Prolongamento
João Vilela: as lesões que dificultaram no Benfica e a "loucura" iraniana
Fernando Gamito
2018-10-09 21:00:00
Desde os tempos nas camadas jovens do Benfica, passando pelas graves lesões, até à "loucura" que é o futebol no Irão.

Em tempos visto como uma das principais promessas das camadas jovens do Benfica, as lesões desempenharam um papel fulcral para que João Vilela não tenha chegado a estrear-se oficialmente pela equipa principal das águias. Com toda a formação feita nos encarnados, foi com a camisola do Gil Vicente que o ex-médio fez a maior parte da carreira entre a elite do futebol português, com passagens pelo CD Fátima, Belenenses e União de Leiria pelo meio, assim como duas experiências no estrangeiro, numa delas onde encontrou caras bem conhecidas do nosso país. Hoje em dia, as chuteiras já estão penduradas, mas não é por isso que João Vilela deixa de respirar o futebol e o futuro continua a passar pelo desporto rei.

Em conversa com o Bancada, João Vilela recordou uma grave lesão que o afastou dos relvados durante um período considerável de tempo, na época 2004/05, precisamente no momento em que estava a ‘tocar à campainha’ da estreia pelo plantel principal do Benfica. “Sobre o Benfica, o que correu mal na altura acredito ter sido a primeira rotura de ligamentos quando tinha 19 anos, num momento em que treinava com a equipa principal e jogava na equipa B, no ano do Mr. Trapattoni, e estive afastado dos relvados seis meses”, começou por lembrar o ex-jogador.

Em 2004/05, Vilela terminou a formação no Benfica e integrou o plantel principal, no qual entendia que teria oportunidade para jogar, mais cedo ou mais tarde. No entanto, depois da primeira lesão, surgiu outra e o desfecho acabou mesmo por ser o conjunto secundário das águias. “Sentia que nesse ano iria ser opção, mais cedo ou mais tarde, em jogos oficiais. No ano seguinte, tive de ser operado novamente, antes de começar a pré-época no Benfica, e não estava nas melhores condições. O Mr. Koeman decidiu que seria melhor jogar pela equipa B”, confidenciou João Vilela. Foi aí que o Gil Vicente se meteu na conversa e viu no ex-médio uma aposta para o futuro. “Até que, depois em janeiro, recebi o convite do Gil Vicente, para jogar na Primeira Liga por empréstimo e nem hesitei.”

Em janeiro de 2006, João Vilela saiu para Barcelos, por cedência da casa-mãe, ou seja, o Benfica. O Gil Vicente militava, então, no principal escalão do futebol português, numa temporada em que contou com Ulisses Morais e Paulo Alves no comando técnico. João Vilela chegou ao clube com 20 anos e nessa segunda metade de época realizou um total de sete partidas, nas quais somou 179 minutos dentro das quatro linhas e marcou um golo. O ex-futebolista acabou mesmo por ficar a título definitivo e fez um total de oito épocas com a camisola do ‘galo de Barcelos’.

Algumas dessas temporadas foram realizadas na Primeira Liga (esteve presente na conquista da Segunda Liga, em 2010/11), uma experiência ao mais alto nível do futebol luso que João Vilela considera ter sido especial, para qualquer jogador que tenha pisado os maiores palcos do nosso desporto rei. “A experiência de jogar na Primeira Liga é o topo do futebol português, onde muitos jogadores ambicionam chegar. Jogar contra jogadores de classe mundial, como Pablo Aimar, Lucho González, Matic, João Moutinho, entre outros... são momentos que levamos para a vida com orgulho”, destacou João Vilela em declarações ao Bancada.

João Vilela (Gil Vicente) a defrontar o Benfica, clube no qual foi formado. Crédito: Mário Cruz / LUSA

A “loucura” que é o Irão e o “irmão” que ajudou na adaptação

A última época ao mais alto nível na carreira de João Vilela teve lugar em 2016/17, com a camisola do FC Schaffhausen, clube que disputava o segundo escalão na Suíça. “Já parei de jogar. Foi uma decisão pessoal e também de ordem física, pois fui operado quatro vezes aos joelhos, e já não me sentia a cem por cento”, confessou o ex-jogador. No emblema helvético, ainda disputou 16 encontros, com 757 minutos em campo e um golo marcado. No entanto, foi a passagem pelo Irão que marcou, de certa forma, a carreira de João Vilela, principalmente pela forma como o fenómeno que conhecemos como futebol é vivido por aquelas terras.

“A experiência no Irão, em termos futebolísticos, surpreendeu-me pela qualidade, a competitividade do campeonato e a atmosfera em cada estádio provocada pelo adeptos, fanáticos, que adoram futebol e todos os jogadores são vistos como ídolos”, salientou João Vilela, que descreveu mesmo o ambiente vivido como “uma loucura”. Ainda assim, as semelhanças em termos culturais são bastante mais escassas quando comparadas com o que se encontra na maioria dos países europeus. “A nível cultural, são grandes as diferenças... um regime complicado, difícil de aceitar e compreender”, considerou.

No Irão, João Vilela representou o Tractor FC, clube que tem alguma história com os portugueses e que na primeira metade da época 2012/13 - na qual o ex-jogador lá esteve - contava com muita influência lusa. A ‘armada tuga’ era comandada pelo treinador Toni, acompanhado por António Oliveira, Paulo Grilo e Vítor Campelos na equipa técnica. No que concerne a jogadores, João Vilela juntou-se a um plantel que contava com Flávio Paixão e Anselmo e foi precisamente um dos irmãos Paixão que ajudou a facilitar a adaptação de Vilela. “A adaptação conseguiu ser facilitada pelo Flávio Paixão, que já lá estava e foi como um irmão para mim. Depois, estar com mais portugueses também ajudou bastante.”

João Vilela (Benfica) no jogo de apresentação do Estoril Praia aos sócios, em 2004. Crédito: Manuel de Almeida / LUSA

Então e o futuro… o que se segue?

As chuteiras estão penduradas, mas será que é assim o fim do futebol na vida de João Vilela? A resposta é bem simples: nada disso, pois o ex-jogador está a abraçar projetos no sentido de continuar a perseguir aquela que tem como “paixão desde sempre”. “Em relação a projetos, quero estar ligado ao futebol. Tirei recentemente uma pós-graduação em Organização e Gestão no Futebol Profissional na Liga, em conjunto com a Universidade Católica do Porto, e neste momento estou também a fazer o curso inicial de dirigentes na Federação Portuguesa de Futebol, com o objetivo de um dia vir a ser diretor desportivo ou diretor no futebol”, referiu. Mas, João Vilela não se fica por aqui. “Outra área na qual tenho trabalhado é na gestão de carreira desportiva de jogadores, onde tento ajudar a encontrar as melhores soluções para os jogadores, nesta fase principalmente de ex-colegas.”

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