Prolongamento
Bruno Moraes: a Champions, os autógrafos esquisitos e terminar à patrão
2018-04-24 21:00:00
Um campeão europeu pelo FC Porto que marca golos a granel no Campeonato de Portugal.

Lembra-se de Bruno Moraes? Este avançado brasileiro foi campeão europeu, pelo FC Porto, e chegou a marcar um golo muito importante ao Benfica. Agora, está a destruir defesas no Campeonato de Portugal. E não, não é exagero, porque ele acabou esta temporada à patrão. Este rapaz, de 33 anos, é aquele que, um dia, nem queria acreditar no que via à volta de Pinto da Costa, que só precisou de oito minutos para entrar na história e que é não é forte apenas no futebol. A ler mais à frente.

Bruno Moraes apareceu no Santos, ainda com 17 anos. Apareceu no FC Porto, com apenas 19. Tinha físico imponente, técnica, remate potente, jogo aéreo... tinha tudo. No entanto, parece ter passado ao lado de uma carreira melhor. É o próprio avançado brasileiro quem o diz, ao Bancada. “Acredito que sim, poderia ter ido mais longe. Tudo apontava para isso. Ter aparecido tão novo no Santos e no FC Porto são indicativos de que poderia ter ido para outros grandes clubes europeus”, desabafa.

Então, caro Bruno, o que falhou? “Tive algumas lesões graves, que dificultaram muito a minha carreira”, aponta este pobre rapaz que, em 16 temporadas de carreira, apenas em quatro conseguiu superar os 20 jogos realizados. Muito pouco.

O que não é pouco é o perfil humilde. Falámos com Rúben Brígido, ex-colega na U. Leiria e com Sérgio Silva, atual colega no SC Espinho. Sérgio fala de um “homem com H grande, muito humilde e sempre disposto ajudar toda a gente com a sua experiência. E com qualidade para dar e vender”. Já Brígido falou-nos de “uma pessoa simpática, um excelente colega e, apesar da sua carreira e de ter jogado num grande como o FC Porto, uma pessoa muito humilde”.

Já conhecemos o homem, falta conhecer o jogador. Rúben Brígido define Bruno Moraes como “um ponta de lança muito inteligente, que joga bem de costas para a baliza – protege bem a bola – e que tem muita qualidade na finalização”. “É muito inteligente nos timings dos movimentos”, acrescenta.

“Nunca tinha visto isso no Brasil”

Bruno Moraes chegou ao FC Porto, em 2003, para a equipa de José Mourinho e... Pinto da Costa. Quando chegou, nem percebeu bem o que se passava ali. “O presidente Pinto da Costa era um líder. Na rua, as pessoas iam pedir autógrafos ao presidente. Eu não esperava ver aquilo, nunca tinha visto isso no Brasil”, conta, acrescentando: “E Mourinho era um ídolo”.

Agora ponha bem os olhinhos neste pormenor. Foi com Mourinho que Bruno Moraes conseguiu, em oito minutos, o que a maioria dos jogadores não consegue numa vida inteira. Na Champions, jogou um minuto frente ao Real Madrid e sete minutos frente ao Manchester United. Chega e sobra, dirá Bruno Moraes, que, com estes oito minutos, pôde somar uma Liga dos Campeões ao seu palmarés.

Foi assim – a entrar aqui e acolá – que Bruno Moraes fez o seu percurso no Dragão. Chegou meio perdido e raramente foi titular. Ainda assim, o jovem Bruno chegou a ser uma arma secreta de valor. Quase sempre saído do banco, quase sempre com algum peso no jogo. “Eu não era titular, mas era sempre o primeiro a entrar. Já começava a questionar a titularidade”, recorda, ao Bancada. Entre estes momentos está um em particular. Em 2006, no Dragão, havia 2-2 entre FC Porto e Benfica. Aconteceu algo assim:

Jesualdo Ferreira chamou Bruno, aos 83 minutos, e, aos 90+2, pumba. Golinho do Bruno e vitória frente ao rival.

Nem precisou de o defrontar para sentir a dureza

Pausa na história. Desafiámos Bruno Moraes para uma série de perguntas de resposta rápida. Podemos dizer que, em três delas, o brasileiro nem vacilou. Estava na ponta da língua. Sobretudo Mourinho e Deco, que saíram logo, como se o brasileiro já esperasse a pergunta.

Melhor treinador: José Mourinho
Melhor jogador com quem jogou: Deco
Defesa mais difícil de ultrapassar: Pepe, apesar de só o defrontar nos treinos
Melhor momento da carreira: Golo ao Benfica, pelo FC Porto
Pior momento da carreira: Quando parti o braço. A recuperação nem dois meses durou, mas foi pelo trauma da queda e da situação.
Principal objetivo por alcançar: Nunca tinha feito um hat-trick e no último jogo fiz. Queria conquistar títulos, mas jogando. Já conquistei no FC Porto e no Vitória, mas sem jogar muito. Quero jogar numa final e marcar num jogo desses.

Entre FC Porto e Espinho, Bruno Moraes andou a saltitar. Vários clubes em Portugal, para além de aventuras curtas na Roménia, Hungria e Chipre. Nada resultou. “Foi um pouco de tudo. Houve clubes aos quais cheguei em dezembro e só tinha seis meses para poder jogar. Noutros havia dificuldades financeiras. E noutros foram as lesões”, explica-nos. Perante tudo isto, Bruno Moraes foi para o SC Espinho. “Fui só para manter a forma e não treinar só no ginásio. Nem sequer pensava assinar, mas comecei a identificar-me com o grupo, fui muito bem recebido e comecei a ganhar forma”.

A questão é: temos um rapaz que andou no Santos e no FC Porto a jogar no modesto Espinho, que até atravessa algumas dificuldades em termos de condições de treino. Como é que se encara isto? “Não é fácil. Tive de me motivar. Tive de me reinventar, como costumo dizer. Desde o primeiro dia de trabalho o treinador sempre nos motivou no sentido de não olhar para os problemas. Quiseram desviar a atenção daí. Os salários estavam em dia e tínhamos sempre jantares e reuniões. Isso uniu muito o grupo”.

“Aquele gajo não andou no Porto?”

O facto é que é estranho ver um craque destes, daqueles que aparecia na televisão, a jogar no Campeonato de Portugal. “Olha lá, aquele gajo que está ali no banco do Espinho não era avançado do Porto?”, terão dito muitos adeptos, durante a época. Mas desengane-se quem acha que Bruno Moraes se sentia deslocado. Sérgio Silva diz, ao Bancada, que o brasileiro soube adaptar-se. “Não sei como ele era quando estava nesses grandes clubes, mas, neste ano, teve um período inicial complicado – estava num contexto diferente – e o mais fácil seria atirar a toalha ao chão, mas não. Nunca procurou desculpas para nada e lutou sempre até ao fim, sempre focado no objetivo. Adaptou-se e os números dele mostram isso mesmo. Tenho a certeza de que mais umas jornadas e acabaria como um dos melhores marcadores do campeonato, tem golo com ele”. 

Pegamos na deixa do amigo Sérgio para falar de números. Bruno Moraes demorou a pegar, no Espinho. Ia saindo do banco e pouco mais. No entanto, na parte final da temporada, começou a entrar no onze e... voilá. Dez golos nos últimos onze jogos. “Soube esperar pela oportunidade. Quando a tive, estava com tanta vontade que as coisas aconteceram”, analisa o brasileiro. 

O registo goleador de Bruno Moraes ficou sempre abaixo daquilo que chegou a prometer, mas que nunca cumpriu. Foi neste domingo, pelo Espinho, que o brasileiro conseguiu, pela primeira vez, superar os dez golos numa temporada. E aqui entre nós: fê-lo à patrão. Espetou três bolachas num jogo, algo que o jogador nunca tinha conseguido fazer até aqui. Mas há mais: fez este hat-trick num jogo decisivo. O Espinho precisava de vencer, para chegar ao playoff de acesso à Segunda Liga. E venceu, graças a Bruno Moraes. O problema é que precisava que o Felgueiras tropeçasse, algo que não aconteceu.

Para o futuro, Bruno Moraes não sabe o que vai acontecer, mas deixa uma garantia: ainda tem qualidade para divisões superiores. “Mostrei que estou bem fisicamente e com qualidades técnicas intactas. É uma questão de ter oportunidade”. 

“Muito forte” 

Pedimos a Rúben Brígido e Sérgio Silva uma historinha que tenham vivido com Bruno Moraes. O jogador do Espinho diz que prefere guardá-las no balneário, mas Brígido lembra-se de algo em que Bruno Moraes não vacilava.

“Voltámos a encontrar-nos no Chipre, em equipas diferentes, mas havia convívio entre portugueses e brasileiros que lá jogavam. Passámos muitas tardes a jogar futevólei. Ele era mesmo muito forte nisso”.

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