Prolongamento
Evolução do futebol feminino em Portugal culmina em participação inédita no Euro
2017-06-30 19:00:00
A Seleção Nacional feminina vai participar, pela primeira vez na história, numa fase final de uma grande competição

A Seleção A de futebol feminino portuguesa vai pela primeira vez marcar presença na fase final de uma grande competição, o Europeu deste ano, que tem início marcado para o mês de julho, qualificação que teve como base um processo evolutivo levado a cabo pela Federação Portuguesa de Futebol, que começa a colher frutos, tanto em seniores como nas camadas jovens. O aumento da competitividade no campeonato nacional, aliado a um crescimento significativo do número de jovens praticantes, permite olhar para um futuro áureo do futebol feminino em Portugal.

Com a preparação para o Campeonato da Europa já a decorrer, sendo que a concentração com vista à competição começou no início desta semana, o Bancada esteve no treino da Seleção na passada terça-feira (que não contou ainda com a presença de Cláudia Neto, Amanda da Costa, Carolina Mendes e Suzane Pires, em compromissos dos respetivos clubes), realizado na Cidade do Futebol. Uma sessão na qual foi percetível o estado de espírito do grupo para a inédita participação na fase final de uma grande competição, mas também o trajeto que tem vindo a ser desenvolvido pela Federação com o intuito de aumentar e dar maior visibilidade ao futebol feminino, num país que ainda está um pouco longe, nesta matéria, dos restantes europeus. Porém, tal discrepância tem vindo a decrescer de ano para ano, especialmente desde 2015.

“Ainda estamos muito longe do patamar europeu, mas temos crescido de uma forma sustentada, que é aquilo que queremos.” Quem o diz é a Diretora para o Futebol Feminino da Federação Portuguesa de Futebol, Mónica Jorge, que explicou, enquanto decorria o treino da Seleção, a evolução que o desporto-rei tem tido junto da população feminina em Portugal. “De há dois anos para cá, duplicámos o número de praticantes, agora já passámos a barreira das quatro mil [4062 praticantes, números de fevereiro], nunca tínhamos chegado a esta fase, mas esperamos continuadamente aumentar, de uma forma gradual, sustentada e com um balanço equilibrado.”

A importância que o aumento de praticantes tem para a prosperidade do futebol feminino em Portugal é corroborada por Francisco Neto, selecionador nacional desde 2013, que conseguiu a proeza de colocar, enquanto timoneiro, a Seleção A pela primeira vez numa grande competição. “Aquilo que mais nos satisfaz neste projeto que a Federação tem implementando, é o aumento do número de praticantes - o que para nós era preocupante e agora é favorável - e a promoção e divulgação que cada vez mais o futebol feminino tem”, começou por referir.

“Hoje em dia, há mais raparigas jovens a quererem jogar futebol, cada vez mais há treinadores a quererem vir para o futebol feminino, há clubes a quererem ter futebol feminino e isso é nota daquilo que é o crescimento da modalidade”, salientou Francisco Neto em declarações ao Bancada, após um treino pautado pela posse de bola e por aprimorar a finalização das futebolistas portuguesas.

A constatação de que o futebol feminino tem vindo a ganhar terreno no país está também patente na mente das próprias futebolistas, como é o caso de Ana Borges, futebolista do Sporting, vencedora do galardão das Quinas de Ouro para jogadora portuguesa do ano 2016 e a segunda mais internacional das pré-selecionadas para o Europeu (93 compromissos disputados ao serviço da Seleção Nacional). “Em Portugal, o futebol feminino está a evoluir significativamente. O trabalho que está a ser desenvolvido pela Federação, pelas associações, pelos clubes, é muito bom”, considerou Ana Borges em conversa com o Bancada, após um treino produtivo.

              
Treino da Seleção A de Futebol Femino, no dia 27 de junho, na Cidade do Futebol. Foto: Bancada

Aumenta a competitividade, aumenta a qualidade

A curva evolutiva de que o futebol feminino em Portugal tem sido alvo provém também de um aumento de competitividade que tem tido lugar no campeonato nacional. A introdução, na última época, de clubes como o Sporting (campeão e vencedor da Taça de Portugal), SC Braga, Estoril-Praia, a juntar a Futebol Benfica, Valadares Gaia e Boavista, entre outros, foi fulcral para a dimensão que a modalidade está a começar a ter.

