Prolongamento
No futebol todos são iguais, mas uns são mais iguais que outros
2018-01-23 20:00:00
Enquanto fenómeno de massas, o futebol é um importante veículo de promoção de valores sociais pouco explorado.

Albert Camus e George Orwell não foram apenas dois dos escritores contemporâneos mais importantes da humanidade. Entre si partilhavam um gosto especial. Talvez mais Camus que Orwell. O gosto pelo futebol. Camus que chegou mesmo a ser guarda redes e disse, um dia, que tudo aquilo que conhecia acerca de moralidade e obrigações enquanto homem o devia ao futebol. Foi Orwell, porém, que mais perto ficou de definir o futebol. Mais do que um jogo ou evento desportivo, e ao contrário da visão romântica de Camus, antevendo um ambiente tóxico em sua volta. “O futebol em nada está relacionado com o jogo limpo. Está repleto de ódio, inveja, vaidade, de um total desrespeito pelas regras do mesmo e de um prazer sádico em assistir a violência: em outras palavras, é como a guerra fora os tiroteios”.

Como fenómeno de massas, o futebol tem um dever social, mas, como nos desabafa António Serzedelo, presidente da Opus Gay, pouco tem sido feito a esse respeito. Sindicato dos Jogadores e Liga, porém, asseguram-nos que faz parte do ADN das instituições lutar pela igualdade e várias ações têm sido feitas a esse respeito. Paulo Côrte-Real, ex presidente da ILGA, está confiante que os tempos de aceitação e tolerância total se começam a aproximar.

“O desporto, salvo em pequenos locais onde é educativo, o grande desporto, nas grandes cidades, é profundamente deseducativo”. Mais do que o mundo do futebol, o problema é social e ao longo dos anos que leva como presidente da Opus Gay ou como militante da defesa da igualdade social, em que espetro seja, nunca António Serzedelo foi contactado pelas instituições que gerem o futebol português para, em ações conjuntas, promover ações e mensagens relacionadas com a igualdade e promoção de valores sociais. Algo que, diz-nos, até sob alguma surpresa, mais rapidamente aconteceu no rugby.

Ao Bancada, António Serzedelo apelou a uma mudança no que considera ser um ambiente de “profunda violência verbal e física, repleto de bullying”. “As pessoas tornaram o desporto profundamente capitalista e como ele é profundamente capitalista, traz com ele a violência capitalista e a ausência dos valores”, acrescentou António Serzedelo bem ao jeito de George Orwell. “É uma luta que tem de se travar. Não é uma luta que se trava de um dia para o outro e fica arrumada”, advertiu ainda. “Estas lutas de mudança têm de ser quotidianas, diárias, não podem acontecer uma vez e depois durante um ano ficar-se calado”.

Ao Bancada, ainda assim, tanto Joaquim Evangelista, presidente do SJPF, como António Barroso, diretor de comunicação da Liga Portuguesa, asseguram que as instituições têm promovido diversas ações relacionadas com a inclusão social ao longo dos últimos anos, muitas delas, distinguidas internacionalmente como a Agência Europeia dos Direitos Humanos. Ações que, ambos, convidam a conhecer nos portais online das respetivas instituições. “São ações que obedecem a uma estratégia de responsabilidade social bem implementada e estudada pela Liga, não são ações desgarradas. Só aqui na Final Four da Taça Liga estão a ser executadas várias ações nesse sentido, a Corrida do Adepto, apoio a instituições da zona de Braga… Temos um plano anual de responsabilidade social”, assegura-nos António Barroso.

