Portugal
Vasco Lourenço: "Não concordo que se conceda um poder absoluto ao presidente"
Redação Bancada
2018-02-12 17:00:00
"Confesso não preconizar um bom futuro" para o Sporting, confessou Vasco Lourenço.

Vasco Lourenço veio hoje a público dar conta dos motivos que o levaram à demissão do Conselho Leonino, dada a conhecer a 7 de fevereiro.

"Confesso não preconizar um bom futuro para o clube de que sou adepto desde que me conheço e sócio há mais de 46 anos... Até poderei admitir que, para uma maior eficácia, se crie o órgão social Presidente e se lhe conceda um reforço de poderes. Só não concordo é que se lhe conceda um poder absoluto, eliminando as regras que permitam que as várias sensibilidades do SCP se façam representar em órgãos condicionantes da ação do Presidente", referiu Vasco Lourenço em comunicado.

Leia o comunicado na íntegra:

"A situação que se vive no Sporting Clube de Portugal, onde me envolvi, obriga-me a esclarecer alguns pormenores da minha posição:

Por um lado, a natureza e a razão da minha demissão de membro do Conselho Leonino, por outro, a minha opinião sobre as propostas que irão ser discutidas na Assembleia Geral do clube.

No que se refere à primeira questão, não é surpresa para mim o tipo de comentários que por aí vão. Alguns "especialistas" afadigam-se em leituras parciais, nada naturais, ainda menos inocentes, caindo em conclusões incoerentes, suspeitas e partidárias.

Com estes esclarecimentos fico esperançado em que os "comentadores avençados" passem a ter algum pejo em continuar a difusão de mentiras e deturpações.

Recordemos o que se passou:

Aceitei, após alguma insistência da sua parte, o convite de Bruno de Carvalho para integrar a sua lista de candidatura ao Conselho Leonino.

Face a uma anterior divergência pública que tiveramos, tive enormes dúvidas e delas lhe dei conhecimento.
Apostei - contra o parecer e os conselhos de muitos amigos - em que seria capaz de com ele me "entender" e o ajudar na presidência da Direção do SCP.

Sabia da sua intenção de propor a extinção do CL, enquanto órgão social do clube, mas isso não o impediu de se mostrar determinado a prestigiá-lo durante o seu mandato. Só assim se justificava o facto de ter convidado para o cargo um conjunto de personalidades que considerava prestigiadas na sociedade portuguesa.

De comum acordo, ocupei o quinto lugar da sua lista, tendo o cuidado de acentuar dois aspectos fundamentais da minha futura ação, dos quais não abdicava um milímetro:

Nunca seria um conselheiro de Bruno de Carvalho, mas sim um membro do Conselho Leonino do SCP.

Por outro lado, nunca lhe diria o que eu próprio pensasse que ele gostaria de ouvir, dir-lhe-ia sempre o que eu considerasse que devia dizer-lhe.

O facto é que, uma vez eleito, o Conselho Leonino nunca foi prestigiado por Bruno Carvalho, pelo contrário não foram poucas as vezes - a última deu-se na recente AG - em que declarou que o Conselho Leonino não serve para nada, só tem a importância que o presidente lhe quiser dar e, como ele não lhe dá nenhuma, não tem qualquer importância ou valor...

Aconteceu que, numa das suas primeiras reuniões, o CL discutiu a sua natureza, a sua organização, a sua razão de ser, ressaltando a opinião de muitos conselheiros (nos quais me incluía) de que "ou o Conselho produz resultados importantes para o clube, ou é preferível pensar na sua remodelação, incluindo mesmo a sua extinção". 

Foi então apresentada uma solução, pelo próprio presidente da Direção, que terá sido mais imposta que aprovada. Mas que levou os conselheiros - falo por mim - a aguardar.

Eis senão quando, sem ter sido solicitado qualquer pedido de contribuição ao CL, que assistia perplexo a declarações várias do presidente da Direção que o menorizavam e desprestigiavam, somos informados de uma convocação para uma reunião, cuja agenda consistia na discussão dos pontos da agenda de uma AG convocada para dois dias depois (informação recebida oito dias antes, com a indicação de que os pontos da agenda seriam enviados oportunamente). Note-se que essa discussão prévia no CL era estatutariamente indispensável para que a AG pudesse realizar-se...

