Portugal
Segredo da defesa do Marítimo, que apenas sofreu um golo, está no coletivo
2017-08-21 20:10:00
David Simão e Carlos Jorge faziam parte do Marítimo em 2012/13, quando o registo foi igual, e falaram com o Bancada

Ao fim de seis jogos oficiais, o Marítimo tem apenas um golo sofrido, o que faz deste início de época o melhor a nível defensivo desde 2012/13, quando Pedro Martins era o treinador. Curiosamente, as semelhanças também são visíveis na vertente ofensiva: cinco golos marcados em 2012 nos seis primeiros encontros contra quatro em 2017. O segredo, de acordo com quem jogou no Marítimo na época, está no coletivo, ainda que o guarda-redes tenha ajudado. "O que me lembro é que tínhamos bons jogadores, bem trabalhos, e um excelente guarda-redes", disse-nos David Simão, médio que fazia parte dessa equipa do Marítimo em 2012.

Carlos Jorge, adjunto de Pedro Martins há cinco anos, concorda com o seu ex-atleta e reforçou a necessidade de ter uma defesa que seja competente e talentosa. "Qualquer equipa que defenda bem obtém bons resultados. É quase garantido", assegurou o antigo jogador de Marítimo e Sporting ao Bancada.

O coletivo da defesa, individualidades e Pedro Martins

Proteger a baliza com qualidade, de acordo com David Simão, não é só responsabilidade dos elementos do setor mais recuado de uma equipa. Foi essa consciência da importância do coletivo e da equipa como um todo que fez com que o Marítimo de Pedro Martins fosse bem sucedido e sofresse tão poucos golos na fase inicial da temporada.

"Quando falamos em defender, falamos só dos defesas, mas acho que era um trabalho conjunto, de toda a equipa, com um posicionamento tático muito bom. Tudo associado às ideias do treinador. Muito trabalho semanal e entrosamento entre os jogadores para na fase defensiva todos saberem o que tinham de fazer. Excelente defesa, excelente guarda-redes e uma equipa entrosada", contou o médio representa o CSKA Sófia.

O guarda-redes a que David Simão se referiu era Salin, hoje suplente de Rui Patrício no Sporting. Mas o francês não foi o único destacado por Simão, que também lembrou os nomes de Roberge, Rafael Miranda e Sami, entre outros.

"Tínhamos o Salin, que esteve numa excelente forma durante todo ano. Tínhamos o Roberge, que era um jogador diferente, acima do patamar em que estávamos na altura. Era um jogador com bastante qualidade, e o idioma também ajudava porque o Salin também falava francês. O João Diogo, o Briguel, o Rúben Ferreira… Eram todos difíceis de ultrapassar. Na frente, o Sami e o Héldon eram alas completamente comprometidos com a defesa. A destacar alguns deles, seriam Salin, Roberge, Rafael Miranda e Sami, um de cada setor. Davam todos bastante equilíbrio à equipa", admitiu.

Salin e Roberge também foram os destacados por Carlos Jorge. A dupla francesa realizou uma época de alto nível e não passou despercebido.

"O Salin é um guarda-redes com muita energia, que fala bastante e alerta muito os centrais. Às vezes, falava tanto que os jogadores ficavam malucos com ele. [risos] Teve um papel preponderante nessa altura. O Roberge era um jogador fantástico e que se entregava muito ao jogo. Fez uma época fantástica nesse ano, esteve muito bem. Mas não era só a parte defensiva como também um bom meio-campo e todo o coletivo", frisou o antigo técnico de 50 anos.

Carlos Jorge foi adjunto de Pedro Martins, treinador do Marítimo entre 2010 e 2014. O antigo defesa-central, que jogou no Sporting durante a década de 90, disse que Pedro Martins tem capacidade para treinar um clube grande em Portugal, faltando-lhe só "um 'cliquezinho'".

Taticamente, o Pedro é muito forte. Tem muita capacidade de leitura de jogo, tem boas decisões nos momentos cruciais e por isso é que tem feito este trabalho ao longo destes anos. Ao Pedro só falta um ‘cliquezinho’… Penso que ele tem muita capacidade e já devia estar num clube grande pela forma como ele trabalha. Trabalhei com vários treinadores, como o Bobby Robson e o José Mourinho, e ao Pedro não falta nada para ser um treinador ao nível deles. Falta-lhe só a transição para um clube grande. Ele resume-se no coletivo e acaba por apresentar bons resultados. Olhamos para o Vitória de Guimarães da época passada, uma equipa muito jovem, e fez um excelente trabalho", elogiou.

Início madrugador

Tal como hoje, o Marítimo de 2012/13 começou mais cedo a pré-temporada devido à terceira pré-eliminatória de acesso à fase de grupos da Liga Europa. Os leões da Madeira defrontaram o Asteras Tripolis (Grécia) nessa ronda e o FC Dila (Geórgia) no playoff, tendo passado as duas eliminatórias. A primeira mão contra os gregos significou também o único golo sofrido nos seis primeiros encontros, logo na partida inaugural da época oficial dos verde-rubros.