“Se um jogador como o Ronaldo ou o Messi enviassem mensagens relacionadas com a igualdade começavam a existir mudanças de mentalidade”

“Nós em particular temos uma área do sindicato relacionada com a comunidade, a relação com a comunidade, e dentro dessa área incluímos a responsabilidade social. Nós entendemos que o desporto tem esse valor maior. Tem a obrigação de, atendendo à sua dimensão, de interagir não só com os adeptos, mas sobretudo com a comunidade local e o jogador tem esse papel. Nesse sentido promovemos várias ações. Fizemos a “Semana contra o Racismo e a Violência no Desporto” já desde 2004, temos agora um projeto transnacional que visa ajudar a integrar minorias no desporto, temos a questão da igualdade do género através do futebol feminino. Temos uma ação que acabou de terminar em que nós depositávamos 50€ numa conta por cada golo marcado na primeira liga, conseguimos angariar mais de cinco mil euros…”, descreve-nos Joaquim Evangelista. “Faz parte do nosso ADN interagir com a comunidade e colocar o jogador ao serviço da comunidade”, acrescenta.

As ações de promoção realizadas em Portugal relacionadas com a promoção de valores sociais e de luta contra a discriminação acompanham o que também vai sendo feito noutros desportos, ainda que nenhum tenha o impacto mediático que o futebol consegue alcançar. E, também por isso, para os responsáveis pelas associações de defesa da igualdade social é preciso fazer-se mais e aproveitar melhor esse mesmo impacto mediático. “O rugby já fez campanhas pela igualdade de género e pela diversidade”, diz-nos António Serzedelo. “Se um jogador como o Ronaldo ou o Messi enviassem mensagens relacionadas com a igualdade começavam a existir mudanças de mentalidade”. Como fenómeno de massas, o futebol tem um dever social do qual não deve ser dissociado. Cientes deste mesmo dever, organizações como a Premier League ou clubes a título individual espalhados pela Europa, como o Rayo Vallecano, por exemplo, têm encetado ao longo dos últimos anos campanhas de apelo à igualdade e tolerância sociais. Seja ela racial, religiosa, de género ou sexual. Não faltam ocasiões em que os capitães das equipas da Premier League entram em campo com braçadeiras ilustradas com as cores da bandeira LGBT, algo que, apesar de tudo, ainda não sucedeu em Portugal.

“Pouquíssimo tem sido feito nesse sentido. Discursos pedagógicos no futebol deviam partir das próprias instituições. As instituições deviam elas próprias concertarem-se, identificarem onde está situada a violência, e depois, então, lançar mensagens ou promover ações de promoção social”, apela ao Bancada António Serzedelo que entende que o problema do futebol português vai além da discriminação sexual. O ambiente, até entre semelhantes, “é de uma violência terrível”. O líder da Opus Gay aproveita para deixar uma questão: A nível autárquico, nomeadamente em Lisboa, o que tem sido feito para implementar a pedagogia no desporto?

“Da parte do Sindicato estamos preparados para atuar nessas situações e apoiar os jogadores se for caso disso”

Mas, Paulo Côrte-Real, antigo presidente da ILGA e professor na Universidade Nova de Lisboa, adverte: “não basta entrar em campo com atacadores ou braçadeiras coloridas, é preciso fazer-se muito mais”. “É evidente que isso é útil, que tem impacto. Em 2010, aquando da confirmação da possibilidade do casamento entre pessoas do mesmo sexo houve um comentário de apoio do Cristiano Ronaldo e isso obviamente tem impacto. Tem repercussões. São pessoas que chegam a muita gente e que ajudam a fazer opinião e a alterar mentalidades”, acrescentou ao Bancada. “Com poder, vem associada responsabilidade. Se o poder existe, com consciência dos problemas sociais, alertar para eles e tentar combate-los. Tentar encontrar soluções. Faz todo o sentido que quem tem essa hipótese de gerar mudança de forma mais impactante que o faça. É uma questão de responsabilidade”. “Era importante que num desporto de massas isso acontecesse. Era importante que também houvesse maior visibilidade do desporto feminino. Essa é outra questão de fundo. Não se resolve uma questão sem resolver a outra”, salienta, acrescentando que, em alguns casos, se deva mesmo questionar a lógica da separação de géneros em determinados desportos.

Neste sentido, António Serzedelo diz-nos que já começam, ainda assim, a surgir algumas competições e organizações destinadas a equipas e desportos LGBT, cuja constituição das equipas é mista. “Dez ou doze jogadores e todos sabem cinco, seis ou sete, são gays ou lésbicas e os outros não”, assegura.

Habitualmente associado a um ambiente machista e, por vezes, algo homofóbico, como o próprio António Serzedelo avalia, há quem não trace um perfil tão negro ao atual estado do futebol em Portugal. Lutas que serão mais clubísticas que sociais. Em Portugal, “país de valores e bons costumes” como nos diz Joaquim Evangelista, o futebol acompanha a abertura que a própria sociedade vai mostrando no que aos temas sociais fraturantes diz respeito. António Serzedelo não está tão convencido disso, ainda assim. O presidente do SJPF garante-nos que, os casos de queixas de jogadores relacionadas com discriminação, está longe de ser recorrente e é meramente pontual.

“A sociedade portuguesa está muito mais tolerante, não é só o futebol. Nós ao nível da igualdade de género, é notório que o futebol feminino por exemplo está a ter enorme aceitação e a granjear de grande simpatia por parte dos adeptos e da sociedade desportiva. É um sinal cultural. O país tem de ser visto no seu todo e as leis, tendo sido alteradas nesse sentido, ajudaram a uma atualização de mentalidades. Desse ponto de vista somos um país tolerante. Não confundir com a violência no desporto, aí sim há maior agressividade”. “Há um clima mais favorável, o que não significa que não existam casos. Não são é do conhecimento público. Não é fácil abordá-los. Do ponto de vista social há um clima respirável. Somos um dos países europeus que lida melhor com essas questões, já não somos tão conservadores, tão fechados”, avalia ao Bancada Joaquim Evangelista. “Da parte do Sindicato estamos preparados para atuar nessas situações e apoiar os jogadores se for caso disso”, assegura-nos.

“Em termos percentuais há uma forte probabilidade de existirem muitos jogadores gay”

O futebol continua sem conhecer um primeiro ícone, ou jogador de elite, assumidamente gay. O mais perto de algo semelhante terá sido Thomas Hitzlsperger quando o antigo internacional alemão, com passagem por clubes da Bundesliga, Premier League e Serie A, já depois de se ter retirado, assumiu a sua orientação sexual. Algo que, para Paulo Côrte-Real, não deixa de ser preocupante e um sinal da homofobia que ainda existe no futebol. “O maior sinal de homofobia é o facto de as pessoas não se sentirem confortáveis para poderem assumir-se enquanto gay. Em termos percentuais há uma forte probabilidade de existirem muitos jogadores gay”, assegura-nos. “No futebol, os poucos jogadores que se assumiram como gays tiveram um fim desastroso. Alguns suicidaram-se mesmo, não aguentaram a pressão. Outros tiveram de se reformar. Tiveram de abandonar um desporto que lhes enchia a alma e pelo qual se sentiam realizados. Qualquer jogador, como qualquer cantor, como qualquer pessoa que tenha uma performance publica, o melhor que lhe pode acontecer é ter o reconhecimento público”, desabafa António Serzedelo.

“No desporto português, e no futebol em geral, ainda não há espaço para a sexualidade que não seja a normativa. Ainda há muito primarismo: homem e mulher”. António Serzedelo vê o futebol atual e todo o ambiente que o envolve um mundo à parte da sociedade atual. “Faz-se o aparato do machismo que já não se comporta com as mudanças que a nossa sociedade está a ter, inclusivamente em Portugal. É provinciano, já”, desabafa.

“Evidentemente não é exclusivo do futebol, ainda assim, continua a existir alguns episódios onde existem insultos homofóbicos durante os jogos. Há claramente um problema que é social, mas não é exclusivo do futebol. O que o futebol também tem, é que o fenómeno de massas é o futebol masculino e não o feminino, o que também denota um problema social. Ambientes masculinizados potenciam a homofobia, mas isso não é exclusivo do futebol. Há outros ambientes igualmente ou mais hostis”, diz-nos ainda Paulo Côrte-Real. Situação que deve ser trabalhada e, naturalmente, não ignorada. “Havendo essa percepção deve haver um trabalho destinado a contrariar esse preconceito vigente e convidar a uma lógica diferente. Têm existido iniciativas noutros países que devem ser replicadas em Portugal. Em Portugal continua a não ser um trabalho muito visível, mas começa a ser destacado pelas instituições públicas”.

