Prolongamento
A ascensão meteórica do FC Setúbal: a nova cor e identidade do futebol sadino
João Pedro Cordeiro
2018-02-08 21:30:00
O FC Setúbal foi fundado em 2015 e desde então o percurso tem sido de uma ascensão sem precedentes.

Setúbal tem nova cor. Rosa. Daqui a uns anos talvez se confunda com o verde típico do Vitória, no que ao futebol diz respeito. É esse o desejo do FC Setúbal. Fundado em 2015, o novo clube da cidade sadina vem protagonizando uma trajetória de ascensão meteórica que vai deixando o FC Setúbal junto dos lugares cimeiros da classificação na I Divisão distrital de Setúbal logo a seguir aos históricos Amora FC, Barreirense e Fabril.

"Aqui não deixo ninguém ir para cima dos árbitros. Criticar isto ou aquilo. Só olho para o nosso jogo e forma de estar e trabalhar. Nunca tive um problema com um árbitro nestes três anos. Nunca critiquei uma decisão de um árbitro. Se reparar, no futebol, os únicos que não o fazem são o Barcelona. Não é porque só têm grandes jogadores. Quando se consegue jogar 75 ou 80 minutos no meio campo adversário, nunca se tem problemas com os árbitros. E para jogar 75 ou 80 minutos no meio campo adversário tem de se correr mais que eles todos. Fica tudo mais simples. É a minha ideia do futebol".

Encontramos Mário Leandro à saída de mais um treino do FC Setúbal. Fundador, presidente, treinador... Mário Leandro é o Sr. FC Setúbal. "Fundei o clube com 200€", conta-nos. "Entramos no campo para mandar no jogo, seja que adversário for. Pressionar alto. Tentar dar o máximo e jogar o máximo de tempo no campo adversário. Foi o que se passou agora no domingo com o Barreirense. Quem não marca sofre. O guarda redes deles defendeu seis ou sete bolas de golo em cima da linha e na segunda parte quando pensámos que estava tudo feito, eles tiveram uma reacção, fizeram o 1-1 e numa bola parada fizeram o 2-1. Jogou-se muito à bola. É essa a nossa atitude".

A ambição com que Mário Leandro enfrenta cada jogo é porventura a explicação para que uma equipa nascida há tão pouco tempo tenha já registado momentos de tão grande alegria. À segunda temporada de existência, não só o FC Setúbal conseguiu a promoção à I Divisão Distrital de Setúbal, como o fez como campeão da II Divisão do distrito. Hoje, o sonho de Mário Leandro "está mais complicado, mas ainda não acabou". O sonho de vencer a primeira divisão e alcançar o campeonato nacional em poucos meses de existência. Algo que, recorda-nos, nem Guardiola ou Mourinho alguma vez conseguiram. Encontramos Mário Leandro logo após uma derrota dura frente ao Barreirense que deixa o FC Setúbal na quarta posição da I Divisão de Setúbal, a doze pontos da liderança e apenas atrás de verdadeiros colossos da região como o são o Amora, o Fabril e o Barreirense. Mas, como o próprio Mário Leandro, otimista, defende, ainda há muito para jogar.

"Estive 40 anos no estrangeiro e sempre que os meus pais faziam férias vinham para Setúbal. Fui criado aqui perto, no Pinhal Novo, mas íamos para Setúbal por causa das praias. Setúbal tem uma atmosfera especial. Sais da praia e tens os pescadores à saída com cabazes a vender sapateira. É um ambiente que não existe em qualquer outro lado. E como eu adoro Setúbal, e o nome da cidade estava livre no futebol, como tive experiência como jogador amador e trabalhei como agente FIFA, pensei criar um clube para convidar empresários a trazer talentos para Portugal, do estrangeiro, para que os preparássemos para a segunda liga ou para o campeonato nacional", explica-nos.

"No primeiro ano, o FC Setúbal era cem por cento Bairro da Bela Vista mas como existiram alguns casos de indisciplina, como não virem aos treinos, trouxe jogadores do estrangeiro para os enquadrar. Tivémos sucesso. Fomos logo campeões. Este ano, em cima do que se fez no ano passado, com um orçamento mínimo, forcei um pouco no início esperando que viessem pessoas ajudar-me financeiramente. Forcei tudo e o resultado foram dez jogos, dez vitórias. Quis colocar algo em prática e mostrar que era possível. Infelizmente ninguém acompanhou. Faltou aquela motivação extra em outubro, novembro, dezembro, e houve uma quebra e não conseguimos manter aquele ritmo. Ainda por cima tivémos um ciclo de doze jogadores lesionados. Ainda não acabou", adverte ainda o Sr. FC Setúbal.

