Prolongamento
Desmistificando preconceitos: o tamanho não é assim tão importante
João Pedro Cordeiro
2018-11-05 22:30:00
No caso do guarda redes muitos ainda associam altura à qualidade. Uma avaliação redutora e sensacionalista.

Tal como havia sucedido em 2014 quando o FC Porto anunciou a chegada ao Dragão do jovem mexicano Raúl Gudiño, a contratação de Yee Sun Ng por parte do Sporting há poucas semanas centrou-se mais no debate relativo à altura do jovem de 15 anos do que propriamente nos seus atributos técnico táticos. De Yee Sun Ng pouco se sabe a não ser os seus atributos físicos, afinal, o jovem de 15 anos é já um gigante com o seu metro e 95 centímetros. Deste modo resolvemos tentar desmistificar uma das grandes dúvidas da humanidade: é o tamanho realmente importante? O dos guarda redes e jovens jogadores, isto é.

“Não vamos ser puristas: importa. É um factor morfológico que pode ser distintivo entre dois atletas. Contudo, no momento da análise para a recruta (por exemplo) não é uma interpretação que deva ser exclusiva e preponderante. É algo que não é controlável no processo evolutivo do guarda-redes e não podemos cometer essa análise injusta, apesar de acontecer nos clubes onde tenham mais posses e poder de recrutamento. Deve ser um complemento a uma análise “per si” a cada característica do guardião, mas não acontece isso no mundo real. O tamanho importa na sociedade, na minha cabeça e forma de pensar é um complemento ao que acho que é “ideal” um guardião ter, claro que adaptando ao modelo de jogo que o pretendo inserir. É uma análise muito complexa para estar a desconstruir num pequeno ponto como o da altura”, diz-nos Gonçalo Xavier, analista e treinador de guarda redes e blogger na página Última Barreira.

“Tudo o que sejam análises unidimensionais e de cariz apenas atlético, são uma avaliação desvirtuada da realidade do jogo em si (que é o que determina se o guarda-redes é bom, ou não) por só contemplar uma característica específica. Aqui foi notícia, por ser chinês, ter 15 anos e 1.94m, cria alguma perplexidade e tenho de admitir que dá bons títulos nas notícias por ser tão diferente. Mas daí a se depreender que ele é incrível e de potencial tremendo, como muito li naqueles dias, por ser tão alto e tão jovem… talvez sejam premissas que possam facilmente ser quebradas nas conclusões tiradas após a visualização de um jogo seu”, diz-nos ainda.

Reduzir a capacidade de um guarda redes - e até de jogadores de campo - à sua altura, como às vezes parece ser o caso é, tal como para Gonçalo, algo redutor mas que não pode ser dissociado da análise, diz-nos Pedro Espinha, treinador de guarda redes do Lyn da Noruega: “O tamanho é, em certas e determinadas situações do jogo, um factor que poderá trazer vantagens ou desvantagens a um guarda-redes, logo não é uma concepção nem errada nem obsoleta, diria antes desactualizada na medida em que tens guarda-redes de alta competição que têm 1,83m (Ospina), Bravo (1,85m) na EPL e em Portugal tens o caso do Casillas (1,85m) mas que apresentam uma grande capacidade de adaptabilidade ao que o jogo lhes apresenta. Foram sendo valorizados dessa forma, a entender o jogo para o resolver de outra forma e com recurso a outros meios. Até, historicamente, tens guarda-redes como o Peter Shilton (1,83m) ou o Sepp Meyer com 1,85m e que já na época deles tiveram de provar que conseguiam estar ao mais alto nível num jogar muito diferente. Não entro pelos exemplos do estilo Jorge Campos (1,69m) porque esses acabam por ser exemplos que são importantes na medida em “romantizam” o jogo, pouco mais. O importante em toda esta questao é compreender se a morfologia do guarda-redes vai afectar o estilo de jogo da equipa. Isso já é outra questão bem diferente”.

Nem o Gonçalo ou o Pedro, porém, rejeitam que ao longo dos anos essa análise exclusivamente morfológica tenha resultado na perda de alguns valores cuja altura não acompanhou os restantes recursos técnico-táticos: “Perdem-se. A curto e longo prazo. Porque para os “gigantes” serem apostas, aqueles que têm a confiança de toda uma estrutura de scouting e de direcção, muitos outros ficam pelo caminho na captação, e outros durante as épocas na sombra desses mesmos. Mas é um caminho fácil porque a análise aos mesmos atletas é redutora por contemplar como maioritário um factor físico como o da altura. É como num excel em que filtramos pelo que queremos e ficam omissos nomes que podem ter um imenso talento mas não têm a oportunidade de o mostrar porque a fita métrica não estica…” desabafa ao Bancada Gonçalo Xavier.

“Eu acho que, provavelmente, ao longo dos anos se foram negligenciando possívelmente alguns talentos. A génese da questão é, no entanto: “porque é que se foram perdendo alguns talentos na formação com esta questão da morfologia e da maturação precoce dos Guarda-Redes em detrimento da formação dos Guarda-Redes como Jogador de Futebol”. Obviamente que, como já referi, a questão morfologia/ maturação precoce trás associada a questão da vantagem táctica”, diz-nos Pedro Espinha.

