Prolongamento
Jorge Franco: O fã número 1 da Seleção, que até já criou um hotel
Eduardo Botelho
2017-11-10 18:30:00
Foi de autocaravana à África do Sul, de bicicleta à Polónia, foi atropelado no Brasil e é dono do Hotel A Seleção.

“Aqui somos campeões da Europa”, lê-se na entrada do Hotel A Seleção, em Setúbal, mas não pense que se tratou de um oportunismo em relação ao recente sucesso da equipa portuguesa. O Hotel foi aberto de forma quase premonitória e, talvez, abençoada, a 13 de maio de 2016, quando poucos acreditavam nas hipóteses de Portugal no Europeu. Por trás do projeto, está o fã número 1 da Seleção, Jorge Franco, o cromo número 208 da caderneta do Euro 2012 da Panini e talvez um dos mais difíceis de encontrar repetidos, de tantas aventuras que já colou na caderneta da vida.

Foi capa de jornal ao invadir o campo para abraçar Cristiano Ronaldo, no Dragão; foi de autocaravana até à África do Sul para apoiar a Seleção no Mundial 2010; foi sozinho de bicicleta até à Polónia para ver o Euro 2012; foi atropelado no Mundial do Brasil em 2014.  Anda sempre equipado a rigor, vestindo a Seleção da cabeça aos pés, com os fatos feitos pelo seu amigo Carlos Brum, outro adepto indefetível da Seleção e que, juntamente com Joaquim Batista, completa o trio de adeptos mais famoso de Portugal.

O gosto pela Seleção, da bancada até à relva

Não se chega a fã número 1 da Seleção de um dia para o outro. A ligação de Jorge Franco à equipa portuguesa data já de há muito tempo, desde um jogo de Portugal que viu no Estádio da Luz, em 1991. Aí, viu um anúncio para ir a assistir ao jogo seguinte em Milão e decidiu ir também. A viagem, feita com elementos da Juve Leo e dos Super Dragões, que foram juntos, “foi uma coisa assustadora”, mas ainda assim Jorge começou a ganhar o “gosto da seleção”. Quando Portugal se qualificou para o Euro 96, Jorge e dois amigos foram a Inglaterra de carro ver o primeiro jogo, frente à Dinamarca. Ao vir embora pensou “numa próxima, venho cá para ver os jogos todos. Ver só um tem um custo astronómico e um gajo está a ir embora e o espetáculo a decorrer. Não pode ser.” Desde aí, vai a todas as fases finais, mas não só, seguindo a Seleção sempre que pode, seja para jogos de qualificação ou particulares.

Mas isso faria de Jorge apenas um adepto, não o número 1. O melhor adepto tem de ir trajado a rigor e Jorge recorda que “tentava sempre arranjar uma fardazita. Arranjava uma coisa qualquer, um chapéu maluco ou assim”, até que conheceu Carlos Brum, que já fazia os seus próprios fatos da Seleção e passou também a fazê-los também para o Jorge. Depois, vieram as loucuras em nome da Seleção.

Uma delas foi a invasão de campo no final do Portugal 0–0 Finlânda, no Estádio do Dragão, que garantiu o apuramento para o Euro 2008. “Como era o último jogo da Seleção no apuramento, eu disse para aquele staff que andava a olhar para os adeptos: ‘eu vou entrar aí dentro’. O jogo terminou e não faço mais nada, abri a porta, começo a correr para dentro e calhou de estarem ali o Ronaldo e o Nani. Vou ter com eles, digo ‘parabéns’ e tento voltar às bancadas, mas a polícia agarra-me e leva-me lá para dentro, para uma pequena esquadra dentro do estádio e fiquei lá detido no Porto.”

Acabou, naturalmente, por sair depois de ser presente a tribunal e, no dia seguinte, a sua foto foi capa no jornal Destak. “Quando vou para a apanhar o avião do Porto para Lisboa, estavam a distribuir o jornal e eu vejo: Sou eu! Já valeu a pena! Ficou uma recordação”, conta Jorge entre risos.

De autocaravana até à África do Sul, de bicicleta à Polónia e no Brasil

Mas as maiores aventuras de Jorge Franco em nome da Seleção começaram em 2010, quando foi de autocaravana até à África do Sul. Depois, em 2012, foi sozinho de bicicleta até à Polónia para ver o Euro, e no Mundial 2014 propôs-se percorrer, também de bicicleta, a distância entre as 12 cidades do Brasil que acolhiam a competição.