Para Carlos Jorge, começar mais cedo só é benéfico quando se atingem os objetivos, ou seja, chegar à fase de grupos da competição em que se está inserido. Quando isso não acontece, não passa de "tempo perdido" que "pode trazer problemas no futuro".

"[Começar mais cedo] é bom quando passamos à fase de grupos. Começamos mais cedo, o tempo de recuperação é menor, a equipa tem de se organizar e contratar mais cedo… Acaba por começar muito mais cedo que a maioria das equipas, mas quando passa à fase de grupos muita coisa se ultrapassa. Quando não chega lá, o tempo é quase perdido e pode trazer problemas no futuro porque a preparação é muito mais rápida que o normal. Passando à fase de grupos, a motivação aumenta e isso conta muito", considerou Carlos Jorge, atualmente ligado à área dos investimentos.

David Simão é da mesma opinião: "À semelhança deste ano, também começámos mais cedo para qualificações para a Liga Europa e beneficiámos no campeonato desse início mais cedo que os outros, e isso faz com que a equipa esteja mais bem preparada quando começa a Liga. Por vezes paga-se a fatura no fim, mas no início as equipas que passam por essas qualificações levam um nível competitivo mais alto".

Depois do Marítimo, David Simão jogou no FC Arouca, clube que utilizou para dar o exemplo das consequências negativas de começar a temporada mais cedo. Em 2016/17, o FC Arouca também jogou a terceira pré-eliminatória de acesso à fase de grupos da Liga Europa e teve de iniciar os trabalhos antes do habitual. No final da época, desceu à Segunda Liga.

"O FC Arouca ficou em quinto [em 2015/16] e no ano passado desceu de divisão e, curiosamente, o final foi a pior fase da equipa. Para além do aspeto mental, o aspeto físico foi determinante, a meu ver. Começaram demasiado cedo a época. Há exceções, mas está provado que as equipas que não estão habituadas a estes palcos pagam mais tarde a fatura. Espero que não seja o caso [com o Marítimo], mas poderá acontecer", exemplificou.

Jogo com o Dínamo Kiev

Após eliminar os búlgaros do Botev Plovdiv, o Marítimo empatou a zero na Madeira com o Dínamo Kiev na primeira mão do playoff. Um resultado motivador e que pode dar esperanças para a derradeira partida, que vai acontecer já esta quinta-feira. David Simão, porém, não está muito confiante mas fortaleceu a ideia de que "tudo pode acontecer".

"Não acredito que passem a eliminatória [com o Dínamo Kiev], para ser sincero, mas no futebol tudo pode acontecer. Os jogadores sabem a dificuldade que vão ter no reduto do Dínamo, contra jogadores mais experientes. São superiores não só a nível de qualidade, mas também na experiência a estas andanças. Não é impossível o Marítimo passar, muito menos com o bom resultado que fizeram em casa e que deixa tudo em aberto", disse ao Bancada, proferindo rasgados elogios ao trabalho de Daniel Ramos à frente do Marítimo.

"Grande trabalho do treinador. A meu ver, parece-me uma equipa mais débil que a do ano passado. Perderam alguns jogadores que eram os melhores, como o Fransérgio ou o Dyego Sousa – para não falar do Maurício, que saiu já este ano -, reforçaram-se, mas acho que estão com um nível mais baixo. É um completo mérito da parte do treinador, porque a exigência continua alta, de certeza. O treinador, quando entrou, revolucionou a equipa do Marítimo, que melhorou bastante com ele", confessou.

Já Carlos Jorge, apesar de também reconhecera dificuldade que o Marítimo terá para conseguir o acesso à fase de grupos da Liga Europa, feito conseguido em 2012/13, e até deu um conselho para o encontro na Ucrânia: estar preparado para aguentar a pressão inicial do Dínamo.

"A diferença entre as equipas é muito grande, na minha opinião. Acho que o Marítimo fez um grande resultado no Funchal, e neste segundo jogo tem de saber defender e ter uma oportunidade para marcar. Quando jogou em casa, toda a gente dizia que o Dínamo ia marcar dois ou três e que ia ser um jogo muito fácil, mas o Marítimo, com alguma sorte, até podia ter marcado. Agora, é evidente que o Dínamo vai entrar com a força toda a tentar esmagar o Marítimo, que vai ter de estar preparado para se aguentar nos primeiros minutos", concluiu.

Seis jogos com um golo sofrido pelo Marítimo em 2012/13:

  • Asteras Tripolis 1-1 Marítimo
  • Marítimo 0-0 Asteras Tripolis
  • Rio Ave 0-1 Marítimo
  • Marítimo 1-0 FC Dila
  • Marítimo 0-0 Gil Vicente
  • FC Dila 0-2 Marítimo

Seis jogos com um golo sofrido pelo Marítimo em 2017/18:

  • Botev Plovdiv 0-0 Marítimo
  • Marítimo 2-0 Botev Plovdiv
  • Marítimo 1-0 FC Paços de Ferreira
  • Belenenses 1-0 Marítimo
  • Marítimo 0-0 Dínamo Kiev
  • Marítimo 1-0 Boavista