Prolongamento
Futebol em Chipre: o êxodo português
2017-06-02 22:30:00
Apesar da queda do número de jogadores vindos de Portugal, os que continuaram na ilha mostram-se felizes

"Fiquei muito contente com a escolha que fiz, porque não jogando nas equipas grandes de Portugal compensa mais jogar numa equipa de maior dimensão de Chipre do que numa que não lute pelo título em Portugal". A frase é de Marco Soares, internacional cabo-verdiano de 32 anos e antigo jogador de UD Leiria e Olhanense, em declarações a Bancada.

Em vésperas de um Portugal-Chipre, jogo de preparação entre as duas seleções nacionais, três jogadores que foram de terras lusas para a ilha mediterrânica falaram com a nossa publicação sobre as mudanças na vida de um jogador português no futebol cipriota.

Há quase dez anos, em dezembro de 2007, Jorge Jesus falou do estado do futebol em Portugal. "Os estádios estavam vazios porque os bilhetes estão muito caros", dizia o técnico na altura, que ainda fez uma previsão curiosa. "Eu vou à Argentina ou ao Brasil, países com um poder de compra muito menor, e os estádios estão sempre cheios. Chipre, Roménia ou Bulgária, daqui a cinco anos vão-nos ultrapassar. Vão ter mais poder de compra de jogadores que nós e aí vamos ficar a perder. Os melhores portugueses não vão jogar em Portugal e nós vamos ter muitas dificuldades em contratar jogadores de qualidade", disse o então treinador do Belenenses numa conferência de imprensa de antevisão a uma partida com o Benfica.

Chipre não ultrapassou Portugal, mas Bancada quis saber em que estado está o futebol naquele país e se ainda vale a pena, para um português, jogar com a camisola de um emblema do campeonato cipriota.

Primeiras impressões

"O futebol cipriota surpreendeu-me um pouco porque, ao contrário do que as pessoas pensam, o nível é bom. Agora, é óbvio que há nove anos atrás o nível era inferior. A situação está muito melhor, muitos jogadores estrangeiros ajudaram os próprios cipriotas a melhorar. Há muitos jogadores que são bons, chegam ao campeonato cipriota e não conseguem ter o rendimento que têm noutros lados. Há muita competitividade entre as equipas", disse Renato Margaça a Bancada.

Há nove anos a jogar em Chipre, Margaça (31 anos) passou por equipas como o DOXA Katokopia FC e o AEK Larnaca antes de chegar ao Omonia, onde está hoje. O médio gostou tanto do país que até se naturalizou cipriota, já se tendo estreado pela seleção nacional do país.

Quem também ficou agradado com Chipre, da primeira vez que lá chegou, foi Marco Soares. Hoje no AEL Limassol, Soares foi colega de Margaça no Omonia. "Fiquei com uma impressão muito boa porque não estava à espera que, por exemplo, o clube onde joguei [Omonia] tivesse a dimensão que tinha, porque cá em Portugal, com grande dimensão, só há mesmo as equipas grandes. É um país que, na altura, não dava nada por ele", revelou.

Marco Soares quando jogava pelo Omonia

Marco Soares, quando jogava pelo Omonia (Imagem: Facebook Marco Soares)

Distinta opinião tem Edgar Marcelino, cujo último clube que representou foi o AO Acharnaikos, da Grécia. O antigo jovem prodígio das escolas do Sporting, agora com 32 anos, contou a Bancada aquilo que viu quando aterrou em Nicósia para jogar, tal como os colegas, no Omonia.

"Eu tinha jogado um ano na primeira divisão portuguesa [FC Penafiel], um ano na primeira divisão holandesa [RBC Roosendaal], seis meses na Segunda Liga portuguesa [Vitória de Guimarães]... Depois destes campeonatos, chegas a Chipre e deparas-te com pessoas que não são muito profissionais", admitiu, continuando ainda ao dizer que "as coisas pioraram ano após ano".

Experiências diferentes

Mas o que aconteceu a Edgar Marcelino para não ter gostado da aventura por terras cipriotas? O extremo, de 32 anos, que representou o APOP, AEP e Karmiotissa Polemidion para além do já referido Omonia, explicou-nos.

"Desde jogos em que aconteciam coisas estranhas - e não interessa especificar o quê - como ordenados em atraso. Dos cinco ou seis anos que passei em Chipre, passei por essa situação cinco vezes. Acabam sempre por chutar a bola para o lado do jogador e a culpa 'nunca é' dos clubes. Eu estive no Omonia, que é um dos maiores clubes de Chipre, e não me pagaram tudo o que deviam", contando ainda um episódio que o marcou:

"No APOP, vencemos a Taça eliminando as três melhores equipas de Chipre, fomos à qualificação da Liga Europa onde fomos afastados graças a um golo do Rapid Viena a cinco minutos do fim do prolongamento e o agradecimento deles [clube] para com os jogadores foi não pagar ordenados. Eu, no ano seguinte, era um dos capitães de equipa e fiquei 'só' com dez meses de ordenado em atraso e ameaçaram-me várias vezes que me mandavam embora. Tinha a minha mulher e os meus filhos comigo em Chipre e tive que os mandar embora porque achava que não era o sítio ideal para a minha família estar comigo. Tinha sempre receio que acontecesse alguma coisa".

