Prolongamento
Academia do Jogador, o projeto de uma vida que vai custar 1, 5 milhões de euros
António José Oliveira
2018-11-03 22:30:00
O jogador de futebol terá, a partir de fevereiro do próximo ano, uma nova casa

“É a nossa nova casa.” A frase de Joaquim Evangelista expressa no Bancada é simples mas cheia de significado. O jogador de futebol vai ter, a partir de fevereiro do próximo ano, um novo lar, consequência de um projecto ambicioso que vai custar 1, 5 milhões de euros ao Sindicato dos Jogadores Profissionais de Futebol, no âmbito da candidatura de Odivelas a Cidade Europeia do Desporto em 2020.

A construção da “Academia do Jogador” resulta de um protocolo de cooperação estabelecido entre o Sindicato dos Jogadores e a Câmara Municipal de Odivelas, contemplando um espaço integrado e multidisciplinar onde, através do desporto, se pretende que o jogador assuma um papel central na relação com a comunidade. “É a partir daqui, que nós vamos desenvolver a nossa atividade, é aqui que queremos fazer a diferença no sentido do jogador ser o protagonista, numa relação entre o desporto e a comunidade. Queremos inaugurá-la em fevereiro, coincidindo com o aniversário do Sindicato”, explica Joaquim Evangelista, falando de um espaço que pretende ser "estrutural" e dar "resposta a todos os problemas dos jogadores".

"Este é um projeto estrutural e abrangente, queremos que seja um projeto a médio, longo prazo", refere o líder do Sindicato dos Jogadores, acrescentando: "Vamos apostar muito na educação, em ações de formação no sentido de preparar o fim de carreira e em projetos  com escolas que deem oportunidades aos novos jogadores".

Na Academia do Jogador, este será “o protagonista efetivo”, segundo afirma Joaquim Evangelista. “O jogador tem que assumir o seu papel. Queremos que seja o responsável de ligação entre a comunidade e o desporto e que ocupe o espaço naturalmente. Será uma cidade desportiva para todos e na qual vemos o desporto como coesão social e territorial.”

De acordo com o líder do organismo dos jogadores, a nova casa do Sindicato vai “ao encontro das necessidades dos jogadores, que não se esgotam nas questões laborais.” A aposta passa também pela “educação financeira, pelo apoio à escolaridade e às carreiras duais para desenvolver oportunidades noutras áreas, pelo combate ao match-fixing ou na defesa da saúde.” “Temos uma visão 360 graus que envolve educação, emprego e saúde”, enfatiza Joaquim Evangelista.

No complexo desportivo de Porto Pinheiro, o Sindicato dos Jogadores vai investir na construção da sua sede social, de balneários, de salas de formação e três campos, um natural e dois sintéticos. O projeto foi  apresentado esta sexta-feira à comissão de avaliação da Associação das Cidades Europeias do Desporto (ACES), que está em Odivelas no âmbito da candidatura a Cidade Europeia do Desporto em 2020. “Para a nossa cidade é uma oportunidade de mostrarmos o trabalho plural e transversal que fazemos no nosso concelho ao nível do desporto, formal e informal. O Sindicato é um parceiro de excelência e vem trazer a este local um espaço nobre, polivalente e multidisciplinar, que vai permitir a toda a uma cidade viver este espaço e, por isso, agradecemos a aposta e confiança no concelho de Odivelas”, afirmou o presidente da edilidade na apresentação pública do vasto projeto. Segundo o líder da edilidade odivelense, esta iniciativa significa "uma oportunidade ímpar de intervenção numa urbanização carente de espaços públicos e de lazer.” "É um espaço que estava morto e que agora pode ter vida. O investimento de 1,5 milhões de euros que o sindicato pretende fazer vai ser essencial para a recuperação de uma área de excelência”, sublinhou.

Numa perspectiva mais abrangente, Joaquim Evangelista sublinha que este acordo representa "um projeto importante para o futebol português". "É um espaço integrado onde se poderão desenvolver atividades de cariz mais social. Queremos que a Federação, a Liga e os clubes participem neste projeto.”