Ao contrário de António Serzedelo, Paulo Côrte-Real acredita que neste momento se vive um ambiente de abertura e compreensão que poderia permitir a um jogador, assumindo-se como gay, continuar a sua carreira de forma moderadamente tranquila. “Há vinte anos atrás diria que não, que sem dúvida seria um problema, houve casos de boatos que só isso foi suficiente, mas neste momento estamos numa fase diferente. Apesar de tudo já alcançamos um patamar de igualdade perante a lei e isso fez com que existisse maior visibilidade. As mentalidades não se mudam de um dia para o outro, mas apesar de tudo têm existido impulsos fortes nesse sentido. Temos tido pequenos grandes passos que mostram que estamos a avançar para um maior à vontade para a afirmação sexual”. “Neste momento já me parece que seria possível. Evidente que com algumas reações menos pacificas”. “Há um grande benefício público se tal acontecer. Muita gente pode passar a ter um exemplo, um modelo, pessoas que continuam a sentir-se isoladas. O futebol tem esse peso, é um campo importante, era fundamental que existisse maior visibilidade e este é o momento certo para isso”.

No futebol somos todos iguais, mas uns são mais iguais que outros

António Serzedelo dá o mote: “Há vários planos em que se tem de atuar. Desde logo, o discurso dos líderes desportivos em Portugal tem de ser modificado. Os líderes têm de modificar o discurso de modo a que ele se torne mais inclusivo. As próprias federações e organizações deviam preparar mensagens para passar exemplos modelo relacionados com a igualdade. Seja perante a mulher, violência doméstica, religiosa, étnica… Mensagens que apelem à tolerância. Tolerância pela igualdade”.

“As grandes ligas e competições são ocasiões para fazer passar, com uma frase bem construída, uma mensagem que é lida por milhões de pessoas. Alguma coisa fica”, diz-nos ainda. “O futebol é um veículo fulcral. É um grande mobilizador de massas, tal qual um cantor de música pop. E isto passa pelas televisões, passa pelos jornais, passa por blogs”. Uma preocupação que deve ser, não só profissional, como autárquica ao nível do desporto amador. “Tem de haver uma estratégia, uma planificação para a coisa resultar, não pode ser só um fogacho”, alerta António Serzedelo.

António Serzedelo defende, ainda assim, que a luta pela igualdade e direitos sociais, via futebol, deve ser bem pensada. “Não pode ser tudo tratado ao mesmo tempo senão as pessoas também não conseguem assimilar. Tem de ser tudo feito paulatinamente, daí a necessidade da estratégia. Mas há duas áreas de intervenção prioritária: a violência contra a mulher e a violência de género; outra são mensagens relativas à igualdade social, seja em que plano seja”. “As instituições têm de se juntar, ser aconselhadas por psicólogos sociais e linguistas para que percebam como as mensagens de massa podem ser assimiladas de forma inequívoca pelo público alvo”, defendeu ao Bancada António Serzedelo, ressalvando que até a nível local a intervenção deva ser diferenciada já que um discurso que passa em Lisboa pode não ser assimilado de igual forma em Trás-os-Montes. Lá está, a tal necessidade estratégica”.

“As instituições públicas têm a responsabilidade e o dever social de acompanhar a sociedade no seu melhor e projetá-la para o futuro da melhor maneira”, desabafa. “O desporto tem um grande impacto e é um veículo fulcral para que as boas mensagens possam ser transmitidas”.

Orwell, no início do Séc.XX, definiu o futebol como um cenário pouco positivo e que em muito se assemelhava a uma guerra. Não podia estar mal atual. Não o escreveu, mas podia tê-lo feito, como num qualquer conto da sua autoria: "no futebol somos todos iguais, mas uns mais iguais que outros". Que o digam todas as vítimas de discriminação ligados ao desporto rei. E, isso, urge em ser alterado.

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