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Fernando Mendes, o caso único em Portugal que foi "raptado" pelo FC Porto
2018-05-04 20:20:00
Jogou nos cinco clubes campeões em Portugal, mas ia para Espanha quando foi "raptado" pelo FC Porto

É o único futebolista que jogou nos cinco clubes campeões em Portugal. Fernando Mendes arrepende-se de ter trocado o “seu” Sporting pelo Benfica, mas a palavra dada aos dirigentes das águias e o comportamento desagradável da direção de Sousa Cintra empurraram-no para a Luz. O lateral-esquerdo que descobriu aos 29 anos que sabia marcar livres foi “raptado” pelo FC Porto – onde foi tricampeão – quando ia a caminho de Madrid para jogar no Rayo Vallecano. Conhece Futre desde os sete anos de idade e lembrou os momentos complicados da chegada do amigo ao Benfica: “Não foi bem recebido”.

Em semana de dérbi entre Sporting e Benfica, Fernando Mendes partilhou com o Bancada a experiência que viveu quando teve de abandonar o “seu” Sporting para jogar no Benfica: “Eu sempre fui sportinguista e custou-me muito na altura, até porque eu não queria sair do Sporting, mas aconteceram algumas coisas. Alguns membros da direção do Sousa Cintra não foram agradáveis com os meus pais. E como já tinha dado a palavra aos dirigentes do Benfica cumpri com a minha palavra”, começou por recordar Fernando Mendes que afirmou não ter sido por dinheiro que atravessou a Segunda Circular, pese embora ter ido ganhar, no Benfica, o triplo do que auferia no Sporting.

Posso dizer que ganhava 850 contos (4200 euros) quando saí do Sporting. E fui ganhar 2500 contos (12500 euros) no Benfica. Mas não foi por dinheiro que saí, atenção: porque a direção do Sousa Cintra não queria que eu saísse e ofereceram-me mais do que eu ia ganhar no Benfica, mas por tudo o que já expliquei – como trataram os meus pais e porque eu já tinha dado a minha palavra aos responsáveis do Benfica -, acabei por sair. É o grande arrependimento que tenho em relação à minha carreira.”

Fernando Mendes - o segundo, em baixo, a contar da direita - no onze do Sporting. Foto: Facebook/Fernando Mendes

Usado pelo Benfica para provocar o Sporting

A transferência para o Benfica veio a revelar-se um fracasso para Fernando Mendes que cedo percebeu que tinha sido usado, pelos encarnados, para provocar o grande rival lisboeta. Então com 23 anos de idade, Fernando Mendes realizou apenas cinco jogos na sua primeira época de águia ao peito - 1989/90. O dono da lateral esquerda era Álvaro Magalhães e depois havia Fonseca e Veloso e os minutos escassearam para o jovem que tinha acabado de deixar o clube do coração para representar o grande rival.

“No Benfica nunca joguei muito. Tive a noção de que fui usado pelo Benfica para provocar o Sporting. O Benfica não precisava de mim para nada. Tinha lá tantos defesas-esquerdos. Eles foram-me buscar só para provocar o Sporting. Lembro-me de que quando fui assinar pelo Benfica fizeram-me sentir como o Maradona. Da forma que eles falaram comigo dava a sensação de que ia ser a salvação do Benfica. No entanto, posso dizer que no primeiro treino, de apresentação aos sócios – o treinador era o Eriksson, fui logo posto de lado. Na peladinha, no primeiro treino, eram onze contra onze, ele nem me meteu a jogar. Fiquei atrás da baliza. Eu, o falecido Manuel Bento e o Ademir. A partir daí vi logo que a vida não ia ser fácil para mim. Fui usado pelo Benfica para provocar o Sporting, eu tinha 23 anos.”

Fernando Mendes chegou ao Sporting ainda um garoto, mas os primeiros pontapés na bola deu-os ao serviço de um modesto clube perto da sua casa, no Montijo. No Cancela, equipa onde jogava Fernando Mendes, jogava também Paulo Futre e o treinador desta malta era mesmo o pai de Futre, o miúdo que não passava a bola a ninguém e que um dia foi a Alvalade jogar um torneio pelo Cancela e nunca mais de lá saiu.