O acordo prevê a requalificação e a criação de projetos desportivos naqueles terrenos, que integram o complexo desportivo de Porto Pinheiro, mas a cedência está, no entanto,  a ser contestada pela atual direção do Odivelas FC, que se encontra no meio de um processo de insolvência e reivindica a posse dos terrenos. "Aquilo é uma parcela de terreno doada ao Odivelas Futebol Clube. Reunimo-nos com o Sindicato dos Jogadores e alertámo-los para essa situação", referiu José Moreira, presidente do clube, à Agência Lusa, admitindo poder agir judicialmente no sentido de reverter este processo.

Aposta forte na educação

O Sindicato dos Jogadores definiu a educação como um factor prioritário e, neste contexto, estão em curso diversos projetos, como o GOAL, iniciativa financiada pela Comissão Europeia, através do Programa Erasmus para o desporto, desenvolvido e implementado por oito entidades de sete países: Grécia (Universidade Aristóteles de Salónica), Reino Unido (Universidade de Coventry), Chipre (Fundação para a Investigação da Universidade de Nicósia), Espanha (Associação Espanhola de Jogadores de Futsal e Associação Espanhola de Jogadores Profissionais de Basquetebol), Portugal (Sindicato dos Jogadores Profissionais de Futebol), Polónia (Fundação V4Sport) e Bélgica (Confederação Europeia das Associações Nacionais de Jovens Empreendedores).

Outro dos projetos em curso é o “Spin”, que diz respeito à inclusão social dos migrantes e que integra o sector feminino. Recentemente aprovados e inseridos no Programa Erasmus, estão o “Yoda”, também relacionado com carreiras duais, e o “Halt”, no âmbito do combate ao assédio sexual no futebol feminino.

A nível de Emprego, o Sindicato tem novas iniciativas em carteira como o “Jogador Startup”, um projeto novo e internacional que nasceu de uma parceria estabelecida com a Universidade Nova. Esta iniciativa envolve formações dirigidas para jogadores, nomeadamente emprego, startup ou investidor, envolvendo empreendedorismo, inovação e novas tecnologias. Outro dos projetos é denominado de  “Contrata um Jogador”. Neste âmbito, o Sindicato dos Jogadores estabeleceu “acordos específicos com seguradoras, imobiliárias, entidades relacionadas com o exercício físico e turismo em que será dada formação aos jogadores com empresas dessas áreas. Isto, claro, além do “Estágio para Jogadores Desempregados” que se realiza anualmente. Este projeto já conta 16 edições, correspondentes a 965 participantes e 573 colocados. Ou seja, a taxa de empregabilidade ronda os 60 por cento. Destaque ainda para o “Spwin Womem” que se insere na inclusão de refugiadas e migrantes através do desporto e para a Semana Contra o Racismo e Violência no Desporto, que vai para a 17. ª edição.

Conselho de Veteranos

Este ano tem-se revelado um ano marcante para o Sindicato dos Jogadores, que criou também o Conselho de Veteranos, um órgão consultivo que junta onze futebolistas e que tem como objetivo, além do reconhecimento da memória coletiva e do contributo para a reflexão estrutural sobre o futebol, a promoção da identidade do jovem jogador português, o apoio aos jogadores mais carenciados e ao envelhecimento ativo.

Hilário, Eurico Gomes, Carlos Manuel, Paulo Futre, Carla Couto, Beto Severo, Nuno Gomes, Jorge Andrade, Simão Sabrosa e Hugo Viana acompanham o presidente António Simões, numa equipa que soma 626 presenças na Seleção Nacional e mais de 80 títulos nacionais e internacionais, conforme sublinha o Sindicato dos Jogadores. “Este é um momento importante no atual panorama do futebol nacional, esta iniciativa assume relevância para ajudar a dignificar a modalidade. Sinto-me lisonjeado por ter sido convidado a presidir a este conselho, sem esquecer o papel que tive na criação do Sindicato dos Jogadores, há 50 anos, numa altura muito complicada a nível político”, afirmou António Simões na tomada de posse, acrescentando: “Queremos ajudar a harmonizar e a verdade é que a paixão pelo futebol não escolhe idades.”

 

Sê o primeiro a comentar: