Foi em 1988/89, quase há 30 anos, que o Académico, o de Viseu, esteve pela última vez entre os grandes do futebol português. Era a quarta temporada do clube no primeiro escalão, depois dos tempos áureos do final da década de 70 e início de 80 - tinha estado na primeira divisão em 1978/79, 1980/81 e 1981/82. Muitas temporadas depois, e muitas mudanças, o Académico de Viseu – agora, sim, com a cidade incluída no nome oficial do clube – está a tentar o regresso em grande à Primeira Liga. Para já, lideram a Segunda Liga invictos e em Viseu não se esconde o “sonho” de recolocar o clube e a cidade entre os grandes. Isto depois de um percurso que envolveu a criação do Académico de Viseu Futebol Clube – um novo nome, mas o mesmo clube - e que se iniciou em 2005/06 nas divisões distritais.
O percurso ascendente do Académico de Viseu, o “novo”, iniciou-se há cerca de dez anos, depois de a 5 de janeiro de 2006 o Tribunal Judicial de Viseu ter decretado o fim da atividade do histórico CAF (Clube Académico de Futebol). Por essa altura a Comissão Administrativa do CAF já tinha assinado um “protocolo” com a direção do GD Farminhão, que se encontrava na nos campeonatos distritais de Viseu, nascendo daí um novo clube: O Académico de Viseu Futebol Clube. O símbolo as cores, a equipa, a história, o mítico Estádio do Fontelo, tudo se manteve. “A única coisa que mudou foi o número de contribuinte, o resto é tudo igual. Tivemos o cuidado de não beliscar o passado”, garante ao Bancada António Silva Albino, presidente que conduziu o clube desde a “reformulação” até ao presente.
“Candidatei-me, fiz uma nova direção e as coisas tiveram pernas para andar. O caminhar faz-se caminhando, como diz o ditado, e é isso que estamos a fazer, com os pés bem assentes no chão, sem dar um passo maior que a perna. E penso que estamos no bom caminho. No fundo, é tudo a mesma coisa. Sou sócio há 50 anos e sempre ouvi falar em Académico de Viseu, não ouvia falar em CAF. Essa foi a razão por ter escolhido este nome. Foi assim que sempre ouvi chamar pelo clube. O património continua cá todo, o museu do clube está intacto, este é o mesmo clube”, explica-nos o líder do emblema viseense.
Recuperando a rápida ascensão do Académico de Viseu, logo na primeira época com novo nome o clube ficou no segundo lugar do campeonato distrital. Em 2006/07 surgiu o título distrital e o regresso aos campeonatos nacionais. Em 2008/09 conseguiram mais uma subida, mas regressariam à Terceira divisão uma época depois. Em 2011/12 venceram a Terceira Divisão e no ano seguinte aconteceu nova promoção até à Segunda Liga, onde já estão desde 2013/14. António Silva Albino confirma-nos que, agora, o próximo passo é recolocar o clube no primeiro escalão: “Não tem sido um trajeto fácil, tem sido muito difícil, mas com trabalho tudo se consegue. E é assim que temos chegado até aqui. Agora, um dos nossos objetivos é chegarmos à Primeira”.
António Silva Albino fala em “urgência” em colocar o clube no topo do futebol português, vincando que é algo que a cidade e a região já merece. “Não faz falta, faz muita falta a Viseu e à região ter o Académico na Primeira Liga. Há muitos anos que estamos sem clube na Primeira Liga e na minha opinião é urgente ter este clube lá. E também é um dos meus grandes sonhos”, confessa-nos, sublinhando ainda acreditar que se o tal “sonho” se concretizar a “adesão por parte dos adeptos será muita”. Adeptos esses que têm correspondido ao bom arranque da equipa na presente temporada. Na última jornada, por exemplo, mais de 1600 espectadores foram até ao Fontelo assistir ao triunfo ao Académico frente ao Benfica B, por 1-0, que deu a subida ao topo da classificação.
Aposta na experiência
Nas últimas quatro temporadas a equipa nunca conseguiu terminar no top 10 da Segunda Liga e no último ano viu-se mesmo obrigada a disputar o playoff de despromoção, batendo o Merelinense e conseguindo assim a permanência. Nessa altura, já Francisco Chaló havia assumido o comando da equipa. O defeso fez bem ao Académico de Viseu, que surgiu transformado para melhor, sobretudo devido ao fortalecimento do plantel com jogadores experientes, como o guarda-redes Peçanha, o defesa Pica, os médios Luís Alberto e Fernando Ferreira e o avançado Rui Miguel, todos com passagens pelo primeiro escalão. Mas há também Luís Barry, experiente avançado que nas duas últimas épocas conseguiu alcançar a subida de divisão, primeiro ao serviço de GD Chaves e depois pelo Aves, optando sempre por continuar no segundo escalão.