“O facto de a Liga ter agora equipas com algum renome no panorama nacional desportivo e a nível de futebol, acaba por ser mais mediático por valorizar muito a imagem do futebol feminino em Portugal nesta época. Isto apesar de todos os clubes, foram 14 este ano na Liga, fazerem esforços no sentido de promover a imagem do futebol feminino”, atestou Mónica Jorge, que esteve também no cargo de selecionadora entre 2007 e 2012.

O recorde de assistência atingido este ano na final da Taça de Portugal, entre Sporting e SC Braga, foi um dos pilares que assenta nas aspirações dos apaixonados da modalidade com vista a um futuro promissor. Estiveram nas bancadas do Estádio do Jamor, a assistir ao encontro decisivo, 12.213 espectadores, números que impressionaram Ana Borges, uma das presentes dentro das quatro linhas. “Há dois anos ou até no ano passado seria impensável ter 12 mil pessoas no Jamor e isso é uma mais-valia para nós.”

Ana Borges em competição pela Seleção Nacional. Foto: FPF

O crescimento de competitividade no seio do futebol feminino português é, o facto, uma situação benéfica para o futuro, a curto e longo prazo, da Seleção Nacional. “Temos uma Liga a crescer com o número de jogadoras, esperemos por aí que a competitividade também aumente, que é algo que para nós, enquanto Seleção, também é importante”, vincou o selecionador Francisco Neto.

“Dignificar a camisola e deixar uma boa imagem”

Iniciada a preparação, a Seleção Nacional tem então em vista o Europeu, que começa a 16 de julho. Com uma convocatória de 25 jogadores, o selecionador terá ainda que cortar dois nomes para a lista final para a prova. Sendo esta a primeira participação numa competição deste nível, a equipa das quinas irá partir para a Holanda a 15 de julho, local onde irá decorrer a prova, com objetivos moderados, mas determinados.

Crédito: FPF

“Acima de tudo pretendemos um bom desempenho, honrando a camisola, empenhando e dando sempre o máximo em cada jogo”, são metas traçadas e confidenciadas pelo selecionador Francisco Neto ao Bancada. Os objetivos propostos a priori vão ao encontro do trajeto que a equipa das quinas tem vindo a consolidar desde a fase de qualificação, nas palavras do timoneiro português. “Propusemo-nos que a cada jogo teríamos um Portugal ao mais alto nível, ou pelo menos tentá-lo, e é esse o nosso propósito, tentar em cada jogo sermos melhores que no jogo anterior, no sentido de podermos ultrapassar as dificuldades que vamos encontrar.”

A turma nacional vai entrar no Europeu como a seleção com ranking FIFA mais baixo (38.ª posição), fator que não abala a mentalidade da comitiva, mas que leva a apontar o foco a jogo após jogo. “Sabendo nós que somos a Seleção que vai pela primeira vez e que se encontra mais abaixo do ranking entre as presentes no Europeu, pensamos jogo após jogo, não temos metas. Temos que ser nós mesmas e dar uma boa imagem, não só por nós, mas acima de tudo por Portugal e no fim fazemos as contas”, reiterou Ana Borges, uma das vozes da seleção com maior experiência a nível internacional.

As pretensões da Federação vão ao encontro das apontadas pela comitiva portuguesa, sem objetivos de resultados vincados, mas com metas de orgulho traçadas, nas palavras de Mónica Jorge. “Queremos deixar a nossa marca e dignificar a camisola portuguesa no Europeu. Sabemos as nossas fraquezas e mais-valias, mas acima de tudo dignificar a camisola e deixar a nossa equipa e seleção bem vista, mostrando às outras equipas que temos futuro e iremos chegar ao patamar onde eles estão.

Esta comitiva portuguesa será a primeira a marcar presença numa fase final de uma grande competição, um feito que não podia ter sido alcançado sem o trabalho e esforço das gerações que surgiram até então. “Não representamos só o nosso sonho, mas também o sonho de outras gerações, que também lutaram por isto [primeira qualificação para um Europeu feminino de Seleções A]”, apontou Cláudia Lima ao Bancada, minutos antes de iniciar o aquecimento para o treino matinal de terça-feira. A jogadora do Boavista, de 20 anos, sofreu posteriormente à conversa com o Bancada, uma lesão, mais precisamente uma entorse no joelho direito, infortúnio que impede Cláudia Lima de participar no Europeu. Para o lugar da centrocampista, Francisco Neto chamou Cristiana Garcia para integrar a lista de pré-convocatória para a competição.

Inglaterra, Espanha e Escócia no caminho das quinas

Portugal tem pelo caminho, na fase de grupos do Europeu, duas seleções de top-15 do ranking FIFA, a Inglaterra (6.ª posição) e a Espanha (14.º lugar), e ainda a Escócia (21.ª), naquele que se perspetiva como um “grupo extremamente difícil”, segundo referiu o selecionador. “Vai ser um grupo cheio de dificuldades, onde cada adversário tem um padrão de problemas completamente distinto e isso também terá que fazer com que Portugal consiga resolver esses problemas díspares que vai encontrar em cada jogo”, referiu o timoneiro português, que prosseguiu com uma análise mais pormenorizada aos adversários na competição.

“Há duas seleções – Inglaterra e Espanha – nitidamente com patamares superiores, no sentido que são equipas que têm já ido às fases finais de campeonatos do mundo e de campeonatos da europa. São equipas muito experientes, com jogadoras em muitos clubes profissionais e têm estado e demonstrado estar ao mais alto nível. A Escócia também tem um grupo de jogadoras que competem na Liga Inglesa, muito competitivas”, considerou Francisco Neto.

O selecionador Francisco Neto em pleno treino da Seleção Nacional. Foto: FPF

Considerando ser esta uma participação inédita, a ansiedade antes do início da prova é um fator que pode ter algum peso na preparação. Ainda assim, nas palavras da comitiva portuguesa, tal sentimento não está sintetizado junto do grupo, sendo apenas um mero catalisador do facto de estar a aproximar-se o Europeu.

“É um grupo que para já se demonstra tranquilo, motivado e a trabalhar bem. Os dois treinos que fizemos decorreram dentro daquilo que tínhamos planeado. Neste momento ainda não há uma grande ansiedade. Com o aproximar da competição é natural que fiquem ligeiramente, mas estamos cá para as preparar para isso”, destacou Francisco Neto, considerações corroboradas por Ana Borges.

“Desde que obtemos a qualificação, nós queremos que chegue o momento. No entanto, temos que pensar dia após dia e queremos chegar ao Europeu e dar uma boa imagem, estar bem e isso para nós é o mais importante neste momento. Qualificámo-nos pela primeira vez e há sempre aquele [nervoso] ‘miudinho’ em nós, que faz com queiramos chegar ao Europeu e estar lá”, referiu a atacante do Sporting.

“O café e… o bacalhau”

São várias as tradições características do povo português, principalmente no que diz respeito à gastronomia. Ora, o futebol não foge à regra, muito menos a comitiva que se prepara para rumar à Holanda. Nas bagagens da equipa das quinas não irão somente equipamentos… outra das particularidades fulcrais para o desempenho adequado é a alimentação. No hotel destinado à Seleção Nacional não faltará o típico café consumido em Portugal e o bacalhau, dois elementos fundamentais nas palavras do team manager, António Cravinho.

“Vai estar um cozinheiro nosso por lá que diz como queremos a sopa, vamos levar bacalhau para quatro a seis refeições, é uma das partes da ementa de peixe que vai ser mais cozinhada e o nosso chef é que vai dar as instruções. Se fossemos dizer a um holandês para fazer um bacalhau à brás, eles não sabem como é que o haveriam de cozinhar. E vamos levar a nossa máquina de café e café também, que o deles não é como o nosso”, contou ao Bancada, entre risos, o responsável por toda a logística da comitiva que irá disputar o Europeu.

O futuro passa pela formação

A participação da Seleção Nacional A no Europeu atribui uma maior dimensão à prática do futebol feminino em Portugal, fruto da visibilidade que a competição trará à equipa das quinas. Mónica Jorge salientou ao Bancada que considera que o facto de as seleções do país conseguirem qualificar-se para estas grandes provas (em 2012, a seleção sub-19 chegou às meias-finais do Europeu da categoria, em 2013 a sub-17 também foi à fase final do Europeu e agora o feito inédito das seniores) atrairá um maior número de jovens a com pretensões de se tornarem jogadoras de futebol.

De facto, o foco da Federação nas camadas jovens tem vindo a ser uma das, senão a, principais estratégias implementadas em anos recentes. “Há três anos atrás, acabámos o nosso plano estratégico, há dois começámos a implementar alguns programas, não só a nível de seniores, mas também de formação e tem vindo a resultar muito bem”, referiu a diretora da entidade. “Este ano já foi o segundo do campeonato nacional de juniores em futebol de nove, prova que não existia, além de que no campeonato o número de equipas de um ano para o outro duplicou”, salientou ainda.

Ora, não somente ao nível de juniores, como também em escalões mais jovens, a FPF tem introduzido competições, como a taça nacional sub-15 feminina. “Este ano começámos a taça nacional sub-15 feminina, mais uma prova que se inicia com fase distrital e depois nacional. A existência desta oferta de mais competições na formação acaba por motivar as atletas e também os clubes a terem ainda mais praticantes”, evidenciou Mónica Jorge, revelando ainda que a adesão positiva no escalão vai levar à criação de uma seleção feminina de sub-15, de forma a que o talento seja detetado desde tenra idade, pelo que o escalão sub-13 também está na mira da Federação.

   
A diretora para o futebol feminino da FPF, Mónica Jorge. Foto: FPF

Estratégia que marca também o desenvolvimento e evolução do futebol feminino em Portugal é a criação de centros de treino, que já vão no segundo ano consecutivo de existência. Ao assistir de longe, nas bancadas, às futebolistas da Seleção Nacional a treinarem, Mónica Jorge explicou ao Bancada em que consistem estes centros, que já colheram e esperam colher frutos num futuro a curto e longo prazo.

“Cada associação, uma vez por semana, tem o seu centro de treino de futebol feminino para todos os talentos do distrito. Durante seis meses, há um treino por semana, com vista a aumentar as qualidades, identificar valores para o futebol feminino, mantendo esta ligação entre os centros de treino – geridos pelos coordenadores técnicos das Associações – e a equipa técnica nacional. Estamos a falar de cerca de mil atletas que passam nestes centros de treino”, eis palavras da diretora da FPF, que fazem prever um futuro risonho para o futebol feminino em Portugal.

A realizar o último estágio de preparação com vista ao Europeu, a Seleção Nacional de futebol feminino parte rumo à Holanda a 15 de julho, para disputar pela primeira vez na história uma grande competição. O primeiro duelo na competição será diante da Espanha, agendado para o dia 19. Com a evolução, aqui detalhada, que o futebol feminino tem vindo a conhecer, em tempos recentes, em Portugal, será esta participação numa fase final um sinal daquilo que estará por vir no futuro? Para já, as atenções estão somente centradas num trajeto digno de honrar a camisola, com o foco a estar presente jogo a jogo, minuto a minuto, segundo a segundo, dentro das quatro linhas.

Lista de pré-convocatória para o Europeu:

Guarda-redes: Rute Costa (SC Braga), Patrícia Morais (Sporting), Jamila Martins (CF Benfica);

Defesas: Carole (BV Cloppenburg), Matilde Fidalgo (CF Benfica), Mónica Mendes (FC Neunkirch), Sílvia Rebelo (SC Braga), Raquel Infante (Levante);

Médios: Amanda da Costa (Boston Breakers), Andreia Norton (SC Braga), Cláudia Neto (Linköpings FC), Cristiana Garcia (SC Braga), Dolores Silva (USV Jena), Diana Gomes (Valadares Gaia), Tatiana Pinto (Sporting), Fátima Pinto (Sporting), Mélissa Antunes (SC Braga), Vanessa Marques (SC Braga).

Avançadas: Ana Leite (Bayer Leverkusen), Ana Borges (Sporting), Carolina Mendes (Grindavik FC), Diana Silva (Sporting), Jéssica Silva (SC Braga), Laura Luís (USV Jena), Suzane Pires (Santos FC).