Na viagem de regresso da Bósnia, dia 18 de novembro de 2009, onde tinha visto a Seleção garantir o apuramento para o Mundial da África do Sul, Jorge já sabia que ia fazer a sua viagem de sonho. Juntamente com Carlos Brum e Joaquim Batista, partiu de Portugal numa autocaravana em abril de 2010 e passou por Espanha, França, Tunísia, Líbia, Egito, Sudão, Etiópia, Quénia, Tanzânia e Moçambique até chegar à África do Sul, ao fim de um mês e meio de viagem. Aí foi “o grande boom” da sua página do “Fã número 1 da Seleção” e do blog onde as pessoas podiam seguir a aventura daqueles três portugueses que cruzavam o continente africano para apoiar a Seleção. “Foi a partir daí que a minha projeção disparou. Toda a gente queria saber o que estava a acontecer connosco. Foi uma viagem atribulada, foi giro. Toda a gente queria acompanhar, mesmo o staff da Federação queria saber o que se estava a passar, toda a gente queria saber. Depois cresceu muito”, explica.

A aventura correu bem, sem nenhum furo e com muitas bolas distribuídas pelas crianças africanas com que se foram cruzando e, dois anos depois, o Europeu na Polónia surgiu como um novo desafio para Jorge Franco: ir de bicicleta até ao país que ia acolher o evento. Dito e feito, Jorge, que nem estava habituado a grandes pedaladas, contratou um treinador que lhe fez um plano de treinos e de alimentação e começou a trabalhar para o seu objetivo com quatro meses de antecedência. Partiu sozinho, sem qualquer apoio e sem um itinerário definido. E, se até cruzar a fronteira conseguiu encontrar quem lhe oferecesse dormida, de Espanha até à Polónia teve de ir pagando as despesas do seu próprio bolso e sempre sem saber onde dormiria no dia seguinte. A aventura foi bem sucedida e Jorge até foi transformado em cromo da caderneta do Euro 2012 da Panini. Era o número 208.

A Seleção continuou a apurar-se para as fases finais de grandes competições e Jorge continuou à caça de desafios enquanto acompanhava a equipa. Não podendo ir de bicicleta para o Brasil, para o Mundial 2014, Jorge propôs-se ligar, de bicicleta, as 12 cidades que iam acolher o Mundial, o que implicaria percorrer cerca de 20 mil quilómetros. Infelizmente, durante a sua oitava etapa foi atropelado com gravidade (ainda hoje tem uma placa de platina na perna) e não pôde concluir o desafio.

O homem por trás do fã número 1

Jorge não é um simples “maluquinho” atrás da Seleção, embora tenhamos de reconhecer que terá a sua quota parte de louco.  Tem perfeita consciência de que as suas aventuras, os seus trajes e a forma como se apresenta nos jogos chamam a atenção das pessoas e que, no estádio, tudo isso o transforma numa personagem e numa marca. “Se fosse bem trabalhado, hoje a minha imagem podia ser outra”, conta, lamentando não ter tido ninguém para o acompanhar e ir relatando a sua viagem de bicicleta até à Polónia, como aconteceu na viagem à África do Sul. “A RTP ajudou um bocadinho, veio aqui, fez uma reportagem, trouxe o Marco Chagas, foi giro”, lembra, mas depois não foi bem aproveitado.

A noção que tem da força da sua imagem fica também evidente quando nos fala da forma como é reconhecido pelas pessoas. "Há sempre um grupinho, alguns que não falham. Pelo menos nas fases finais, encontramo-nos sempre, há alguns que já há muitos anos que não falham. Alguns eu reconheço, há outros que vêm falar comigo e eu tenho dificuldade em reconhecê-los... muitos mesmo. Eu vou vestido desta maneira, é mais fácil chegar ali e ver ‘olha, lá está ele’. Quem vai vestido normal, é mais difícil”, explica.

Além disso, as viagens e desafios que completou exigiram bem mais do que paixão pela Seleção. Houve um planeamento e preparação de meses, não só para a parte física, mas também para a logística e financiamento destas aventuras. Associados a estes desafios, Jorge criou eventos, como o da sua despedida (estragada pela chuva) de bicicleta rumo à Polónia, em que conseguiu atrair a atenção dos média e alguns apoios. Além disso, o espírito bem português do “desenrascanço” também está bem presente em Jorge. Exemplo disso é o facto de mandar fazer materiais alusivos à Seleção para vender durante as viagens e também o facto de, há uns anos, já depois de ter deixado de jogar no Palmelense, ter ficado com o cartão de jogador, cuja data “atualizava” manualmente nos anos seguintes, para poder continuar a ter acesso aos estádios em Setúbal.

A sua paixão e ligação à Seleção levaram-no mesmo à sua última aventura, antes do Euro 2016: a criação do Hotel A Seleção.