"Eu comecei o clube com 200€. A minha mulher disse que eu era maluco. E eu disse-lhe, 'Deus vai trazer dinheiro'. É fé. Mas é tudo muito duro. Eu vomito sangue. Mas tenho quatro pessoas. O Rui Sá. Veio para estar cá dois ou três dias e agora é quem trata de todas as questões relacionadas com a associação. Tenho o Carlos Mila, que trata dos equipamentos, vai com os jogadores ao SEF e à fisioterapia. Tenho o Sr. António, que trata da comida do bolso dele. Tem dificuldades mas gosta da equipa. Tenho o meu amigo Jones, que é engenheiro informático mas vem nos dias de jogos e faz a porta e mantém a segurança. Temos quatro ou cinco pessoas que são verdadeiros guerreiros e que eu gostava um dia de lhes dar outra recompensa, outro retorno. Tenho o Sr. Joaquim, um senhor de Lisboa, que me ajudou financeiramente a fundar o clube. E depois tenho os jogadores. Os jogadores do bairro também são fundadores. Também me ajudaram. Ninguém faz algo sozinho. É um jogo de equipa. A minha mulher... a minha Daniela... que faz sandes para os jogadores, lava a roupa, vai às compras para os jogadores... Dá-me apoio e moral".

A ascensão do FC Setúbal é impressionante para um clube nascido há tão pouco tempo, mas a falta de estrutura e tradição do clube acabam por ser, também, o seu próprio handicap. "Há coisas que não tenho como controlar. Temos bons jogadores, mas como não temos capacidade financeira, esses bons jogadores estão a ser aliciados por outros clubes mais fortes. Querem tirar-me os jogadores. 'Vem para aqui que eu dou-te isto e aquilo', então a coisas este ano vai ser difícil. Mas já temos a manutenção quase garantida. Estamos em quarto. É fantástico. É muito difícil ganhar um jogo na primeira distrital. Equipas como o Alcochete, com bom plantel e boa estrutura não ganha, por exemplo. Para ser campeão nesta divisão tem de se manter o nível de início ao fim, tem de ter diretor desportivo, tem de ter uma estrutura organizada e um objetivo claro para cada jogador. Mas isto é um processo. O clube cresceu rápido demais. Estas situações acontecem e é bom que aconteçam agora. Para o ano se definirmos o objetivo para a subida de certeza que seremos mais fortes", adverte Mário Leandro. "Temos de ser realistas. Se temos, temos, se não temos, não podemos fazer mais. E o Amora, e o Barreiremse e o Fabril têm. Eles sim, têm".

Fundado a sete de maio de 2015 por Mário Leandro e pela esposa Daniela, responsável por grande parte da logística da equipa, o FC Setúbal nasceu para competir na segunda divisão distrital composto por jogadores oriundos do problemático Bairro da Bela Vista em Setúbal. Porém, se hoje o clube disputa os seus encontros no Campo Municipal do Forte da Bela Vista sobre um relvado sintético, os primeiros tempos dividiram-se entre pelados nas Curvas e no Faralhão. Na companhia de mosquitos e sem luz artificial. "Aí era mais dificil, as pessoas não se deslocavam tão facilmente, nem era tão fácil motivar os jogadores". O sucesso repentino do clube sadino foi tal que apesar de outros clubes da cidade o terem tentado, foi o FC Setúbal a recolher o apoio da Câmara Municipal de Setúbal. O FC Setúbal ganhava assim um nova casa e um novo tapete no coração do Bairro da Bela Vista e nos jogos mais decisivos chega a ter perto de mil pessoas a assistir aos encontros da equipa. No símbolo, mora um golfinho e em cada jogo é o cor de rosa da camisola que se destaca.

"Setúbal tem uma baía cheia de golfinhos. É um animal extraordinário e que me encanta. É rápido. É forte. É lindo e inteligente. Como aqui temos golfinhos faz todo o sentido. O cor de rosa? A cidade de Setúbal é uma cidade ligada ao roxo, mas há muita coisa aqui na cidade ligada ao cor de rosa. A Câmara faz muitas iniciativas onde utiliza a cor rosa. Fazia todo o sentido", explica-nos a identidade do clube o fundador da equipa. O sucesso do FC Setúbal, recorda-nos Mário Leandro, não foi apenas desportivo, mas também social. "Era uma bomba que podia explodir a qualquer momento. Graças a Deus correu bem. Ninguém punha um cêntimo dentro do bairro da Bela Vista e tudo o que eu pude meter, Deus abençoou-me e fomos campeões. Por vezes perguntava-me à noite, nos treinos, 'mas nós vamos mesmo ganhar o campeonato? com estas dificuldades todas?' e ganhámos. Mesmo com aquelas dificuldades todas". Não surpreende, por isso, que o FC Setúbal tenha ganho a alcunha "os Guerreiros".