Marco Soares, por outro lado, tem "visto evolução e mais organização" no futebol cipriota. "As equipas já conseguem ir para a fase de grupos da Liga Europa. O APOEL, por exemplo, eliminou o FC Porto e chegou aos quartos-de-final da Liga dos Campeões [em 2011/12]. As equipas têm valor e há bastantes jogadores internacionais nas equipas grandes de Chipre. Houve um decréscimo em termos monetários, mas penso que isso acaba por acontecer em toda a Europa. Com o passar dos anos, já não se paga o que se pagava antes. Mas, no que toca a futebol, tenho visto um acréscimo todos os anos", referiu.

De mais de meia centena para menos de 20

Nos dez anos que se seguiram desde a previsão de Jorge Jesus, o número de portugueses a atuar em Chipre tem vindo a mudar substancialmente. O pico aconteceu em 2012/13, quando 56 atletas lusos jogavam na divisão mais alta do futebol cipriota. Em 2016/17, no entanto, o número desceu em 40: eram 16 os jogadores sob as mesmas condições.

O motivo desta descida abrupta, para Renato Margaça, é simples. "Houve problemas económicos e financeiros no país, tal como Portugal, e os jogadores portugueses deixaram de vir tanto para Chipre por causa disso. As próprias equipas, tirando algumas, já não podem pagar aquilo que pagavam antigamente", explicou o jogador de 31 anos com o qual Marco Soares concorda, mas inclui ainda outro fator na equação.

"Na altura estava na moda ir buscar jogadores portugueses. Entretanto, têm ido buscar jogadores espanhóis e apostado muito no mercado espanhol. Mas penso que não tenha sido por nada de especial, apenas uma opção de mercado. A crise económica e os problemas nos bancos também fizeram com que os clubes baixassem os orçamentos, o que teve algum impacto no país, principalmente nas equipas mais pequenas. Mesmo as equipas grandes já não pagam o que pagavam antigamente, mas ainda pagam bem", proferiu, assumindo ainda que "para um jovem, como o futebol português tem mais visibilidade, talvez não compense ir para uma equipa cipriota".

Já Edgar Marcelino tem um ponto de vista completamente diferente. Para o ex-Sporting, o decréscimo advém "sem dúvida alguma das mentiras e dos enganos das pessoas que levam os jogadores para lá". "Eu tenho a certeza absoluta que 70% ou 80% dos jogadores [portugueses] que foram para Chipre não receberam o [dinheiro do] contrato na totalidade. Nós sabemos que acontecem outras coisas que não interessa falar, porque toda a gente sabe e toda a gente ouve... Eu até senti vergonha porque houve um jogo em que nós [jogadores] fomos todos investigados por suspeitas de jogos combinados. Claro que isso mancha um jogador e são motivos mais do que óbvios para sair", acrescentou.

Campeonato "subvalorizado"

Tanto Marco Soares como Renato Margaça, ambos com vários anos de futebol cipriota nas pernas, concordam que a ideia que os portugueses têm do futebol na pequena ilha do Mediterrâneo é completamente errada. O primeiro, que passou pelas escolas do Sporting, 

O campeonato cipriota é muito subvalorizado, as pessoas não dão o devido valor. Há muitos jogadores que saem de Portugal e acabam por não ter sucesso em Chipre porque vão com a ideia de que o campeonato é fácil. Depois não conseguem entrar no ritmo e as coisas acabam por correr mal. Ao contrário do que acontece em Portugal, acaba por haver mais pressão. Quando uma contratação não corresponde na primeira época, eles tentam logo chegar a um acordo [para rescindir]. São muito exigentes, têm menos paciência e esperam muito dos estrangeiros que chegam", confessou Soares.

O - agora - cipriota Margaça, tem a mesma ideia. "Há muita competitividade entre as equipas. Claro que há sempre uma ou duas equipas favoritas, mas há um grupo de cinco ou seis equipas a lutar pelos lugares europeus", disse, falando ainda dos adeptos:

"A paixão deles pelo futebol e pelos jogadores é enorme. São muito fanáticos pelo futebol e vivem-no de uma forma muito intenso. Se jogas numa equipa grande, como o país é muito pequeno, o reconhecimento é muito, muito grande. Os portugueses deixam os jogadores mais à vontade, enquanto que em Chipre ninguém tem problemas em parar para pedir um autógrafo ou uma fotografia".

Futuro risonho... ou não

Prova da positiva aventura que Marco Soares está a passar em Chipre é a renovação do seu vínculo com o AEL Limassol, clube que ficou na quarta posição do último campeonato. O jogador da seleção de Cabo Verde assume: com a idade que tem seria muito difícil receber o mesmo e lutar por objetivos altos em Portugal. 

"O futebol em Chipre vai continuar a crescer. Tem-se visto, até, pela seleção cipriota, que antes perdia todos os jogos e esteve perto de se apurar para o playoff de apuramento para o último Campeonato da Europa. Isso prova a evolução do futebol no país. Isso fez-me renovar por mais três anos e um dos motivos foi a estabilidade que me dão lá e que, provavelmente, não teria em Portugal com esta idade. Era praticamente impossível ter as mesmas condições que tenho em Chipre", concluiu.

Edgar Marcelino, de outro modo, não está tão otimista nos próximos tempos do futebol em Chipre. O avançado disse-nos mesmo que, das duas opções de futuro, nenhuma é melhorar.

"Creio que, nos próximos tempos, a única coisa que pode acontecer é ficar como está ou, a evoluir, para pior. Não pagam, oferecem contratos milionários sem poder pagar metade e enganam os jogadores. E nunca é o empresário ou o agente que oferece estas coisas através do clube que sofre as consequências, são sempre os jogadores".