Prolongamento
Desmarets: O homem do bigode, dos autocarros e da "matança" nas férias
2018-04-16 21:00:00
Esteve perto do FC Porto, perto do Benfica e perto do Sporting, mas nunca lá estacionou o autocarro.

Yves Desmarets. Lembra-se dele? Era aquele rapaz francês que passeava um belo bigode pelos relvados portugueses, que foi ídolo no Vitória de Guimarães e que, talvez não saiba, já foi condutor de autocarros. O que nunca conseguiu foi levar o seu autocarro até ao Dragão, à Luz ou Alvalade, apesar de estas três paragens lhe terem passado mesmo à frente. Desmarets é também o homem que, um dia, interrompeu as férias para participar numa “matança” à Cajuda. E que, no ano passado, não estava para se chatear. Deixemos estas historinhas para o final.

Ainda achámos que teríamos de puxar pelo nosso francês, mas, em dez segundos, logo após o cumprimento, percebemos que não seria preciso. Num português a roçar a perfeição, Desmarets explicou-nos quem é este gaulês de 38 anos, que até foi internacional pelo Haiti. Começou a jogar futebol por prazer, nos bairros de Paris, antes de chegar a um clube da quarta divisão, o Les Lilas. “O clube não tinha muito dinheiro e arranjou-me um trabalhar como condutor de autocarros, para me poderem pagar alguma coisa”, conta Desmarets, ao Bancada. Dos autocarros de Paris ao Minho foi uma viagem rápida.

Saiu-lhe do pêlo, com FC Porto, Benfica e Sporting em cima dele

Depois deste percurso por clubes modestos em França (Les Lilas, Red Star ou Poissy), veio o Vitória. Desmarets já tinha 25 anos e subiu vertiginosamente dos bairros e dos autocarros para o complexo de luxo no Minho. Algo que não lhe mudou a personalidade. “Sou uma pessoa muito simples”, começa por se definir, antes de explicar: “O meu percurso mudou a minha vida, mas não mudou a personalidade. Sei de onde vim”.

Esta oportunidade, em Guimarães, custou a ganhar. Em bom português, dizemos que “lhe saiu do pêlo”. E é por isso que, também numa expressão bem portuguesa, Desmarets a agarrou com unhas e dentes. Bem afiados. “Sempre fui muito profissional. Nunca saí muito, nem comia porcarias. Com esta oportunidade de ser jogador profissional, que o Vitória me deu, sempre respeitei a profissão”, garante.

A simplicidade e humildade já estavam bem patentes na ainda curta conversa com Desmarets, mas ficaram ainda mais claras perante a questão “como se define como jogador?”. “Como jogador sou normal. Houve piores, mas também melhores. Sou completamente normal”.

Não nos leves a mal, amigo Desmarets, mas se há coisa que não foste foi normal. Aliás, basta vermos que, no Vitória, foram quatro temporadas com uma média de 33 (sim, leu bem) jogos por época. Tratava-se de um ala canhoto, que também poderia jogar um pouco mais atrás. E até como médio centro chegou a jogar, no Minho. Tinha passe, tinha cruzamento, tinha boa definição, tinha cultura de posição, tinha agressividade, tinha bom remate e até algum golo tinha nos pés. Quisemos, portanto, saber por que motivo nunca vimos Desmarets dar um passo em frente: sair do já grande Vitória para um dos gigantes portugueses. “Estive sempre quase. No primeiro ano, foi o FC Porto. No segundo, o Benfica. E depois ainda veio o Sporting. O Vitória não me deixou sair e eu estava bem e feliz. Nessa altura, o Manuel Cajuda ajudou-me muito. Foi como um pai. Disse-me “ficas aqui connosco. Nós gostamos de ti”. E eu pensei “porquê mudar agora?”. Nunca forcei a saída”, recorda.

“Foi um roubo como eu nunca vi”

Este ex-condutor de autocarros deixou passar a paragem do Dragão, da Luz e de Alvalade, mas nem por isso deixou de guiar um tremendo autocarro minhoto. Desmarets assume que o Vitória foi o clube que mais o marcou: “Foi ali que tudo começou. Senti-me mesmo um jogador. Até hoje, quando voltei a morar em Guimarães, as pessoas se lembram de mim. O Vitória é único, não há igual. Não existe. Foi o clube que me ficou mesmo no coração”. Ainda assim, garante, não se pense que o Vitória é só um mar de rosas. “Quando corre bem, está tudo bem. Quando corre mal, tens de assumir. Vão cobrar”, reconhece, em tom claramente elogioso para com os adeptos vitorianos.