A curto e médio prazo? "Só páro de correr quando o árbitro apita. Este ano começou assim, a época não está a correr como queria. Queria estar a dar mais luta lá em cima. Perdemos seis ou sete pontos por falta de concentração, meios, organização. O objetivo é para o ano melhorar essa organização. Mas o meu sonho é conseguir ter o FC Setúbal na segunda liga e ter uma vitrina para negociar jogadores ao nível do futebol profissional. Conseguir fazer o clube crescer e eventualmente chegar um dia à primeira liga".

Por essa altura talvez pudesse esquecer o verde que sempre se confundiu com o futebol em Setúbal e "o Setúbal", pudesse ganhar toda uma nova dimensão, identidade e sentido, deixando de irritar os próprios vitorianos sempre que alguém se engana a identificar o Vitória FC. Mas Mário Leandro não quer substituir quem quer que seja. O amor pela cidade estende-se, também, ao Vitória. "A melhor experiência profissional que tive no futebol foi no Vitória. Foi lindo. Apresentei-me em 1988, era o Manuel Fernandes treinador do Vitória. A primeira época de Manuel Fernandes no Vitória. O clube tinha uma equipa recheada de talentos e craques da seleção nacional. Jaime Pacheco. Jordão. Mladenov. Eu fiz testes no Vitória e fiquei lá um mês. O preparador era o Roger Spry. Se o Roger Spry fosse o treinador eu era o titular numero um. Sempre que acabava o treino, fazíamos dez comprimentos de uma baliza à outra e eu dava dois de avanço a qualquer outro jogador. No final, o Conhé e o Manuel Fernandes propuseram-me ficar no Vitória mas ser emprestado ao Salgueiros e eu aí disse 'não obrigado, eu só quero é jogar no Vitória'. No ano a seguir, o Salgueiros subiu, mas eu queria era estar em Setúbal", recorda-nos Mário Leandro. "Eu queria um clube para explanar o meu amor pelo futebol e pela cidade. Não sou ninguém no futebol. Não podia simplesmente chegar ao Vitória e apresentar-me para trabalhar".

"Tive a sorte de fazer o terceiro nível de treinador belga. Com treinadores da federação belga que todos as semanas iam fazer estágios a Valência, ao Tottenham, a Roma, e traziam-nos grandes métodos de treino e aprendi bastante com esses treinadores. Trouxe influências ainda da Alemanha e da Rússia. Se juntarmos os métodos de treino mais inovadores à capacidade técnica que temos, seremos sempre bem sucedidos. Temos muitos Cristianos Ronaldos em Portugal".

Como dissémos, o sucesso do FC Setúbal não é apenas desportivo, mas também social e o trabalho do clube com alguns dos jovens do bairro da Bela Vista foi mesmo reconhecido pela Câmara de Setúbal ao ponto do clube ter recolhido um apoio que outros emblemas reclamavam há algum tempo. "Como pessoa gosto de ajudar. Conheci a realidade dos bairros sociais e tocou-me. As dificuldades dos pequenos, dos grandes... tocou-me. Sabe qual é o grande objetivo do FC Setúbal? É um dia ter academias espalhadas por vários bairros e oferecer-lhes tudo. Dar-lhes uma possibilidade de sonhar com o desporto. Retirá-los das drogas, do crime e dar-lhes uma oportunidade na vida. Se você salvar um em cada bairro já é fantástico. A nossa seleção, aliás, é constituída quase na totalidade por jogadores oriundos de bairros sociais. Portanto... os craques estão nos bairros sociais", desabafa ao Bancada Mário Leandro.

A temporada pode não estar a correr como pretendido para Mário Leandro mas esta é uma equipa que ao terceiro ano de existência se encontra em quarto lugar numa das divisões distritais mais duras do país. Apesar da derrota na jornada passada ter deixado o FC Setúbal a doze pontos da liderança, a equipa sadina é a mesma que iniciou a temporada com cinco vitórias consecutivas e um empate nas seis primeiras jornadas da competição. "Isto ainda não acabou. Sábado jogamos na Amora, depois o Amora joga com o Fabril. Vai tudo depender da atitude que tivermos na Amora. Vamos fazer tudo para ganhar. Vamos jogar alto, vamos pressionar, vamos lutar os 90 minutos. No domingo passado viu-se, contra o Barreirense, um clube que tem a estrutura que tem, e podia estar 5 a 0 ao intervalo. Tivemos cinco ou seis bolas em cima da linha. Cada jogo é um jogo. Ainda não acabou", adverte.

