Prolongamento
Maniche, o "maluco" que decidiu fazer da Camacha um clube "de primeira"
António José Oliveira
2017-09-05 20:15:00
Antigo internacional português quer levar a equipa madeirense do terceiro escalão até ao convívio dos maiores

Com um carreira bastante preenchida ao mais alto nível e repleta de conquistas, entre as quais uma Liga dos Campeões, uma Liga Europa e uma Taça Intercontinental, Nuno Ribeiro, mais conhecido no mundo do futebol por Maniche, não enveredou pela caminho tradicional de ser treinador de futebol. Não, nada disso. Aos 39 anos, o antigo centro-campista de FC Porto, Benfica, Sporting, Chelsea, Inter e Atlético de Madrid, entre outros, surpreendeu tudo e todos e decidiu "comprar" um clube de futebol. A Associação Deportiva da Camacha, pertencente à freguesia onde a colónia britânica residente na Madeira organizou o primeiro jogo de futebol em Portugal, corria então o ano de 1875, foi o eleito. Muitos viram a atitude do internacioal português como uma "loucura", um passo arriscado, outros preferiram destacar a audácia.

“Não sou louco, não sou maluco. Pouca gente conhece o verdadeiro Maniche. Andei a preparar-me e não fui assim tão maluco", afirmou ao Bancada, sustentando: "Risco há sempre mas é preciso acreditar. Sempre fui corajoso e sempre acreditei no meu trabalho. Não venho aqui pôr o meu dinheiro - e devo salientar que é um investimento próprio, meu - e vou para o continente viver descansadamente sem ter a noção do que aqui se está a fazer.”

Neste contexto, Maniche está a mudar completamente as rotinas, até porque decidiu viver na Madeira. "Quero estar presente no dia a dia do clube, quero saber aquilo que necessitam de mim, quero estar completamente atualizado. E, por isso, vou viver para a Madeira com muito gosto, até porque nestes últimos tempos tenho tomado conhecimento com uma realidade que me faz sentir em casa. Vim ao continente porque os dois últimos jogos foram no norte do país e nos próximos dias vou então tratar de arranjar casa na Madeira. Os sócios aprovaram a constituição da SAD no último sábado e isso deixou-me muito feliz." 

Reconhecido pelo empenho e determinação que colocava dentro das quatro linhas, Maniche quer transpor para o dirigismo esta faceta. "Quero vencer na Camacha. Não vim para o clube sem conhecer a realidade do local onde quis investir. Tentei saber, tentei entender. Não quero estar na Camacha como um estranho. Pelo contrário. Quero estar como mais uma pessoa da Associação Desportiva da Camacha, mais uma pessoa de Santa Cruz, um daqueles que comigo vão erguer este trabalho."

O factor social e humano também foi tido em conta pelo antigo médio da Seleção Nacional, até porque o campo da Camacha fica situado na Nogueira, imediações de um dos maiores e mais problemáticos bairros sociais da Madeira. Neste cenário, Maniche não deixa de lembrar as suas origens. "Escolhi a Camacha porque acima de tudo falamos a mesma linguagem. Não só de futebol, mas nos princípios de vida, de humildade. Eu construí a minha carreira com muito trabalho, vivi num bairro social também. Sei o que é ter dificuldades, sei o que é ter êxito, sei o que é ter sucesso também. Acima de tudo sei das dificuldades quando queres um brinquedo e não o podes ter ou tens só no Natal com o esforço dos teus pais. Sinto-me um privilegiado por poder estar na Camacha. Sempre tive este sonho e este projeto tinha de ter uma vertente social, no sentido de ajudar as crianças carenciadas e envolvê-las com o clube ”, explicou ao Bancada.

Para Maniche, o importante agora é apostar na Camacha de forma sustentada, sem loucuras. “Estou a conhecer melhor o clube. Se for possível acrescentar qualidade à equipa ainda para este campeonato, não hesitaremos em dar-lhe essa qualidade. Se for possível ambicionar classificação melhor, iremos à  procura. Mas sustentadamente. Quero que seja um projeto para muito tempo, sustentado."

O sonho comanda a vida diz o poeta. Maniche quer crescer de modo sustentado, mas mostra ambição, sublinhando que tem os objetivos bem definidos, que passam, numa perspetiva mais imediata, por "subir à Segunda Liga". "A Camacha quer projeção no futebol em Portugal, quer ser um clube ao nível dos clubes de primeira e eu acho que posso dar-lhe essa projeção", refere, sublinhando: ‘Deus sonha a obra nasce’. Pretendo deixar um marco de mudança no clube através de uma gestão criteriosa com visão estratégica de futuro, para que o clube possa ser projetado deixando todos os camachenses orgulhosos."

O modo de gestão, explica Maniche, vai ser “integral". "Com sustentabilidade financeira com recursos humanos qualificados de modo a poder colocar a equipa na luta pelo futebol profissional e modernizar o complexo desportivo de forma a permitir maior sustentabilidade”.

A maior parte dos jogadores com passado no futebol optam por seguir a carreira de treinador. Maniche optou por um caminho diferente. "Temos de nos conhecer a nós próprios. Muitas vezes não é essa a nossa vocação. Nunca quis ser treinador, nem adjunto, fi-lo apenas por um amigo, pelo Costinha, no Paços de Ferreira e na Académica, mas senti que essa não era a minha vocação e sempre soube o que queria. Por isso, estou feliz com este novo projeto."

A Associação Desportiva da Camacha tem um historial recente. O clube, onde Leonardo Jardim começou como treinador e onde esteve entre as temporadas de 2003/04 e 2007/08, foi fundado em 1978 e tem um percurso em comum com o médico Celso Almeida e Silva. Um médico um pouco diferente, que tem dedicado grande parte da sua vida ao futebol e, em particular, à Camacha. "Sou médico de formação, e tinha um consultório junto ao clube que se formou em 1978, pois o Camacha é resultado da fusão de vários clubes. E, 39 anos depois, cá continuo, agora como presidente e depois de já ter sido vice-presidente."

O líder do clube insular explica como surgiu a envolvência de Maniche com os madeirenses. "O projeto do Nuno Ribeiro tem equivalência e identificação com a forma como o clube foi projetado, quer em termos financeiros, quer desportivos", afirma, ressalvando a importância de Maniche "ser uma personalidade FIFA e de grande projeção interna, com feitos mediáticos no desporto." "Vai colocar na sua gestão a mesma que o consagrou como jogador", acrescenta, com entusiasmo.

Celso Almeida não escondeu a satisfação pela opção por um futuro que recai agora numa pessoa "credível, com boas intenções". E espera que essa parceira dure por muitos e bons anos. A propósito, refere: "Maniche está a contar que seja pelo menos uns 10 anos."

A Camacha milita na Série B do Campeonato de Portugal e ocupa nesta altura o sétimo lugar, com menos um ponto do que os líderes Amarante, Freamunde, Aliança de Gandra, FC Felgueiras e Cinfães. A equipa madeirense venceu a Sanjoanense por 2-1 na jornada inaugural com golos de João Pedro e do veterano Miguel Fidalgo, tendo acabado goleada na segunda ronda diante do Amarante por 4-0. Desta série, fazem parte históricos como o SC Espinho e o Salgueiros, precisamente o próximo adversário da Associação Desportiva da Camacha.

 

 

 

 

 

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