O Hotel A Seleção

Com 18 quartos, todos com nomes de glórias da Seleção e decoração alusiva à mesma, o Hotel A Seleção existe desde maio de 2016, dois meses antes de Portugal se ter sagrado campeão europeu. No seu lugar existia o Hotel Manteigadas, que também pertencia a Jorge Franco, que hoje em dia continua espantado com a pontaria que teve para a data da mudança. “O que foi giro no meio disto tudo, com o tempo a que ando atrás da Seleção, foi o timing em que mudei o hotel [maio de 2016]. Depois, Portugal é campeão. Isto é uma coisa que só sonhando. Um gajo abre um hotel com este nome, Portugal nunca tinha ganho... e ganhou. Ainda hoje fico: como é que é possível? Não podia ter melhor altura para abrir um hotel da Seleção”, afirma.

Os quartos homenageiam jogadores desde Eusébio a Ronaldo, passando por Luís Figo e todos têm a sua própria decoração consoante o nome que ostentam. Segundo Jorge, “mesmo quem não gosta de futebol, gosta do hotel, porque isto não tem um ar de fanatismo. Não expus a parte de fanatismo, porque a designer não me deixou. Mas também fui buscar uma designer mesmo por isso, senão eram para aqui cachecóis e fotografias com as pessoas... Assim está com um ar moderno”, explica.

Curiosamente, desde que passou a ter o Hotel nos atuais moldes, Jorge Franco passou a ter menos disponibilidade para seguir a Seleção. “Acabo por ter preocupações maiores, acaba por ser muito mais difícil ausentar-me naqueles projetos, um desafio como o de ir para África, em que estive ausente do trabalho um mês e meio. Com este hotel já se torna muito difícil fazer uma aventura dessas. Agora, quando foi em França [no Euro 2016], ia de avião e voltava, ia de avião e voltava...”

O desencanto com a Federação Portuguesa de Futebol e o processo no tribunal

Apesar da sua paixão e dos sacrifícios que faz pela Seleção, Jorge não sente que haja correspondência da parte da Federação. “Sinto-me um pouco desiludido com a estrutura da Federação. Toda a gente pensa que eu tenho os conhecimentos todos, que quero um bilhete e consigo, mas nada, zero, não há apoio nenhum”, conta Jorge, clarificando que nunca andou a “pedinchar bilhetes” e que sempre os tentou comprar.

O contacto com os jogadores também é mais difícil hoje em dia. “Cada vez estão mais isolados e enquanto houver o Ronaldo é assim. Quando o Cristiano está na Seleção, o contacto é zero, a preocupação de  todos os seguranças é o Ronaldo. Já fui a jogos em que o Cristiano não foi e então não se passa nada, mas estive num, na Arménia, em que o Ronaldo era assediado a toda a hora e é natural que a pressão da segurança aumente”.

O desencanto com a Federação tornou-se maior ainda quando esta o processou devido aos direitos de imagem. “Começou pelo símbolo... A Federação agora está toda profissionalizada e eles registaram também uma marca qualquer da Seleção, mas eu registei a minha, que é Sport Hotel A Seleção e o logótipo e foi tudo aprovado. Mas como depois o hotel foi muito badalado, chegou ao conhecimento deles e eles acharam que o meu logótipo é parecido com o deles. Eu na altura recorri, depois perdi”, contat, explicando que acabou por se conformar, para não perder mais dinheiro. Jorge reconhece que “se fôr bem analisado, há aqui esta história das quinas, o interior, há aqui umas coisas parecidas...”, mas também explica que é difícil fazer algo relacionado com Portugal que não tenha essas referências. “Por exemplo, o logótipo da Sagres também está um bocadinho parecido com este, mas mais arredondado, mas é a Sagres, patrocinador, pode fazer o que quiser...”

Também os advogados de imagem de Cristiano Ronaldo, juntamente com os do Grupo Pestana apresentaram uma queixa, devido ao quarto dedicado ao capitão da Seleção, mas Jorge encara tudo de forma pragmática. “Cristiano Ronaldo posso pôr. Há muitos Joões e Marias também. O CR7 [afixado na parede] é que posso alterar”, admitiu...

 

Mas, se nem depois de ser atropelado Jorge Franco perdeu a pedalada, a Seleção poderá continuar a contar com o seu fã número 1, em junho, na Rússia a apoiar. De chapéu e trajado a rigor, Jorge não passará despercebido, ainda que desta vez já não possa embarcar em aventuras de outrora. É que, além do sucesso da Seleção, Jorge tem agora também de garantir o sucesso do Hotel A Seleção.

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