Opinião
Rúben no coração do Leão
Manuel Fernandes Silva
2018-01-17 14:00:00

Foi como se tivessem mudado as riscas na camisola e pouco mais. Rúben Ribeiro surgiu em Alvalade com o ar de quem já conhecia de cor todos aqueles recantos e de quem já sabia tudo sobre os jogadores que entraram com ele no relvado, de leão ao peito. Chegou numa quinta-feira e foi titular num domingo. E trouxe valor acrescentado ao futebol do Sporting, pelo menos no jogo de estreia.

Rúben Ribeiro é um jogador com escola, formado no Leixões e com experiência somada em muitos clubes e muitos jogos, mas também exibe o ADN do futebol de rua e das peladinhas portuenses no Parque da Cidade. Durante várias temporadas parecia ser apenas um jogador irreverente, mas nos últimos tempos deixou esse adjectivo em segundo plano para colocar em destaque o talento que surgiu de forma mais sustentada no Rio Ave. Miguel Cardoso potenciou as qualidades que agora Jorge Jesus poderá refinar, porque ainda há margem para que Rúben Ribeiro possa ter um percurso muito interessante num dos grandes do futebol português.

Não há coincidências: Rúben chega a este nível e às mãos de Jorge Jesus depois de ter sido treinado por um técnico de grande competência e uma ideia de jogo que potencia a criatividade.

No Rio Ave, Rúben Ribeiro jogava quase sempre da esquerda para dentro, com movimentos que desequilibravam no espaço interior, mas no Sporting fez a estreia nas costas do avançado Bas Dost. Apesar das diferenças, o reforço não deixou de pisar outros terrenos, por força das dinâmicas posicionais e das trocas de corredor (especialmente com Gelson Martins). De resto, Rúben Ribeiro revelou-se um eficaz antídoto leonino contra parte da estratégia do Desportivo das Aves, uma equipa que tentou sempre encurtar muito os espaços ao adversário. Mas o reforço de inverno dos leões respira bem nesse “minifúndio” táticos.

Rúben não será no Sporting um jogador diferente e terá sido mesmo isso que Jorge Jesus lhe pediu: que jogasse como se estivesse em Vila do Conde, com os arcos em pano de fundo e o vento do Atlântico a soprar de baliza a baliza. Em Alvalade, Rúben Ribeiro não vai deixar de exibir aquele ar de quem sabe ter a bola e sabe onde a deve colocar, mas vai partilhar esta capacidade com Bruno Fernandes e Gelson Martins. Os três juntos, em certos jogos, podem tornar-se num trio letal para os adversários, tal como aconteceu frente ao Desportivo das Aves. 

Provavelmente, Rúben Ribeiro não será sempre titular no Sporting, mas treinado por Jesus e rodeado de outros talentos, poderá chegar aos melhores níveis exibicionais da carreira.

Aos 30 anos, ainda vai muito a tempo de concretizar alguns sonhos.

P.S. – Nos últimos anos, a qualidade dos estádios portugueses tem melhorado consideravelmente, mas isso não mascara a falta de condições de alguns dos palcos do
principal escalão. Quando os problemas se resumem à falta de espaço, condições de trabalho condignas ou de segurança para os jornalistas, o tema é habitualmente ignorado. Desta vez, no Estoril, esteve mesmo à vista uma potencial tragédia, envolvendo milhares de adeptos. O facto de ter sido evitada não pode deixar cair o apuramento de todas as responsabilidades.

Manuel Fernandes Silva é jornalista na RTP e escreve no Bancada às quartas-feiras.

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