Os tempos no Cancela são recordados com muito carinho por Fernando Mendes que recorda ter sido “empurrado para defesa-esquerdo” pelo pai de Futre “porque não tinha muito jeito para jogar a extremo.”

“Comecei a jogar primeiro num clube que havia aqui que era o Cancela. Era uma loja de eletrodomésticos. Estava lá também o Futre. Depois íamos a torneios em Lisboa, eu devia ter uns dez anos. Mas o Futre já o conheço desde os sete, andávamos juntos na escola.

Houve um torneio em que o Cancela foi fazer ao Estádio de Alvalade e o Futre acabou por ficar, já não o deixaram sair de lá. Eu ainda fiz um ano nos iniciados do Montijo e depois, passado um ano de o Futre lá estar, chego eu.

No Cancela era extremo-esquerdo, mas não tinha muito jeito (risos). E o treinador, que curiosamente era o pai do Futre, empurrou-me lá para trás. O Futre jogava a médio, sempre solto, era terrível, o gajo não passava a bola ninguém. Era um garganeiro do pior.”

A estreia de Fernando Mendes com a equipa principal do Sporting acontece quando é ainda júnior. Na altura John Toshack tinha acabado de ser despedido do comando técnico dos leões e Pedro Gomes, que tomou conta da equipa, chamou Fernando Mendes para o último jogo da época 1984/85, frente ao Vitória de Setúbal. O jovem Fernando entrou a meia hora do fim do jogo e cumpriu o sonho de se estrear com a camisola da equipa principal do Sporting. Estava dado o mote para as quatro temporadas que se seguiram, sempre de leão ao peito, onde viveu um dos episódios mais marcantes da sua passagem por Alvalade: os 7-1 ao Benfica.

Fernando Mendes recordou, ao Bancada, que nessa tarde “tudo saía bem aos jogadores do Sporting”, sobretudo na segunda parte, onde os leões marcaram seis golos ao grande rival. Do outro lado, “os jogadores do Benfica nem tiveram reação”. Fernando Mendes recorda que “já nem havia aquelas discussões habituais quando se sofrem os golos”, “cada vez que a bola passava de meio-campo dava golo”, explicou Fernando Mendes que nunca mais esquecerá as imagens que viu nas bancadas, “quando os adeptos do Benfica começaram a queimar as bandeiras e os cachecóis.”

Fernando Mendes - o terceiro, em baixo - no onze do Benfica. Foto: Facebook/Fernando Mendes

Reencontro com Paulo Futre, que não foi bem recebido pelos jogadores do Benfica

A passagem de Fernando Mendes viria a ser marcada por outro episódio: o reencontro com o amigo de infância Paulo Futre.

Depois de cinco épocas e meia ao serviço do Atlético Madrid, Futre regressa a Portugal e aterra em Lisboa, em fevereiro de 1993, para assinar pelo Benfica, o único clube dos três grandes portugueses que faltava no currículo do internacional português. Mas os primeiros dias de Paulo Futre no reino da águia foram um pouco complicados para o atacante. No seio da equipa encarnada sentiu-se alguma resistência quanto à chegada de Futre. Para ajudar o antigo jogador do Atlético Madrid estava lá o amigo de infância Fernando Mendes.

“Lembro-me que o Futre foi mal recebido quando chegou ao Benfica, houve ali uma certa resistência de algumas pessoas, mas depois começou a abrir o livro e a posição das pessoas, que resistiram à sua vinda foi mudando.

Na altura entravam poucos jogadores para a equipa do Benfica e havia um núcleo muito forte, então quando ele chegou houve ali uma certa resistência por parte de alguns membros da equipa. A entrada dele não foi muito bem vista, na altura. Mas depois correu bem. Nessa altura andávamos sempre juntos, fui o amparo dele.”

“Raptado” pelo FC Porto quando ia a caminho de Espanha para jogar no Rayo Vallecano

Depois de uma grande época ao serviço do Belenenses, em 1995/96, a porta de Espanha abriu-se para Fernando Mendes. A melhor proposta chegou do Rayo Vallecano, por esses dias a disputar o escalão maior do futebol espanhol. O clube do Restelo passava por dificuldades financeiras e o interesse do clube espanhol agradava a jogador, que ia receber melhor, e ao Belenenses, que ia receber uma verba pela transferência para poder pagar os ordenados que tinha em atraso.

