Prolongamento
Futebol com pó: a pureza suja de jogar num pelado
Diogo Cardoso Oliveira
2018-11-06 21:00:00
O Grupo Desportivo e Recreativo Bragadense é a única equipa, em Lisboa, a jogar num campo pelado. Mas não gostam disso.

Pelado (adjetivo e substantivo masculino): Aquele que não tem pêlo. Calvo. Nu. Campo de futebol sem relva.

Esta definição saiu do dicionário do futebol. Os antigos “peladões”, de terra batida, são, hoje, substituídos por belos e verdejantes tapetes de relvado sintético. Foram-se a areia, a pedra e o pó, vieram as pequenas pedrinhas de borracha, no meio de um manto de relva artificial.

Mas nem tudo está perdido: com esforço, ainda é possível ver futebol com pó. É questão de ir ali às Bragadas, qualquer coisa a meio caminho entre Lisboa e Alverca. Nós fomos, aproximámo-nos do campo e sentimos logo o que é jogar num pelado. E foi bem merecido. Sapatinhos sujos são a penalização da ingenuidade de um jornalista incapaz de prever a utilidade de umas botas ou até de uns humildes ténis.

O Grupo Desportivo e Recreativo Bragadense, que se estreia nesta temporada a nível sénior, é, atualmente, a única equipa lisboeta a jogar num campo pelado. Mas não têm orgulho nisso e querem abdicar dessa teórica vantagem. Já lá vamos.

“O nosso craque é o pelado”

Antes, falamos do que é jogar num pelado. É impossível vermos um campo destes num campeonato profissional – ou até no Campeonato de Portugal –, mas, nos distritais de Lisboa, há uma equipa a dar cabo da cabeça aos adversários. Pela parte futebolística da coisa, sim, mas, sobretudo, pelo campo em que os recebem. O início de campeonato do Bragadense, na I Divisão da Associação de Futebol de Lisboa, não tem sido formidável. São cinco derrotas em seis jogos, mas há um dado inegável: as goleadas sofridas fora de casa contrastam com a vitória por 3-0, em casa, bem como duas derrotas pela margem mínima. Parece evidente que ninguém gosta de lá ir jogar. Na verdade, nem sabem bem como ir lá jogar.

Veja bem estas caras. Qual lhe parece ser o artista desta equipa? O maestro, dono da camisola 10? O desequilibrador, com o nº 7? O goleador, com o 9? Nada disso. Numa equipa do distrital, de recursos parcos e humildes, o craque da equipa é… o pelado.

“Todos os planteis têm um jogador que é a estrela, o craque, o que mais vezes faz a diferença. Eu gosto de dizer que o nosso craque é o pelado. Ele faz com que, quando jogamos em casa, todo o nosso plantel seja mais forte face aos adversários, porque nós treinamos nele e mais ninguém treina. Os nossos adversários estão habituados a jogar em sintéticos, mas, nas Bragadas, não só têm de nos enfrentar, como também têm de enfrentar o pelado”, diz-nos Miguel Cordeiro, jogador e diretor de comunicação do Bragadense, que explica ainda que as vantagens do pelado não são meramente futebolísticas: “O facto é que há bons e maus pelados, como bons e maus relvados, como bons e maus sintéticos. No nosso campeonato, é quase tudo sintético e posso dizer que prefiro jogar num pelado do que num sintético em más condições. Os sintéticos são um palco para lesões graves, então se estiver maltratado é quase certo haver lesões. No pelado é mais difícil haver lesões graves. Os arranhões podem ser maiores, a roupa pode ficar mais suja, mas foi em sintéticos que vi as piores lesões desde que jogo futebol. Eu próprio sou exemplo disso. Nunca tive uma lesão grave na minha vida, mas, nesta época, num campo sintético, parti o tornozelo e rompi os ligamentos. Estou de fora para o resto da época e sei que, no pelado, seria mais difícil ter uma lesão destas”.

Simular faltas? ‘Tá bem, ‘tá… queremos ver isso…

O Miguel falou de arranhões e nós aproveitamos essa boleia. Vamos lá a saber, pessoal das Bragadas: há algum artista a atirar-se para o chão?

Aqui não há nada disso. Não tem como”, diz Ilídio, médio do Bragadense, que nos foi apresentado como “o goleador”. Fazemos, agora, uma pergunta a um defesa. Há coragem de fazer carrinhos ou pensas duas vezes? “Carrinhos? Só às vezes... por engano!”, dispara Diogo Dias, central da equipa, entre risos.

Está arrumado o capítulo dos arranhões, mas falta o da sujidade. Já chegou a casa, depois de uma futebolada, e andou a espalhar pedrinhas de borracha pelo chão, no momento de tirar as botas? É o problema de jogar em sintéticos. Por ali, nas Bragadas, não se sofre disso. O problema é outro: lavar as botas. Mas quem é que as lava, afinal? “Cada um trata das suas. O clube tem roupeiro e rouparia. Guardam as nossas botas, mas quem trata delas somos nós”, explica Miguel Cordeiro.

Por curiosidade jornalística, queremos ainda saber se há por aqui malandros especializados em, discretamente, fazer montinhos no terreno, qual futebol de praia, para facilitar a vida a quem vai bater cantos ou livres.