Pois bem, os pontos da agenda só foram recebidos dois dias antes da data da realização da reunião do CL e foi com enorme surpresa e perplexidade que os membros do CL - volto a falar por mim - constataram que nos mesmos, para além de propostas que se previam pacíficas e certamente merecedoras de aprovação unânime (como veio a acontecer), estavam incluídos dois pontos que, pela sua enorme relevância e consequências, mas também complexidade, exigiam um maior tempo de análise, estudo e discussão. Tratava-se, como já é do conhecimento geral, de propostas de alteração aos estatutos e ao regulamento disciplinar.

Na reunião, uma vez aprovados os outros pontos, sem qualquer polémica, fiz questão de ser o primeiro a intervir na discussão dos dois pontos que considerava polémicos.

Chamando a atenção para o perigo de estarmos a criar problemas inoportunos - não deixa de ser irónico que o presidente da Direção tivesse declarado publicamente, poucos dias antes, a sua inconformidade com o facto de o SCP ser um clube autofágico, que inventa problemas internos, quando se devia preocupar com os adversários - considerei inaceitável o procedimento que estava a ser seguido e propus que o presidente da Direção retirasse os dois pontos da agenda, os pusesse em discussão no CL, e não só, e os levasse à AG, mais tarde e em ocasião oportuna.

Argumentei então que, sendo esse um procedimento muito visto no campo político - recordei a recente aprovação de uma lei pela Assembleia da República, vetada pelo Presidente da República, precisamente com o argumento de não se ter procedido a uma ampla discussão pública - nunca me conformara com isso, sempre que "tive de dar para esse peditório", não seria agora, no CL, que iria aceitar isso.

Acentuando a total legitimidade da Direção para fazer essas ou outras propostas, vinquei a sua falta de legitimidade para o fazer como pretendiam fazer...

O presidente da Direção interveio de imediato recusando o meu pedido, pelo que o CL discutiu o assunto - não obtendo uma posição colectiva através de votação, o que até poderia servir para impugnação - aceitaram-se algumas sugestões de alterações e avançou-se para a reunião da AG...

Tenho assistido à afirmação de que eu não deveria surpreender-me com a proposta de extinção do Conselho Leonino, pois ela constava do programa eleitoral da lista em que aceitei participar. Afirmam também não se perceber a minha preocupação, dado que as propostas de alteração aos estatutos, ainda que aprovadas agora, só produziriam efeito para o próximo mandato.

Estão a desviar a atenção. Nunca disse que o problema está nessa proposta! Reafirmo, a Direção e o seu presidente têm toda a legitimidade para fazer essas ou outras propostas, estando ou não no seu programa eleitoral. Basta atentar no facto de a proposta de acabar com o método de Hont, na eleição para o Conselho Fiscal e Disciplinar não constar no referido programa eleitoral!... Por isso, mais uma razão para se proceder a um amplo debate...

Depois ... é conhecido o que se passou na AG, onde não participei: a agenda manteve-se (algumas das propostas só foram conhecidas no próprio dia), três requerimentos surgiram no sentido de adiar a discussão e votação das duas questões mais polémicas. Precisamente a proposta que eu fizera no Conselho Leonino...
Resultado, o presidente da Direção saiu da AG, com ele saíram todos os membros da mesma e a reunião acabou.

Não compreendendo a gravidade da situação, o presidente da Direção joga toda a cave, isto é, encava (em termos de poker). 

Fá-lo através de uma intervenção pública, nada digna do presidente de um clube secular e prestigiado, que prefiro não qualificar. 

E, agora, ou os sócios aprovam as suas propostas ou a Direção do SCP, com o seu presidente à cabeça, bate com a porta, demite-se e abre as portas a uma situação impensável há pouco tempo.

Entretanto, os clubes rivais, nomeadamente o SLB, aplaudem, respiram fundo, saem da ribalta dos escândalos e ganham tempo para jogar as suas influências, agora não para viciarem os resultados desportivos, mas sim para tentar resolver os inúmeros processos judiciais que os envolvem...