Fernando Mendes chegou a acordo com o Rayo Vallecano que apresentou um contrato ao jogador português, na altura com 29 anos: “Fiquei com viagem marcada para Madrid, onde já tinha casa, já me tinham mostrado os colégios para a minha filha e tudo”, recordou o antigo internacional português. Mas o golpe de teatro estava ainda por acontecer. E aconteceu quando Fernando Mendes estava em trânsito para Madrid, com o advogado, onde ia ultimar os pormenores que restavam e entregar o contrato que tinha em mão, já assinado.

Como resultado da grande época realizada ao serviço do Belenenses, Fernando Mendes foi distinguido com o prémio de melhor lateral-esquerdo da Primeira Liga pelo jornal “Público”. A cerimónia de entrega dos prémios foi organizada pelo casino de Espinho e Fernando Mendes tinha um plano. ‘Passamos por Espinho e depois arrancamos para Madrid”. A verdade é que o jogador nunca passou a fronteira depois de uma visita, inesperada, ao antigo Estádio das Antas.

“O que aconteceu foi que, a caminho de Madrid, passei por Espinho, onde ia receber o prémio de melhor lateral-esquerdo da época, entregue pelo jornal “Público”.

Na viagem de Lisboa para o Porto, de avião, fui com o Porfírio, na altura na UD Leiria, que ia receber o prémio de melhor extremo-esquerdo. Mas quando chegámos ao aeroporto, onde havia uma carro para nos levar para Espinho, onde íamos receber o tal prémio; sou interpelado pelo Sr. Jorge Gomes que me diz que o João Alves quer falar comigo e que temos de ir ‘ali a um sítio”.

Eu olhei para o Porfírio e disse-lhe, ‘olha, encontramo-nos em Espinho’ e meti-me no carro com o Sr. Jorge Gomes. Quando dou por mim estávamos quase no antigo Estádio das Antas. Mas nem assim eu me apercebi do que se iria passar.

Lá entrámos pela porta principal e quando chegámos lá acima, entrámos num escritório e lá estava o João Alves e o Sr. Pinto da Costa, que na altura era também presidente da Liga, fomos apresentados um ao outro e depois perguntou-me para onde é que eu ia jogar.

Eu disse-lhe, ‘olhe vou para o Rayo Vallecano’ ao que ele respondeu, ‘Rayo quê?’, ‘Rayo Vallecano, presidente’. ‘Epá, se é para ires para o Rayo mais vale ires para o Chaves’, disse-me ele.

Eu respondi-lhe, ‘Oh presidente, não é bem assim, o que eles vão pagar lá, o Chaves não pode pagar’. ‘Ai é? Então eu dou-te o mesmo dinheiro para assinares pelo FC Porto’, foi assim.  Assinei contrato ali com o FC Porto e dei-lhe o contrato que tinha com o Rayo. Ele pegou no contrato e rasgou-o.

No casino de espinho tinha os espanhóis à minha espera para no dia a seguir irmos para Espanha. Aquilo foi uma confusão terrível. Eu disse, ‘e agora o que é que eu faço?’, ao que o Sr. Pinto da Costa responde, ‘não te preocupes com isso, que eu trato do assunto’.

Quando fui receber o prémio, subi ao palco, chamado pelo Júlio Magalhães, que é apresentador do “Porto Canal” por estes dias; que me anuncia da seguinte forma: “agora o prémio de melhor lateral-esquerdo é para Fernando Mendes, o próximo lateral-esquerdo do FC Porto.”

E foi assim, os dirigentes do Rayo Vallecano estavam lá e foi assim que souberam que eu já não ia. Mas recebi o prémio, o pessoal do FC Porto, meteram-me num carro que estava lá à minha espera e trouxeram-me para Lisboa, para não ter de explicar a situação aos espanhóis. Nunca mais ouvi falar neles.”

Fernando Mendes - em baixo, o primeiro a contar da direita - com as cores do FC Porto. Foto: Facebook/Fernando Mendes

Aos 29 anos descobriu que era um exímio marcador de livres diretos

No FC Porto, Fernando Mendes venceu três campeonatos, uma Taça de Portugal e uma Supertaça Cândido de Oliveira. Os anos que passou na cidade Invicta “foram os melhores” durante a sua carreira como futebolista. Ficou encantado com a organização do clube e nunca jamais esquecerá “o melhor presidente do Mundo”. Aos 33 anos deixou o FC Porto sem qualquer mágoa, pese embora nunca lhe ter sido prestada qualquer justificação. “Não me disseram nada, mas cumpriram com tudo”, esclarece Fernando Mendes.

Para além dos títulos e dos grandes momentos vividos de dragão ao peito, Fernando Mendes descobriu uma qualidade até então desconhecida: a marcação de livres diretos.

Aconteceu exactamente numa partida diante do Boavista, no Bessa, a 23 de março de 1997. O habitual marcador de livres no FC Porto era Barroso – o pontapé canhão – que nesse dia não tinha ido a jogo. O que aconteceria normalmente era ser Rui Jorge, neste caso, a bater o livre, mas naquele dia Fernando Mendes empertigou-se e pediu ao colega para bater o livre. Resultado: golo, e que golo. Menos de dez minutos volveram e novo livre perto da área. Fernando pensou, ‘quem bate um, bate dois’ e voltou a pedir a Rui Jorge, que mais uma vez acedeu ao pedido do colega. Resultado: mais um golaço. Estava feito o 2-0 com que o FC Porto venceu essa partida.

“É curioso que só me aproveitaram na marcação de livres depois dos 29 anos. Acontece que quando passei pelo Sporting e pelo Benfica era miúdo, e como estavam lá jogadores mais consagrados não deixavam os miúdos bater os livres.

A descoberta deu-se num Boavista-FC Porto, onde eu, já no Porto, marquei os dois golos com que ganhámos esse jogo. Quem marcava os livres do FC Porto nessa altura era o Barroso, e quando era mais a jeito para o pé esquerdo era o Rui Jorge. Mas nesse jogo, no Bessa, o Barroso não jogou, e o Rui Jorge, que jogou a médio nesse jogo, deixou-me bater. Era ele que ia bater o primeiro livre e eu pedi-lhe para ele me deixar bater. Ele deixou.me bater e marquei golo. Passados cerca de dez minutos há outro livre perto da área e sou eu que marco outra vez e a bola dentro da baliza outra vez.

Depois, a partir daí, comecei a bater livres.”

O único jogador que vestiu as camisolas dos cinco clubes campeões em Portugal e experiência com Jorge Jesus.

Fernando Mendes conseguiu a proeza de jogar nos três grandes clubes de Portugal. Formou-se no Sporting, conquistou o seu primeiro título de campeão nacional com a camisola do Benfica e consagrou-se ao serviço do FC Porto. Mas a carreira de Fernando Mendes não se limita às passagens pelos grandes. Além de ter sido internacional português por onze vezes, o lateral-esquerdo passou por clubes como Vitória de Setúbal e Estrela da Amadora.

Mas o ramalhete completa-se com as passagens, com sucesso, por Boavista e Belenenses. Este facto torna Fernando Mendes o único futebolista a atuar pelos cinco clubes campeões em Portugal: Sporting, Benfica, Boavista, Belenenses e FC Porto, algo que deixa o, agora, comentador televisivo “cheio de orgulho”. Tem como grande arrependimento na carreira a saída do Sporting para o Benfica, mas nem sempre as coisas correm da forma esperada.

Em 2002 deixou o futebol profissional depois de duas épocas ao serviço do Vitória de Setúbal onde cumpriu o sonho de acabar a carreira na cidade onde nasceu e teve a oportunidade de trabalhar com Jorge Jesus, sem dúvida o melhor treinador com quem se cruzou.

“Tive o privilégio de trabalhar com o Jorge Jesus e posso dizer que se tivesse trabalhado com ele aos 20 anos tinha passado pouco tempo no futebol português. Aprendi mais com ele aos 35 anos do que com a maioria dos treinadores com quem trabalhei ao longo da minha carreira. É um treinador fantástico.”

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