a entrar neste mundo foi o Sporting, que, até ao momento, é o único dos três grandes com a modalidade. Os leões aderiram aos eSports em 2016 e foram um dos primeiros clubes desportivos com nome a seguir por este caminho em Portugal, tendo anunciado a nova modalidade numa apresentação que contou com a presença de Bruno de Carvalho, presidente do clube, e Vicente Moura, vice-presidente na altura. Pedro Silveira, coordenador da secção de eSports do Sporting, contou-nos como tudo aconteceu. “Houve algumas pessoas que falaram com o clube sobre a possibilidade de o clube ser um dos primeiros do mundo a ter eSports. O Sporting, sendo um clube pioneiro nas modalidades, acabou por achar interessante, começou-se a falar sobre isto e acabou por se avançar com a secção que temos hoje. A receção do clube foi interessante, com uma mentalidade inovadora. O Sporting, normalmente, tem este cariz de ter muitas modalidades no seu ADN e achou que podia ser uma coisa muito interessante”, começou por dizer o dirigente verde e branco ao Bancada.

O Sporting, no videojogo FIFA, tem jogadores individuais, que defrontam os adversários no habitual modo 'um contra um', mas também está presentes em competições de Pro Clubs, um modo em que estão onze jogadores em cada equipa - cada um a controlar um jogador dentro do ecrã. Contudo, há dificuldades. Apesar de se tratar do Sporting, um dos três maiores clubes desportivos do país, o facto de ser uma secção autónoma obriga os eSports leoninos a dependerem de patrocinadores para garantir a sustentabilidade e continuar a crescer. A reação dos adeptos, essa, tem sido boa, principalmente entre os mais jovens, garantiu Pedro Silveira. “Os adeptos mais jovens conhecem perfeitamente esta realidade. Aqueles que já têm alguma idade começam a perceber, aos poucos, que isto existe e que também é uma modalidade de competição. Por isso, a receção tem sido boa e temos recebido um bom feedback. Há muita gente nas novas gerações que acompanham o futebol que também acompanha os eSports.”

Uma das principais figuras dos eSports do Sporting é Gonçalo 'RastaArtur' Pinto, de apenas 18 anos. “Comecei a jogar FIFA em 2005 ou 2006, mas quando me apercebi [que era melhor que o normal] foi em 2015, quando ganhei o primeiro torneio e me comecei a aplicar mais e a conhecer melhor o mundo do FIFA participando em mais torneios”, contou Gonçalo Pinto ao Bancada. Em julho de 2017, o atleta saltou para a ribalta quando venceu o Allianz Challenge, um torneio organizado pela FPF, e arrecadou 10.000 euros como prémio, assim como uma viagem à Dinamarca para um jogo de FIFA com Agge Rosenmeier, um dos melhores jogadores do planeta. Esse momento, diz, foi determinante por tudo o que significou, inclusive o ingresso no Sporting, o seu clube do coração.

“Sabia que tinha capacidade, fosse cá ou lá fora, para conseguir um bom lugar em algum torneio porque tinha treinado muito para isso. Mas não esperava que existisse um torneio de 10.000 euros em Portugal. Com a entrada da Federação, tivemos. E foi um momento delicioso [risos]”, admitiu, continuando. “Depois de ter vencido o torneio, o Sporting fez-me uma proposta e eu decidi aceitar porque sou do Sporting, sócio do Sporting e poder representar o Sporting é sempre muito bom.”

Não sendo profissional a 100% (“talvez ainda este ano...”, disse), Gonçalo Pinto mostrou-se muito feliz pela aposta da FPF e de vários clubes nos eSports e, principalmente, no FIFA. Tais movimentações fizeram com que, finalmente, existissem torneios com prémios monetários em Portugal e o jogador do Sporting deixou ainda um apelo a Benfica e FC Porto. “É excelente. Era o que o FIFA precisava. Até então, não tínhamos torneios a dinheiro em Portugal no FIFA. Com a entrada da FPF, tudo se tornou muito mais profissional e vieram os clubes. Faltam os outros dois grandes, para puxarem uns pelos outros e tornarem o FIFA num jogo muito profissional em Portugal”, frisou.

Gonçalo 'RastaArtur' Pinto (à esquerda) ganhou 10.000 euros num torneio organizado pela FPF (foto: FPF)

Entre os clubes com algum peso que já aderiram ao mundo virtual encontram-se emblemas como UD Leiria, Beira-Mar, CD Santa Clara, Feirense, Vitória de Setúbal, FC Alverca, FC Paços de Ferreira, Varzim SC, Real SC, Estoril Praia, Rio Ave, Académica ou SC Braga. Outro é o CD Tondela, que falou com o Bancada e explicou que a intenção de entrar no mundo dos desportos eletrónicos não é nova, mas que era preciso o clube ter as condições necessárias para avançar com o projeto, o que aconteceu mesmo em novembro passado. A entrada da FPF em cena motivou esse passo.

