Prolongamento
Moncarapachense: o acordar lento do tornado que tudo levou
Gomes Ferreira
2018-03-07 22:00:00
O recinto da equipa da freguesia de Olhão ficou parcialmente destruído e não há dinheiro para pagar os estragos

A tarde do último domingo em Moncarapacho preparava-se para ser mais uma de salutar rivalidade futebolística entre o Moncarapachense e o Moura, partida referente à Série E do Campeonato de Portugal quando o jogo foi interrompido aos 63 minutos, no meio de um cenário de pânico e destruição. Um tornado que varreu o sotavento algarvio durante o dia destruiu parcialmente o recinto da equipa da freguesia de Olhão, que não resistiu à fúria do vendaval e instalou o caos e o terror entre quem estava àquela hora no local.  Os relatos de quem viveu o momento dizem tudo. “Foi um milagre não se ter aleijado ninguém. Aquilo levou tudo pelo ar. Os holofotes foram de vela, o telhado do bar do clube foi destruído, os bancos de suplentes danificados, uma placa de ferro com o nome do clube também voou para dentro de campo, balizas de sete ficaram torcidas…”, relata Tiago Cardoso, o treinador do Moncarapachense que fala de um “miniterrror” aquele que se viveu domingo à tarde em Moncarrapacho, que não durou mais do que três minutos mas deixou um rasto de destruição e prejuízos elevados.

Três dias depois contam-se ainda os estragos, que são muitos e, no meio de promessas, espera-se por ajudas concretas. Os muros circundantes ao campo foram destruídos, as torres de iluminação ficaram danificadas, assim como os bancos de suplentes e os painéis de rede que separam o público do campo. Além disso, seis automóveis e uma motorizada foram atingidos pelo tornado no parque de estacionamento e os respetivos donos reclamam pelos estragos. O clube está a fazer o inventário dos estragos para declarar ao seguro. A Federação Portuguesa de Futebol, através de um telefonema de um secretário daquele organismo, prometeu ajudar logo no próprio dia, mas o presidente do clube Nemésio Martins, em declarações ao Bancada, revela um misto de resignação pelo sucedido e a esperança da concretização das promessas das entidades competentes. “A Federação já ajudou o Silves numa situação igual. Ficamos a aguardar…”. O campo do Moncaparachense é municipal e por isso o clube também está a conversar com a Câmara para saber se poderá receber alguma ajuda. “Disseram-nos que vão colaborar, mas já se sabe que estas coisas levam tempo…Tivemos azar, se o tornado passasse 30 metros distante do campo nada disto estaria a acontecer-nos”.

Até receberam uma resposta concreta às ajudas reclamadas, e pelo menos o susto superado, vão-se contando os danos e sarando feridas na memória. “Foi um momento horrível, um grande susto, pelo qual nunca tínhamos passado. Nunca vi uma coisa igual em toda a minha vida. Felizmente não houve danos pessoais. Mas podia ter acontecido. Estava no banco de suplentes e de repente começou a chover granizo, a caírem pedras de granizo muito grandes. O vento era muito forte e quando vejo o ‘gajo’ enrolado, apercebi-me que algo de grave poderia acontecer”, relata ao Bancada o presidente do Moncarapachense, clube que disputa pela primeira vez na sua história um campeonato nacional.

“Não estávamos à espera disto, é uma situação complicada. Não temos condições para resolver tudo. Vamos esperar para ver o que vai acontecer, mas os problemas são vários”, diz Nemésio, garantindo no entanto que o jogo com o Olhanense, marcado para o próximo fim de semana, em casa, não está em dúvida. “O relvado já foi limpo de todo o entulho que caiu ali, pregos, parafusos, painés… a iluminação ainda não está totalmente refeita, mas dá para treinar à noite e como o jogo é à tarde…, os bancos de suplentes… estamos a arranjar para ver se pelo menos substituímos a cobertura para não chover lá dentro”.

O técnico da equipa da casa, Tiago Raposo, apercebeu-se da tragédia quando avistou o tornado e a sua principal preocupação na altura foi a de avisar o árbitro da partida, Luís Reforço, da AF Setúbal, mas este não valorizou muito, e só quando começou a cair granizo e um vento muito forte é que a situação se agravou, e aí foi o pânico. “Toda a gente começou a refugiar-se, inclusive ele e os restantes elementos da equipa da arbitragem, ora conseguindo ir para os balneários ora abrigando-se primeiro no banco de suplentes. Mas com a força do vento, cada vez maior, tivemos todos de fugir para os balneários, senão morríamos todos ali”, relata Tiago Raposo que conta um episódio dramático. “Um miúdo em pânico refugiou-se por baixo das bancadas e não queria sair dali, tremia de medo. Três jogadores que estavam a passar agarraram-no e levaram-no para dentro do balneário”.

Os momentos de aflição foram também vividos pelo adversário, o Moura, e o seu treinador, Rui Maside, antigo jogador do Vitória de Setúbal, Sporting e SC Braga, conta-nos pelo que passou naqueles minutos que pareciam uma eternidade. “Nunca tinha visto uma situação daquelas. Fiquei eu, o presidente e o meu adjunto no banco. O acrílico saiu com a força do vento e tivemos de sair dali e fugir para o balneário pelo meio de chapas a voar pelo relvado”, conta. “Um jogador meu, o Lucas, rasgou um pouco a mão, mas nada de grave. Felizmente que nada aconteceu de pior. O árbitro, depois, ainda queria reatar a partida, deu os 30 minutos da lei, e cancelou o jogo. Logo a seguir voltou uma carga de chuva e um vento muito forte. Se tivéssemos ali ficado, não sei o que aconteceria”, conta Maside.

O que falta jogar do Moncarapachense-Moura ficou definido para 4 de abril, após um princípio de acordo entre as duas equipas que não se livraram de um grande susto. As preocupações sobraram para o clube de Olhão que tem encargos pela frente que não consegue suportar.

Veja o vídeo de uma adepta do Moura, Maria Catarina Pica, publicado nas redes sociais, sobre os estragos provocados pelo tornado. 

 

 

                               

                                                       O estado em que ficaram os automóveis estacionados junto ao recinto, com a queda do muro (Foto João Conceição/Facebook)

 

                                                                                     Com a força do vento, a vedação ficou neste estado. (Foto Maria Catarina Pica/Facebook)
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