"No primeiro ano não conseguimos nada. No segundo fomos campeões. Este ano não conseguimos nada, para o ano poderá ser diferente. Penso que já vão subir duas equipas e se este ano subir o Amora, para o ano já não há Amora. Vamos ver. Para subir nesta divisão a estrutura tem de estar muito bem organizada e haver um plano de trabalho muito bem elaborado", algo que Mário Leandro procura resolver já no próximo ano, ele que por via de ter trabalhado como agente licenciado pela FIFA, vai contando com o apoio de alguns contactos para integrar alguns jogadores estrangeiros na equipa sadina como são os casos dos colombianos Aldemar e Riascos que, diz-nos, vêm em Portugal o país perfeito para a ambientação ao futebol europeu em virtude do clima e cultura do mesmo. "A ideia é criar um plataforma para os jogadores se prepararem e ficarem mais perto de um contrato de segunda e primeira liga. Assim o clube fica também mais perto do sucesso, amealhando pontos e conseguindo vencer competições". "Não se pode chegar, criar um clube e vencer tudo. É um trabalho a médio e longo prazo. A vantagem que eu tenho é que sei dar um treino e não estou na mão de um treinador que em poucos meses pode destruir a época".

A história da ascensão do FC Setúbal confunde-se com a própria visão do futebol do seu criador. E, talvez por isso, o sucesso tenha chegado de forma tão repentina. "O que eu gosto mais é do campo. Não gosto de política. Gosto do campo, gosto da guerra, da raça. De jogar como jogava o Paulo Sousa, o Jaime Pacheco, o André do Porto, o Petit, o Renato Sanches... Esse espírito de correr 90 minutos e não deixar o adversário jogar. Como joga o Atlético de Madrid por exemplo. São onze, mas na perda de bola está sempre alguem na cobertura. São onze mas parecem 22. Essa maneira de pensar e jogar, de reposicionamento e coberturas, é fantástica", confessa-nos.

A este nível, claro, é dificil jogar como o Atlético Madrid mas longe vão os tempos em que se acreditava ser necessário treinar todos os dias de forma intensiva para obter resultados. "Treinamos duas ou três vezes por semana. Fizémos uma pré época forte com cinco ou seis treinos por semana mas reduzimos. Durante o campeonato não se pode treinar muito. Temos de estar frescos. O campeonato vive de uma pré-época muito forte e depois é só ir mantendo. O que havia para treinar já está treinado. O futebol de alto nível é como um laboratório", explica-nos. "Aprendi muito com um treinador francês, que treinou o Sedan durante uma década e na pré época fazia sete treinos por semana e depois durante o campeonato eram só dois treinos e meio. E mesmo assim chegamos aos quartos de final da Taça da Bélgica mais tarde. A frescura física é muito importante", acrescenta. "O mais dificil no futebol é saber gerir o ser humano. O cansaço mental. O futebol é como educar um criança".

Para o futuro ficam ainda os planos para que o FC Setúbal tenha um ginásio próprio algo que ainda não foi possível concretizar. "Eu queria ter um ginásio próprio. Para mim o mais importante é começar um treino com algum tipo de reforçamento muscular e depois ir para o campo. É assim que eu vejo o futebol. Evitamos lesões. Os jogadores ficam mais fortes. Mas ainda não consegui ter essa sala. Mas é muito importante". Fica a dica.

Aproveitar melhor o talento local é também um dos desafios do FC Setúbal. Contudo, jogar no coração do Bairro da Bela Vista nem sempre ajuda. Mário Leandro diz-nos que por vezes espanta alguns jogadores para outros clubes. "Alguns miúdos do Vitória quando saem dos juniores preferem ir para o Casa Pia ou para o Pinhalnovense, assustam-se um pouco com o Bairro". "É graças ao jogadores do Bairro que o FC Setúbal existe, mas o clube não é a Bela Vista. Jogamos dentro da Bela Vista porque era o campo que estava disponível, mas um dia esperamos ter um investidor para que o FC Setúbal tenha o seu estádio e as suas instalações".

A longo prazo? O desejo é simples: "Espero um dia, daqui a cem anos, que o FC Setúbal seja o maior clube do Mundo". "Não é fácil, mas é possível. Tudo pode acontecer no futebol. É preciso ter raça e ter fé em Deus. Ninguém ganhou guerras sentado em casa. Teve de ir à guerra e arranjar estratégias para vencer as batalhas". "Eu todos os dias quero parar e todos os dias quero continuar. Mas eu não sei parar. E continuar às vezes ainda é mais difícil. Propus o projeto a seis clubes e ninguém quis. Ninguém quis. Só tinha a condição de ter Setúbal no nome. Se um desses clube tivesse aceite, com a estrutura que tinham, nós já estávamos na segunda. Não tinha a mesma graça se calhar... Eu fui forçado a fundar o FC Setúbal". E ainda bem, dizemos nós, ou não teríamos como escrever a história dos Guerreiros que deram uma nova cor ao futebol da cidade de Setúbal, um cidade "especial, com carisma e personalidade".

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