“Já tínhamos o projeto há cerca de quatro anos. É uma ideia que vinha a ser maturada há algum tempo e decidimos avançar, sobretudo, pela adesão que a FPF fez ao jogo do FIFA, que faz todo o sentido dentro do nosso enquadramento. Há quatro anos, tivemos a oportunidade de entrar nos eSports com uma equipa de CS:GO [Counter-Strike: Global Offensive], curiosamente com o melhor jogador português da atualidade, o ‘Fox’ [Ricardo Pacheco], mas o CD Tondela estava na Segunda Liga e não havia condições para uma aposta séria, porque não entrámos nos eSports apenas por entrar. O projeto surgiu um bocado nesse sentido: a partir do momento em que a FPF abre estas competições de Pro Clubs, entendemos que era o momento adequado”, referiu Vítor Ramos, que acumula as funções de diretor de comunicação do CD Tondela e coordenador da secção de eSports, ao Bancada.

O modo Pro Clubs, onde jogam onze jogadores contra onze adversários em tempo real, foi um dos 'ingredientes secretos' para chamar a atenção dos adeptos. Vítor Ramos garantiu que as pessoas não estavam acostumadas a ver, acompanhar e jogar partidas neste modo de jogo. “Gerou alguma curiosidade. Estamos a falar de um modo de jogo que envolve onze jogadores na consola que podem estar a jogar em onze pontos diferentes do planeta. Normalmente joga-se um contra um e não é um modo de jogo a que as pessoas estejam habituadas.”

O caso do Boavista, outro dos clubes da Primeira Liga que também está presente nas provas de FIFA organizadas pela FPF desde que anunciou oficialmente a entrada nos eSports em junho de 2017, foi algo diferente. “O Boavista recebeu, durante algum tempo, contactos de adeptos, equipas e jogadores a perguntarem se havia algum projeto e, dentro do clube, eu liderei um grupo de trabalho que esteve a analisar se o clube devia ou não criar a modalidade eSports. Fizemos um estudo interno para avaliar as vantagens e as desvantagens e chegámos à conclusão que devíamos fazer essa aposta”, explicou Reinaldo Ferreira, diretor da modalidade no clube portuense, ao Bancada.

Ainda assim, Reinaldo Ferreira assume que os eSports, em Portugal, ainda estão longe da maioria das outras modalidades e apontou várias razões para que seja desta forma. Por isso mesmo, valorizou a aposta do Boavista numa fase em que os desportos eletrónicos, ainda não estão muito desenvolvidos no nosso país. “Ainda não é uma modalidade. Há várias características que fazem com que ainda não seja: as competições são irregulares, os atletas são pouco disciplinados… Há muitos ruídos à volta desta prática para a poder considerar uma modalidade e o clube deve colocar uma questão muito simples que é ‘quero começar de início numa altura difícil e ajudar a construir ou devo ficar sentado à espera que a coisa estabilize e, nessa altura, decido entrar?’. No nosso caso, decidimos que queríamos ajudar a construir e ser pioneiros”, assegurou.

Para o Boavista, o maior desafio na fase inicial - e que, de certa forma, ainda se mantém - passa por tentar perceber onde é que há menos amadorismo nos eSports portugueses. Reinaldo Ferreira fez ainda uma comparação curiosa e deixou uma recomendação para as entidades organizativas das provas de FIFA em Portugal: a Liga Portuguesa de League of Legends tem tudo para ser um exemplo. “Basta que uma equipa que se organize, junte onze amigos e se coloque online para ver se alguém está disponível. Isto não é competição. Isto é o que acontecia no recreio da escola, quando alguém pegava na bola e perguntava aos amigos se queriam jogar. (…) O maior desafio foi tentar perceber, nas diferentes variantes, onde é que já há o mínimo de estrutura e que fosse um pouco mais do que uns amigos a jogar online. Pareceu-nos que o cenário de onze contra onze em Portugal já estava com alguma relevância com a LP FIFA [Liga Portuguesa de FIFA, criada em 2011], e começámos a competir nas competições da LP FIFA já com a ideia que a LP FIFA acabaria por dar origem à secção de eSports da FPF. Fomos um dos clubes que apoiou, desde cedo, esse upgrade. A título comparativo, a organização da Liga Portuguesa de League of Legends deve ser, no mínimo, uma referência para a categoria FIFA porque está mais avançada em várias coisas.”

Já Vítor Ramos, do CD Tondela, explicou que a falta de profissionalização dificulta bastante, mas isso não impede um regime de treinos semanal para o plantel de 21 elementos. “Estamos a falar de uma estrutura que não é profissional, que não vive inteiramente dos eSports, e de pessoas maiores de idade, entre os 19 e os 30 e qualquer coisa, que estão espalhadas um pouco por todo o lado. Temos pessoas nos Açores, em Lisboa, em Viana do Castelo, no Porto, agora temos um jogador em Viseu, Coimbra e até em Bordéus, em França. É muito difícil reunir a equipa. Isto ainda é um hobby, ainda que exista um plano de treinos de domingo a quinta-feira. Nestes dias, eles treinam à noite, mas não é fácil gerir uma estrutura à distância”, disse.


Já há provas organizadas pela FPF com bastante público a assistir ao vivo

E o futuro? O futuro só pode ser um: crescer

Questionados para fazer um balanço dos resultados dos atletas e equipas desde o momento da abertura da secção até hoje, os três responsáveis dos eSports dos três clubes com que o Bancada falou desvalorizaram as vitórias, os empates e as derrotas e asseguraram que, nesta fase, o mais importante é mesmo crescer dentro da modalidade e fazer crescer a modalidade. “De um ponto de vista desportivo, não estamos muito preocupados com os resultados. Acima de tudo, temos de estar preocupados com uma coisa que é experiência. Temos participado em todas as competições que consideramos relevantes e em todas essas participações houve aprendizagem”, explicou Reinaldo Ferreira, com quem Vítor Ramos partilha a opinião, fazendo o mesmo que 'RastaArtur' e desafiando Benfica e FC Porto para entrar nos eSports. “Os resultados, nesta fase, não estão acima de tudo. Aquilo que nos move é a valorização dos eSports e passar uma imagem credível da modalidade para que os outros clubes apostem nela. Ainda falta aqui um segmento largo de clubes apostar nesta modalidade, sobretudo aqueles que são mais mediáticos. Apenas o Sporting está envolvido, mas era importante que os outros dois também estivessem.”

A meta do CD Tondela é “profissionalizar a equipa o quanto antes, daqui a um ou dois anos”, e conseguir participar em provas com clubes estrangeiros. Mas só se o torneio tiver os 'mínimos olímpicos'. “O caminho é começar devagarinho e construir bases para conseguir chegar às provas internacionais se elas forem… Esse também é um dos problemas dos eSports e, nomeadamente, do FIFA: há muitas competições que são organizadas de forma muito amadora. Nós só queremos participar em competições que tenham profissionalismo. Não temos profissionais nesta área ou viver disto, mas temos de ter o mínimo de organização e há competições internacionais que vivem à base do amadorismo.”

Num futuro próximo, vamos ver uma Primeira Liga de FIFA. A intenção do organismo que gere o mais alto escalão do futebol português é ter todas as equipas do campeonato envolvidas. “Eles [Liga] pretendem, na próxima época ou, na pior das hipóteses, daqui a dois anos, organizar um campeonato que envolva todas as equipas, ou seja, aquilo que é o campeonato real ser jogado na consola. Na Alemanha isso já acontece, em jogos de um contra um com jogadores de ambas as equipas”, explicou Vítor Ramos, enquanto Reinaldo Ferreira revelou um sonho. “A minha ambição é que, um dia, os adeptos dos vários clubes possam assistir porque são adeptos de eSports e vejam a equipa de eSports como podiam ir ver a equipa de futebol, futsal, hóquei-em-patins ou outra modalidade qualquer. (…) Precisamos de comunicação, não temos visibilidade. Quanto começarmos a ter muitos milhares de espetadores, começamos a ter algum interesse”, admitiu.

O caso do Sporting é diferente do de CD Tondela e Boavista. Com mais nome, meios e dimensão que os restantes, os leões já participaram em vários torneios internacionais e o objetivo é continuar nesse registo para ter mais episódios marcantes na história dos eSports a nível mundial como aquele que aconteceu em julho de 2016, quando os leões foram anfritriões do primeiro jogo de sempre de eSports num estádio entre dois clubes de futebol.


Em 2016, o Sporting tornou-se o primeiro clube do mundo a organizar um jogo de FIFA entre dois jogadores de clubes de futebol

“Os clubes, dentro dos eSports, conhecem-se perfeitamente e sabem que é que já está [dentro da modalidade] e quem não está. Existem ligações entre os organizadores e os diretores da modalidade, por isso nós conhecemos todos e, tal como eles nos fazem os convites para participarmos nos torneios deles, nós também haveremos de fazer convites para eles participarem em torneios nossos. O primeiro clube a fazer uma partida de eSports entre dois clubes de futebol num estádio foi o Sporting Clube de Portugal, que o fez com o VfL Wolfsburgo. Convidámos um jogador do VfL Wolfsburgo para jogar connosco, por isso foi um Sporting-VfL Wolfsburgo, em FIFA, no Estádio José Alvalade”, frisou Pedro Silveira, líder dos eSports leoninos que anunciou ainda que o clube de Alvalade vai "organizar algumas coisas" no futuro.

Já Gonçalo Pinto, a nível individual, não nega que aquilo a que se propõe é “tentar vencer o máximo de competições possíveis pelo Sporting nos torneios internacionais e, depois, é continuar a vencer o máximo de torneios em Portugal”, assim como “conseguir estar presente no Campeonato do Mundo”. Pedimos ao jovem atleta de FIFA que nos fizesse uma previsão do futuro do videojogo em Portugal. O desejo foi tudo menos pouco exigente. “Espero que se torne no principal jogo nos eSports em Portugal”, concluiu 'RastaArtur'.

Nota: o Bancada tentou entrar em contacto com a secção de eSports da FPF, mas não conseguiu obter resposta.