Prolongamento
Douala: um homem arrependido e com histórias da Taça UEFA perdida pelo Sporting
Diogo Cardoso Oliveira
2018-05-10 21:00:00
Este rapazola de 39 anos conta-nos, num português respeitável, que a final perdida com o CSKA teve um episódio estranho.

Lembra-se de Roudolphe Douala? Apostamos que sim. Foi um craque com muitos anos de Liga Portuguesa e que, no Sporting, jogou a célebre final da Taça UEFA, perdida em 2005, em Alvalade. Ao Bancada, este rapazola de 39 anos conta, num português muito respeitável, que essa final teve um episódio estranho, com Peseiro, que o Sporting nem sempre foi exemplar com ele e que gosta de treinadores que falem da vida. Tudo isto dito por um homem com uma alcunha curiosa. Coisas a ler mais à frente.

Aqui na redação, quando se disse o nome “Douala”, a reação geral foi: “Eh pá, o mítico Douala. Ao tempo que não ouvia falar desse craque”. Fomos, então, ao Estádio de Alvalade ver se as pessoas ainda se lembram dele. Tal como esperávamos, não foi difícil falar deste camaronês. “Douala? Não me lembro”, começa por nos dizer o Sr. Joaquim, sócio de uma geração mais antiga, mas rapidamente isto muda: “Eu lembro-me. Era aquele preto que corria para c******”. Não leve a mal a linguagem utilizada pelo Miguel, sócio mais novo, porque isto foi dito como o maior dos elogios. O mesmo adepto acrescentou: “O gajo jogava nas horas. Muito bom. E acho que chegou a jogar a final da Liga Europa”. Caro Miguel, estás meio certo. Jogou nesse jogo, sim, mas ainda era Taça UEFA. É só um pormenor. Rafael, que o acompanhava, também se lembra: “Então não? Grande velocista, o Douala. Lembro-me de haver um adepto com lugar ao pé de mim que tinha uma camisola com o nome dele”.

Questionado sobre se o Sporting foi o clube que mais o marcou, Douala respondeu sem hesitação. “Foi o Sporting, sem dúvida. Mostrou-me ao Mundo e fez-me descobrir o Mundo do futebol. Também foi pelo Sporting que cheguei à seleção dos Camarões. A partir daí, toda a gente se lembra do Douala do Sporting. Estava no top da minha carreira”, recorda, garantindo que, ainda hoje, há sempre gente que o reconhece em Lisboa.

Mas já vamos ao percurso nos leões. Antes disso, já alguém tinha olhado para Roudolphe Douala M’Bele, rapaz nascido há 39 anos em… Douala. Sim, Douala nasceu em Douala, cidade na costa ocidental dos Camarões. Chegou a Portugal em 1998, para jogar no Boavista. Ao Bancada, o camaronês recorda esse processo. “Estava nas camadas do Saint-Étienne e, num torneio na Suíça, estava lá o Boavista. Acabei por ser o melhor jogador do torneio e o Jaime Pacheco gostou de mim”, começa por contar, acrescentando: “Na altura, fui ganhar muito dinheiro, ainda em escudos. Para mim, pelo menos, era muito dinheiro. Tinha 19 anos”.

Pausa na história. Desafiámos Douala para algumas perguntas de resposta simples. O camaronês fez questão de explicar cada uma. Vá, não era bem esta a ideia, mas nós fechamos os olhos a isso, caro Douala.

Treinador que mais o marcou: “Não posso dar um. Há muitos que me marcaram. Não eram treinadores da bola, falavam da vida. O Vítor Oliveira, o Manuel Cajuda… tínhamos conversas que não eram só bola”.
Melhor jogador com quem jogou: “Samuel Eto’o era muito bom”
Adversário mais difícil de enfrentar: “Diria todos os defesas rápidos, que não me permitiam passar na velocidade”. Depois de pensar uns segundos, lá sacámos um nome: “Posso dizer o Paulo Ferreira”.
Melhor momento da carreira: “Com a seleção camaronesa, em África, em 2005. Fomos jogar contra a Costa do Marfim. Era no campo deles e tínhamos de ganhar para ir ao Mundial 2006. Ganhámos esse jogo lá, fiz um grande jogo. E houve outro, pelo Sporting, que também me marcou. Foi quando fomos ganhar em Alkmaar, para a Taça UEFA. O apoio que tivemos no aeroporto foi incrível”.
Pior momento da carreira: “Foi também com os Camarões. Na classificação para o Mundial precisávamos de uma vitória e o Egito já não tinha nada por que jogar. Falhámos um penalti no último segundo. Foi a pior das coisas que podia acontecer”.

Douala esteve no Boavista, mas acabou por ser emprestado ao Aves e, depois, ao Gil Vicente e à União de Leiria. Foi nestes clubes que se cruzou com Vítor Oliveira e Manuel Cajuda, treinadores que, mais à frente, muito vai elogiar.

"Até poderia ter ido para lá e, mais tarde, voltar, como fez o Rochemback”

Depois de mostrar muito talento na União de Leiria, Douala foi pescado pelo Sporting. Chegou a fazer dupla de ataque com Liedson. Com Peseiro, o ala Douala – jogador supersónico de corredor – tornou-se um segundo avançado, muito móvel, e chegou a fazer oito respeitáveis golitos na primeira temporada. Nada mau. Apesar de não jogar colado ao corredor, Douala assume que era mesmo com a velocidade que fazia a diferença, tal como nos disseram os adeptos nas imediações de Alvalade: “Todos os jogadores profissionais sabem jogar à bola. Não conseguem lá chegar se não souberem. Depois, cada jogador tem uma coisa que o diferencia. A minha era a velocidade”

Douala acabou por não conseguir fixar-se no Sporting, sobretudo depois de Paulo Bento ter substituído José Peseiro. “Nunca falámos sobre isso [jogar pouco]. O Paulo Bento só me dizia que eu fazia parte do plantel”.

Voltamos a Alvalade. Questionámos um par de adeptos sobre o que achavam que tinha falhado com Douala. "Sinceramente não sei, já não me lembro bem. Mas acho que ele no final já nem era titular", tenta recordar-se um sócio leonino, enquanto outro consegue detalhar, qual treinador de bancada: "Ele vivia muito da velocidade. Talvez o avançar da idade o tenha tornado mais previsível e, por isso, menos influente. Mas eu até gostava dele".

Meses antes, depois da final da Taça UEFA, Douala garante que teve a possibilidade de sair para o Middlesbrough, de Inglaterra. É o maior arrependimento que tem. “Existiu essa possibilidade. Foi um erro da minha carreira. Privilegiei o aspeto o desportivo – íamos jogar a Liga dos Campeões –, além de que estava bem com a minha família. Em Inglaterra pagavam-me muito bem e, se voltasse atrás, iria para lá. As coisas não correram como eu previ e estou muito arrependido. Até poderia ter ido para lá e, mais tarde, voltar, como fez o Rochemback”, recorda, antes de assumir: “Sim, claro que sinto que a minha carreira poderia ter ido mais longe”.

Douala com a mítica versão "SECIL" da União de Leiria

Douala recusou sair, após a tal final da Taça UEFA, mas, depois de ser pouco utilizado por Paulo Bento, acabou mesmo por sair. E para Inglaterra. O problema é que… nem ele sabia. 

“Eu não queria sair. Fui obrigado. Estava com a seleção, em África, e era o fim do mercado. Recebi uma chamada do Portsmouth, a dizer que eu ia para lá emprestado. Eu nem sabia nada e só queria saber alguma coisa. Nem uma hora tinha para decidir porque o mercado ia fechar 30 minutos depois”.

O que nasce torto, tarde ou nunca se endireita, já diz o povo. E foi mesmo assim. No Portsmouth, nada correu bem. "O treinador [Harry Redknapp] nem olhava para mim. Fui para lá, mas o treinador não me queria. Não percebo. Eram 40 jogadores no plantel e ele nem falava comigo”.

Depois de um regresso a França (Saint-Étienne) e de passagens curtas por Grécia (Asteras) e Bélgica (Lierse), Douala dedicou-se ao pós-futebol. “Estou a tirar o curso de treinador”, conta-nos, apesar de acrescentar: “Quero ser empresário de jogadores”. Em Portugal? “Para isso pode ser em todo o Mundo [risos]. Mas claro que conheço bem Portugal”.

"Doudoupelé" em silêncio

Pedimos a Douala uma história que o tenha marcado, no futebol, e uma alcunha. Disse-nos que lhe chamavam “Doudoupelé” e recordou as horas antes da final da Taça UEFA, em 2005.

“Por acaso lembro-me de uma na final da Taça UEFA, com o Sporting. A seis horas do jogo, ainda não sabíamos quem ia jogar a final. Quando soubemos, vimos que quatro ou cinco jogadores que jogaram muito durante a campanha ficaram no banco. Foi um ambiente estranho no balneário e no banco. Estávamos a jogar uma final e ninguém falava. Acho que um dia antes deveríamos saber quem ia jogar. Era uma situação estranha”.

Só por curiosidade e para isto não cair em saco roto, fomos ver os registos dessa campanha e desse jogo. Dos onze jogadores mais utilizados, três ficaram no banco: Polga, Rui Jorge e Douala. Entraram Miguel Garcia e Rodrigo Tello - pouco utilizados até aí -, mais o bastante utilizado João Moutinho. Já agora, o onze utilizado na final perdida frente ao CSKA foi: Ricardo; Miguel Garcia, Enakarhire, Beto, Tello; Rogério, Rochemback, Moutinho, Pedro Barbosa; Sá Pinto e Liedson.

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