“Isso não. É a primeira vez que oiço falar disso”, diz Diogo Dias, que recebeu resposta do presidente: “Mas olha que os miúdos faziam isso. Nas camadas jovens isso acontecia mais”.

“Há dois anos fizemos um jogo de juniores com oito jogadores”.

Vamos inventar um cenário no qual o Bragadense quer contratar um jogador. O presidente chega-se à frente diz ao candidato: “olha, rapaz, nós temos interesse em que venhas jogar para o Bragadense. Precisamos de ti ali para o meio-campo. Não pagamos muito, mas somos um clube cumpridor, com um grupo muito unido e ambicioso. E somos o único clube de Lisboa que joga num pelado”.

Esta última frase não tornará complicado convencer um jogador a assinar pelo Bragadense? José Manuel Nunes, presidente do clube, reconhece que sim. “Há alguma dificuldade, sim. Mas não tanto como nas camadas jovens. Não tivemos dificuldade a que aparecessem jogadores, tivemos dificuldade foi na qualidade. Muitas vezes vai aparecendo é aquele jogador que não nos interessa, porque vem um dia, depois já não vem, etc. Mas tivemos muitas recusas, é verdade”.

José Manuel Nunes diz, ao Bancada, que não tem especial prazer em ter o seu “peladão”. “Sinto um grande desconforto, quer da parte dos jogadores quer dos adversários. Chegam aqui e ficam a olhar… enfim, se queremos ter futebol sénior, terá de ser assim. Pelo menos enquanto nos permitirem”, afiança, garantindo que o projeto do clube é para três anos e que o plano é ter um sintético. Falta “apenas” o apoio municipal: “Da nossa parte existe mais do que vontade. O problema é que a pressão que fazemos à Câmara não tem efeito. Houve a vaga promessa deles de, até ao fim do mandato, termos aqui um relvado sintético em segunda mão – que custa à volta de 70 mil euros –, mas a promessa ainda não foi para o papel. Mais por questões políticas e de eleições do que financeiras”.

Mas vamos lá ver: o Bragadense consegue melhores resultados em casa do que fora, em boa parte devido ao pelado. O presidente, apesar de reconhecer que o pelado é uma vantagem, quer abdicar desse privilégio. “Temos de abdicar, porque à custa de termos o futebol sénior, o futebol jovem acabou (…) os jovens não querem vir jogar para aqui, por ser pelado. São as ideias quer dos jovens quer dos pais dos jovens. Ficamos com aqueles que não têm lugar nas equipas que têm relva e, às vezes, nem isso. Porque eles não querem. Há dois anos fizemos um jogo de juniores com oito jogadores”.

“Oh mister, joga-se à bola ou nem por isso?”

Há motivos evidentes para, em 1982, a Federação Portuguesa de Futebol ter ordenado o fim dos campos pelados na I Divisão. Mas há, também, vários motivos para quase todos os clubes, mesmo os pequenos, já terem o seu sintético. Primeiro, o evidente conforto da relva em detrimento da pedra e da areia. Segundo, a maior resistência à chuva de um bom sintético comparado com um fatalmente empapado “peladão”. Terceiro, o nível futebolístico que a relva – natural ou sintética – permite aplicar. No pelado, a bola não rola, salta.

A pergunta é simples: “Caro mister, aqui joga-se bem à bola ou nem por isso?”. “Sim, claro que sim”, diz-nos Joaquim Diniz, treinador do Bragadense, que nos explica que o treino tem de ser adaptado de semana para semana: “Quando jogamos em casa, no nosso pelado, como será o caso do próximo fim-de-semana, temos um sistema de jogo no qual jogamos totalmente abertos. Quando temos um jogo fora, em relvado sintético, adoto outro sistema: tento encurtar as linhas, juntar mais a defesa, o meio-campo e o ataque, para ter um futebol mais apoiado”.

Já Miguel Cordeiro reconhece que é difícil aplicar um jogo tecnicista: “É verdade que num pelado não consegues aplicar um estilo de jogo mais tecnicista, mas, se formos analisar bem, acontece o mesmo com sintéticos ou até relvados. Depende sempre do estado em que o piso está. Até as condições climatéricas condicionam o tecnicismo dos jogadores”.

Aqui não há “Fidalgos” nem “Cordeiros”. Vai tudo corrido a(o) “Picareta”

Terminamos com uma brincadeira e esperamos que a malta das Bragadas não nos leve a mal. É que entre os 20 heróis do plantel do Bragadense há apelidos que explicam o que é este campo pelado. Ora veja lá se não é assim:

O terreno do Bragadense é um autêntico lobo em pele de [Miguel] Cordeiro. É um dos [Flávio] Campos mais difíceis de Lisboa. O problema não é do [Jorge] Bento forte ou da chuva, mas sim dos [Diogo] Dias em que este pelado parece feito de [Tiago] Rocha, com pequenas pedras que mais parecem [Pedro] Penedo(s). É um campo que mete medo a quem se ache [João] Fidalgo e, para ter sucesso aqui, o melhor é mesmo pegar na [Nuno] Picareta.

Muito forçada, a brincadeira? Pense que há coisas piores. Como ir jogar num pelado, por exemplo.

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