Prolongamento
Geraldo Alves: futebol na família, Mourinho a mudar tudo e o fenómeno Mantorras
2018-10-17 21:00:00
Geraldo Alves recorda a passagem pelo Benfica, as conquistas pacenses e as diferenças que encontrou no estrangeiro.

Nascer numa família que respira futebol faz com que seja praticamente certo que se acabe a tentar construir um futuro no desporto rei. Assim o fez Geraldo Alves, filho do antigo jogador Washington Alves e irmão do internacional português Bruno Alves. Numa carreira que passou tanto por Portugal, como pelo estrangeiro, foi através de uma conversa que o ex-defesa conseguiu fazer testes para vestir a camisola do Benfica, mas com as cores do FC Paços de Ferreira viveu alguns dos momentos mais dourados nos relvados. As diferenças culturais e futebolísticas que encontrou na Grécia e na Roménia pautaram igualmente o trajeto de Geraldo, tal como o próprio confidenciou.

“O amor pela bola foi algo normal, pois o único brinquedo que tínhamos era a bola. E, como nos dias de hoje a playstation é o que liga milhares de crianças, na minha altura era a bola”, começou por recordar Geraldo Alves em conversa com o Bancada. Os primeiros passos que deu no desporto rei foram dados nas camadas jovens do Varzim. “Eu comecei a jogar pois tanto o meu pai como os meus tios foram jogadores. Entretanto, o meu pai foi o meu primeiro treinador em casa e também no Varzim.”

No entanto, o futebol nem sempre é o tema em foco lá em casa, ainda que esteja já a surgir uma nova geração da família Alves pronta para se aventurar pelo desporto rei. “Hoje em dia, quando estamos juntos, não falamos muito de futebol. Falamos mais de outras coisas... mas, no fim, acabamos por falar de futebol, pois a próxima geração de futebolistas está aí, com os filhos do Bruno."

Geraldo Alves (à esquerda na foto) em duelo com Luís Fabiano, num AEK-Sevilha FC, em 2007. Crédito: Simela Pantzartzi/EPA

A conversa que terminou com um treino no Benfica B

Em 1999, Geraldo Alves terminou o último ano de júnior no Varzim e na temporada seguinte conseguiu chegar à equipa B do Benfica. Houve um familiar que teve papel fundamental para que o ex-defesa tenha chegado ao conjunto secundário dos encarnados. “Na verdade, o Benfica nunca me contactou. Consegui um treino a experiência na equipa B, numa história muito curiosa quando ia quase desistir do futebol profissional e dedicar-me aos estudos”, começou por contar ao Bancada.

Uma antiga glória do Benfica, neste caso Mozer, foi fundamental para que Geraldo Alves tivesse uma oportunidade de mostrar aquilo que valia ao emblema da Luz. “O meu tio Wilson, que vive em Lisboa, e também ele foi jogador, encontrou o Mozer, antigo defesa do Benfica e ele, Mozer, reconheceu o meu tio dos tempos do Flamengo. Óbvio que o meu tio sabia quem ele era, mas nunca tinha pensado que o Mozer o conhecesse. Em conversa, o meu tio falou-lhe do meu pai e de mim e conseguiu que fosse treinar a experiência no Benfica.”

Ao todo, o ex-defesa somou 36 encontros pela equipa B do Benfica, mas ainda conseguiu jogar pelo conjunto principal das águias. Em 2000/01, Geraldo disputou cinco partidas no principal escalão do futebol português, duas delas como titular. Na Taça de Portugal realizou também um jogo, mas na temporada seguinte voltou a ser opção regular na equipa B, até que na segunda metade da época foi emprestado ao Beira-Mar, na primeira de três sucessivas cedências. Ainda assim, Geraldo não viu a estadia no conjunto secundário dos encarnados como um passo atrás. “Não fiquei desapontado. Fiquei muito feliz por ser aceite na equipa B. E trabalhei o máximo possível para ter a minha oportunidade na primeira equipa.”

As mudanças de Mourinho, o fenómeno Mantorras e os empréstimos

“Chegar à equipa principal foi um sonho! Estar sem equipa e depois de um ano e meio estar na primeira equipa do Benfica foi muito bom”, acrescentou Geraldo, que recordou ainda dois momentos marcantes de quando esteve nas águias, um deles causado por José Mourinho e outro por Mantorras. “Lembro-me de quando chegou o Mourinho e mudou completamente a mentalidade de uma equipa em dificuldades”, lembrou primeiramente, antes do nome de Mantorras lhe saltar à memória. “Lembro-me do Mantorras e de pensar que estava a jogar com o próximo Eusébio ou Weah.”

Primeiro, o Beira-Mar. Depois, seguiram-se cedências a Gil Vicente, em 2002/03, e ao FC Paços de Ferreira, em 2003/04. “Os meus empréstimos considero que foram preciosos na minha vida, para que tivesse chegado onde cheguei, eu iria sempre ser um miúdo vindo da equipa B”, contou Geraldo Alves. O ex-defesa acabou mesmo por ficar a título definitivo nos pacenses, clube no qual considera ter sido mais feliz na carreira e onde conquistou o título da Segunda Liga. “A decisão de ter saído [do Benfica] foi minha, pois sabia que não era desejado no clube. Adorei ter ido para todos os clubes, onde aprendi imenso e cresci como homem. No Paços foi onde fui mais feliz, joguei constantemente e mudei a minha vida saindo para o estrangeiro pelas performances que tinha tido, subir de divisão, a permanência e os lugares europeus no meu último ano lá.”

Crédito: Friso Gentsch / EPA

O “estado de guerra” grego e as crises helénica e romena

As exibições e os bons resultados conseguidos com a camisola do Paços de Ferreira resultaram na primeira aventura de Geraldo Alves pelo futebol estrangeiro, com a Grécia, mais precisamente o AEK, a ser o primeiro a surgir no mapa, em 2007/08. Foram três as temporadas que o ex-defesa passou na equipa de Atenas, tendo realizado um total de 68 partidas. Aquilo que encontrou no país helénico foi bem distinto do que estava habituado, principalmente na forma como as pessoas vivem o fenómeno que conhecemos como desporto rei, segundo contou o próprio ao Bancada.

“Fui para a Grécia e encontrei um país e uma cultura diferente. Um bom futebol e onde os adeptos transformam um simples jogo em estado de guerra. Nós, jogadores, vivíamos isso e era sensacional. Estive também no melhor e no pior da Grécia. Numa época dourada onde tinham tudo, bons salários, boas condições e eram corretos… mas, a crise apanhou toda a gente desprevenida e deu-se um tombo gigante nos clubes, infelizmente”, recordou.

À Grécia seguiu-se a Roménia, em 2010/11, país onde representou o Steaua Bucareste, primeiramente, e depois o FC Petrolul Ploiesti, tendo terminado a carreira ao serviço do Astra Giurgiu. A experiência no país dos balcãs “surpreendeu pela positiva” o ex-jogador. “Bom futebol, bons adeptos, muita alegria nos estádios”, lembrou. No entanto, a crise também lá chegou e o futebol sofreu com isso, muito por culpa da corrupção no desporto rei. “Também existiu uma crise, onde a corrupção e outros problemas afetaram o futebol. Muita gente importante do futebol foi presa, inclusive os presidentes dos três clubes mais importantes do país: Steaua, Dínamo e Rapid Bucareste.”

Com todos os problemas que se verificaram no futebol romeno, Geraldo Alves comentou as consequências que ocorreram. “O interesse e a qualidade diminuiu. O investimento é muito pouco e com isso as condições também. Os clubes vivem somente do futebol. E por aqui fui ficando… ganhei o meu único campeonato aqui e notabilidade pelo simples facto de ser sério e profissional… algo normal em qualquer campeonato, mas onde aqui, pelo que os romenos falam, é caso raro.” Ainda assim, Geraldo considera que a Roménia é “um país bom para se viver” e deixa uma palavra aos jogadores portugueses. “Se o futebol estivesse bem por aqui, aconselhava muitos mais portugueses a virem. É uma excelente rampa de lançamento.”

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