Quanto à segunda questão, considerando que não me podem acusar de reação à proposta de extinção do órgão a que pertenço (mesmo aprovada a proposta, ela só produziria efeitos para o próximo mandato), vejamos o que penso e preconizo:

Tenho enormes dúvidas sobre a bondade das propostas em causa.

No que se refere aos estatutos, a criação do órgão social Presidente, acompanhada pela extinção do órgão social Conselho Leonino e do fim da utilização do método de Hont para eleger os membros do Conselho Fiscal e Disciplinar, transformará o sistema de governo do SCP num sistema presidencialista, sem quaisquer poderes que o condicionem.

Estupefacto, assisti à utilização dos mais ridículos argumentos para justificar as propostas: no que se refere à criação do órgão social Presidente, o de que o presidente da AG também é um órgão social (só falta ver afirmar que o Presidente da Assembleia da República é um Órgão de Soberania...); no que se refere ao fim do método de Hont, o de que na anterior eleição não foi necessário, pois a lista vencedora teve uma tal votação que elegeu todos os membros...

Pois bem, se a isso acrescentarmos a aprovação de um regulamento disciplinar que dê ao Conselho Fiscal (eleito na mesma lista, porque única, do Presidente) um poder excessivo para actuar sobre qualquer sócio que ponha em causa os órgãos sociais ou os seus membros, estamos mesmo a ver no que pode resultar...
Sim, sei que o argumento utilizado é o de que a Assembleia Geral tem o poder último e poderá sempre condicionar o poder dos demais órgãos sociais.

Sei tudo isso, mas também sei - por experiência pessoal, pois já, por várias vezes, dei para esse peditório - a facilidade com que a mesma pode ser manipulada. Se não quisermos deitar mãos a casos passados connosco, basta recordar o que se passou com o nosso rival SLB, onde aprovaram a constituição de uma SAD, com o clube a ficar apenas com 20% das ações e o então presidente a ficar com 60% das mesmas, em seu nome pessoal...

Confesso não preconizar um bom futuro para o clube de que sou adepto desde que me conheço e sócio há mais de 46 anos...

Até poderei admitir que, para uma maior eficácia, se crie o órgão social Presidente e se lhe conceda um reforço de poderes. 

Só não concordo é que se lhe conceda um poder absoluto, eliminando as regras que permitam que as várias sensibilidades do SCP se façam representar em órgãos condicionantes da ação do Presidente.

É menos eficiente? Talvez, mas é resposta aos que pensam como um oficial venezuelano que conheci em 1976, pouco tempo depois do seu País ter aderido à Democracia: "a democracia é muito complicada! 

Primeiro que se tome uma decisão, tem que se discutir muito e com muita gente. Demora mais, fica mais cara, é menos eficiente..." Pois é...

Os sócios decidirão o que quiserem!? Sim e não.

Sim, porque a decisão será deles.

Não, porque mal informados, cegos pelos razoáveis resultados que vêm sendo alcançados - bem melhores do que os dos últimos anos (contra tudo e contra todos, como ainda se viu ontem no jogo com o Feirense)- decidirão pelo que os demagógicos lhes impingirem.

Serenamente, mesmo que muito preocupado, aguardarei.

Assistimos agora a iniciativas do presidente da Direção, que diz pretender esclarecer e discutir devidamente as suas propostas, a sua justificação e a razão das mesmas.

Enfim, forçado pelas circunstâncias, estará a fazer aquilo que lhe propus e ele recusou. Não me parece que o local, o ambiente e as circunstâncias sejam os melhores. Certamente que seria mais profícua a discussão no seio do CL, num clima de menor crispação do que é previsível com os denominados (pelo presidente da Direção) de sportingados... 

Esperançado em que o bom senso prevaleça - às vezes acontecem "milagres" - e as decisões sirvam o futuro de um Sporting Clube de Portugal forte, pujante e vitorioso, envio Cordiais saudações leoninas."

Sê o primeiro a comentar: