Portugal
Que maravilha no Bessa! A estranha beleza de um jogo feio
Diogo Cardoso Oliveira
2018-12-02 22:35:00
Vitória sofrida, mas justa.

O FC Porto venceu o Boavista, aos 90+5, com um golo de Hernâni, o herói da noite, a dar aos dragões um triunfo que sabe a mais do que uma vitória. Tem travo a campeonato, tal foi a forma dramática como foi obtido, num sempre quente dérbi portuense.

O Boavista-FC Porto nem sempre foi bem jogado. Houve pouca qualidade técnica, poucas jogadas de qualidade e muitas faltas, algumas bastante duras. Ainda assim, garantimos, foi um jogo muito giro de ver. Mesmo muito. Emocionante, “rasgadinho”, quente, agressivo, rápido, com uma mão cheia de boas oportunidades, com decisões complicadas para os árbitros, com incerteza no resultado e com um golo mesmo no final. Teve tudo.

Que fique claro: a vitória do FC Porto foi justa e não caiu do céu. Apesar de ter tido pouca capacidade de criar jogadas de qualidade - Corona e Otávio foram os únicos a consegui-lo, um par de vezes -, o FC Porto acabou por ter várias oportunidades claras de golo e falharam ocasiões mais do que suficientes para se dizer que, na prática, fizeram bastante por vencer o jogo, ainda que por métodos mais sofridos do que tem sido habitual.

Analisando a partida, fica claro que, hoje, faltaram coisas habitualmente bem trabalhadas. O FC Porto veio em 4x3x3, abdicando da tradicional dupla de “bestas” na frente. E é clássica a forma como Marega ou Aboubakar/Soares baixam em apoio frontal, arrastando um central, abrindo espaço para um dos alas ou médios surgir desde trás. É a jogada clássica dos dragões e que, hoje, com Marega muito preso e com o Boavista a dar pouco espaço atrás dos centrais, foi pouco feita. Curiosamente – ou não –, o primeiro lance de perigo dos dragões (já depois de dois do Boavista) veio aos 32 minutos, precisamente na primeira vez em que Marega baixou, arrastou um dos centrais – que resistiram sempre à tentação de ir atrás de Marega – e Otávio rompeu pelo espaço deixado vazio.

A primeira parte, ainda assim, até teve mais Boavista. A equipa de Jorge Simão não só conseguiu ter bola como conseguiu triangular, criar, jogar apoiado e fazer correr os dragões. O FC Porto, com pouca bola em Óliver, teve uma incapacidade clara de criar, verticalizar, romper em condução e dar um perfume e uma fluidez extra à circulação. Nem houve “matulões” na frente, para jogar em profundidade, nem houve magia de Óliver e Brahimi, para jogar em ataque organizado. Houve, por isso, muitas dificuldades do FC Porto, frente a um Boavisa com capacidade para sair perigosamente algumas vezes, ainda que fraco a definir.

O jogo, como dissemos, não foi bonito – mais perdas de bola, faltas e passes errados do que jogadas bem trabalhadas –, mas acabou por trazer os ingredientes todos. Até polémica. Houve um golo anulado a Herrera, por fora-de-jogo, numa decisão difícil. Herrera parece estar em jogo, pela (má) imagem disponibilizada na transmissão, mas o VAR tem mais ferramentas, pelo que a decisão de anular o golo tem de ser aceite, pelo menos até existirem imagens melhores. Houve ainda um possível penálti sobre Rochinha. Há toque no pé e parece-nos ter havido falta, mas o atacante parecia já estar em queda, querendo "sacar" o contacto. Decisão complicada e, sendo dúbia, não houve (e bem, ao contrário do que argumenta Jorge Simão) direito a VAR.

O jogo foi andando, na toada sempre intensa, e, no final, com o FC Porto a colocar artilharia na área, Jorge Simão resistiu à tentação de colocar mais defesas. Deu-se mal. Lance confuso na área, com um mau corte de Gonçalo Cardoso, e Hernâni fez a recarga a um primeiro remate de Adrián.

Vitória sofrida, mas justa. E que belo jogo houve no Bessa, mesmo não sendo sempre bem jogado.

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