E a relação tão próxima entre o Vitória minhoto e Desmarets teve um episódio marcante. O médio francês fez parte de um dos momentos mais dramáticos da história do clube. A 27 de agosto de 2008, o Vitória foi ao norte da Suíça – lá mesmo no norte, enterrado entre França e Alemanha – jogar o apuramento para a Liga dos Campeões. Estar ali já era um sonho, mesmo depois do 1-1 frente ao Basileia, no D. Afonso Henriques. Stocker marcou para os suíços, Fajardo empatou para os portugueses e Derdiyok deu nova vantagem ao Basileia. Com um golo, o Vitória fazia 2-2 e estaria, pela primeira vez, na fase de grupos da Liga dos Campeões. Desmarets fez os 90 minutos e viu o brasileiro Roberto, já perto do apito final, fazer o desejado 2-2. Seria o golo mais importante da história do Vitória, mas o árbitro assistente do holandês Pieter Vink anulou – e mal – o lance, por fora de jogo.

Para Desmarets, "esse momento não se esquece nem quando se for velho". "Foi um roubo que eu nunca vi. Foi difícil de digerir na nossa vida. Fizemos um jogo espectacular. O fiscal de linha viu algo que, até hoje, ninguém viu. O Vitória não merecia isso", acrescenta.

Este rapaz gosta mesmo de Cajuda...

Pausa na história para um momento mais lúdico. Desafiámos Desmarets para uma série de perguntas de resposta rápida. Mais uma vez, Manuel Cajuda veio à baila.

Melhor treinador: Cajuda.
Melhor jogador com quem jogou: Valerón
Defesa mais difícil de ultrapassar: Puyol
Melhor momento da carreira: conseguir jogar com o Barcelona e Real Madrid. Contra as estrelas todas...
Pior momento da carreira: Foi quando saí do Deportivo. Andavam atrás de mim há quatro anos e, quando finalmente me contratou, o treinador não me punha a jogar. Era um jogo no onze e outro na bancada. E eu sentia-me mais forte do que em Guimarães.

Peguemos nesta última resposta. Depois da passagem de parco sucesso pelo Depor, em Espanha, Desmarets voltou onde foi feliz: Portugal. Mais a sul, no Restelo, a temporada até foi boa. Oito golos em 32 jogos, para um médio (e ainda por cima com 34 anos), é uma marca de respeito. Mas só lá ficou um ano. Porquê? “Faltavam dois meses para o final do contrato e o presidente não me disse mais nada. Eu não costumo correr atrás de ninguém e fui embora. Não dava para ficar”.

Desmarets foi para a Tailândia fazer uma perninha e, uma vez mais, voltou onde foi feliz, agora já com 38 anos. “Só voltei aqui para dar uma ajuda numa equipa nova”. A equipa foi o Felgueiras, mas a ajuda só durou até dezembro. "O treinador tinha outro método e outra mentalidade e eu achei que era melhor sair. Na minha idade, não queria chatear-me com ninguém. Não fui ao Felgueiras ganhar dinheiro, mas sim para ajudar os mais novos”, explica, ao Bancada.

Para o futuro, Desmarets só vê futebol. “Há um ano tirei o nível 3 de treinador, mas não sei se vou usar já. Acho que vou começar, primeiro, a trabalhar com jogadores franceses. Ajudá-los a fazerem o mesmo caminho que eu, mas mais novos”, planeia.

“Ele vai matar-me”

Falta a tal historinha das férias interrompidas e da “matança”. Desmarets não consegue mesmo separar o seu percurso do de Manuel Cajuda. Pedimos-lhe uma história engraçada, que as pessoas não conheçam, e lá veio à baila o atual treinador do Académico de Viseu.

O relato fica totalmente a cargo de Desmarets.

“Estava de férias em França e disseram-me ‘amanhã tens avião para Guimarães’. Estava toda a gente de férias e o Cajuda decidiu chamar-nos. Entrou no balneário e disse ‘Eu não vim aqui para fazer amigos. Não sou amigo de ninguém. Estou aqui para ganhar’. Achávamos que ele ia apresentar-se e treinar apenas no dia seguinte, mas ele disse ‘vamos já começar’. Treinámos logo nesse dia e, depois de pôr todos a correr, o Cajuda só dizia ‘não quero ver ninguém parado’. Havia um jogador brasileiro, o Brasília, que me disse: ‘Acho que amanhã vou ligar ao meu empresário e vou-me embora. Ele vai matar-me’.

O facto é que aquele Vitória que estava meio tremido, na Segunda Liga, acabou, após a entrada de Cajuda, por recuperar e subir à Liga Portuguesa. Terão sido os treinos nas férias de Natal?

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