“Atempadamente, ainda na projeção do plantel, dissemos que a intenção era formatar uma equipa que mostrasse condições para procurar essa ambição de lutar pela subida. As coisas foram sendo formatadas e não há dúvida que temos um plantel que está no enquadramento do que tínhamos projetado, capaz de colocar o clube em patamares superiores de ambição. Desde o início que a nossa ideia é conseguir estar no lote dos melhores classificados”, afirma ao Bancada Francisco Chaló, técnico com vasta experiência de Segunda Liga e também com uma passagem pelo primeiro escalão, em 2007/08, ao serviço da Naval.
Com três golos em cinco jogos, Sandro Lima, de 26 anos, tem sido um dos maiores destaques, ele que já valeu seis pontos à turma viseense. Esta é a terceira temporada ao serviço do Académico – com passagem pelo GD Chaves pelo meio, em 2015/16, onde ajudou o clube flaviense a subir de divisão -, sendo que o avançado brasileiro chegou ao futebol português em 2013/14 para reforçar o Rio Ave na Primeira Liga. Uma experiência que acabou por não resultar em golos e que fez com que Sandro Lima descesse um patamar na hierarquia do futebol português, para rumar a Viseu, onde marcou 13 golos em 2014/15. Agora, volta a estar em grande forma. “As melhores equipas da Segunda Liga são aquelas que têm um coletivo muito forte. Um coletivo forte, muitas vezes, ajuda a que as individualidades possam crescer e aparecer. Felizmente para nós, que acreditámos nele, o Sandro está a surgir em bom plano, mas fruto do trabalho coletivo”, frisa Chaló.
O técnico, de 53 anos, também, confirma o potencial da cidade e da região para voltar a ter um clube no primeiro escalão do futebol nacional. “Estamos a falar de uma capital de distrito, geograficamente bem situada, com bons acessos a norte e sul e também no que diz respeito à Península Ibérica. É uma região com muito interesse para fazer crescer tudo, nomeadamente o desporto e o futebol”, assegura-nos. Após cinco jornadas na presente temporada, apenas o FC Arouca conseguiu travar a turma viseense, num encontro que terminou sem golos. São já quatro vitórias em cinco jogos, com oito golos marcados e apenas dois sofridos – não sofrem há três jornadas. Depois de sucederem ao Santa Clara na liderança na última jornada, este domingo o Académico tem um duro teste ao momento vitorioso que atravessa, com a deslocação à Ilha da Madeira para enfrentar o Nacional.
Até final da época o Académico de Viseu ainda terá, certamente, um longo caminho pela frente numa liga competitiva e difícil, onde todos os clubes no início da época apontam à luta pela subida. Caso esta seja mesmo a temporada em que António Silva Albino irá ver o seu “grande sonho” concretizado, o Académico de Viseu irá assim recuperar a história do seu antecessor, o CAF. Os pupilos de Francisco Chaló procuram repetir um feito conseguido pela última vez em Viseu em 1987/88, num conjunto então orientado por Carlos Alhinho e que contava nas suas fileiras com algumas promessas como José Leal ou João Luís, ambos transferidos posteriormente para o Sporting.
Ainda assim, a confirmar-se o último capítulo desta ascensão meteórica do Académico, não seria um caso único na região, pois o "vizinho" CD Tondela também protagonizou um percurso idêntico, subindo à terceira em 2005/06 e a partir daí passo a passo rumo à Primeira Liga, onde se encontra há três temporadas. “Sou do tempo em que jogámos com o CD Tondela na distrital e na terceira divisão”, lembra o presidente do Académico de Viseu. “Eles foram à frente um ou dois anos porque quando estávamos na Segunda B descemos para a Terceira, algo com que não contava. Aí perdemos dois ou três anos. Mas, agora, estamos há cinco anos na Segunda Liga e queremos colocar o clube o mais rapidamente possível na Primeira Divisão”, remata.
Onze base do Académico Viseu em 2017/18

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