O técnico de 33 anos, que deixou a posição de treinador adjunto do Stabaek - e da liderança da equipa sub-19 feminina -, clube primodivisionário da Noruega para abraçar o projecto do Lyn na terceira divisão confessa ao Bancada entender a aposta num guarda redes jovem tão alto, como no caso de Yee Sun Ng, e que tal pode estar relacionado com questões culturais do futebol português: “Consigo entender a vantagem de ter um miúdo de 15 anos com 1,90m, já que o treino do guarda-redes ainda poderá ser visto como um processo em que uma abordagem mais técnica e física em algumas realidades, poderá trazer vantagens imediatas, mas associada a um problema grave que é tabu em Portugal há vários anos que é o resultadismo crónico que se vive na formação, desde idades mais tenras, até às mais avançadas. Como desperdiçamos energias a olhar o objectivo vitória, na formação, de uma forma tão desmedida, esquecemo-nos de que a formação do atleta não tem só em vista as jornadas que ele vai disputar em relação ao jogo que tem naquele final de semana... tem a ver com uma formação continuada, alicerçada em princípios básicos da sua equipa e da sua forma de jogar e deve ser balizada na entrada daquele atleta, dos 6 até aos 19/20 na primeira equipa do seu clube. Alguns cairão durante esse processo, é praticamente inevitável, mas isso vem enriquecer o jovem atleta: o cair, levantar-se, procurar outra equipa, encontrar e corrigir lacunas, render semana após semana. Isso é o processo de formação de um jovem guarda-redes, junto do seu treinador específico.

“E depois há outro aspecto: hoje em dia a medicina desportiva e o scouting juvenil já está tão avançado que podemos, com relativa exactidão, prever se vamos ter um guarda-redes de 1.85m, de 1.90m ou de 1.70m após o salto pubertário daí que possamos, ao invés de condicionar e ir por um caminho de performance em prol da formação, adoptar uma via de formar para jogar bem. Jogar bem é saber interpretar o jogo, conseguir antecipar situação e reagir a elas e para isso é necessário haver um trabalho mais profundo e incisivo para incluir o guarda-redes (o jogador e o Homem que é e virá a ser) no jogo da equipa (modelo de jogo). Se isto acontece, não só o guarda-redes apresentará mais valências para lidar com as suas questões ao nivel da morfologia mas também a equipa ganhará outro tipo de vantagens, como um guarda-redes capaz de abordar o jogo de determinada forma e com competência para o fazer” acrescenta ainda ao Bancada, Pedro Espinha.

Mas haverá diferença entre aquilo que os clubes querem e procuram, e aquilo que o público/imprensa entende ser a morfologia ideal de um jogador/guarda redes? “Não. Aliás, no que toca a guarda-redes, é raro haver uma concordância tão legítima como essa. É como gostarmos de Guardiola ou Sarri, é fácil alguém dizer que o guarda-redes tem de ser alto. É quase verdade universal. Nesse sentido não podiam estar mais alinhados…”, defende Gonçalo Xavier.

Como é que se explica que em 2018 ainda exista tendência para preferir o jogador mais maturado e fisicamente mais imponente? Tem isto tem reflexos na forma de trabalhar na formação e/ou pode ter consequências futuras na qualidade dos jogadores? Para Gonçalo Xavier, tal como para Pedro Espinha, é uma questão cultural e está mais uma vez relacionada com o resultadismo desde os escalões mais jovens da formação de jogadores.

“Pela necessidade de ganhar a curto prazo, até nos escalões de formação onde aprendem os rapazes cedo a terem que ganhar e não a ter paixão pelo jogo (por exemplo), e essas exigências vão além da equipa técnica, mas sim das direcções. Dá jeito encher no futebol o museu de troféus mesmo que não se tenham activos futuros saídos dessas gerações campeãs. Mas a procura da maturação precoce leva à criação de expectativas desmedidas porque esses jovens estão patamares acima nos seus escalões e no futuro são ultrapassados porque a margem de crescimento como guarda-redes é mais curta”, diz-nos.

Por tudo isto, pode concluir-se que o tamanho é importante, mas nunca deve ser decisivo e ao longo dos anos a obsessão pelas vitórias e pela maturação precoce de atletas terá estado na génese da perda de valores cuja habilidade técnica e tática era mais elevada. “É sensacionalismo sim, salientar um guardião, por mera referência quantitativa de um dado como a altura. E dizem que impressiona apenas por isso. E porque acontece? Porque em Portugal, e por aí fora, temos a sensação que para ser um guarda-redes tido como referência que tem de ser um gigante, um “Adamastor” que assuste o adversário pelo seu tamanho, que se reveste de um equipamento diferente e de luvas da última geração. E como existe isto, tal como o estereótipo – e em muitos clubes está mesmo tabelado um mínimo de altura para se jogar no clube –  de que um guardião para ser de valor, tem de ser alto, quando se fala em escalões de formação é ainda mais salientado”, escreveu Gonçalo Xavier. Encerre-se o debate, o tamanho importa, mas pouco. É o que se faz com ele.

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