Portugal
Pedro Emanuel: de promessa do Champioship Manager a herói das Caldas
Sérgio Cavaleiro
2018-01-11 20:00:00
Foi autor de dois golos na vitória do Caldas frente ao Farense (3-2), mas os mais atentos já o conhecem há alguns anos

Pedro Emanuel. Nome de herói nas Caldas da Rainha. A vida tem destas coisas. Foi ele que marcou os dois golos do Caldas SC que permitem ao clube participar, pela primeira vez na história do clube, nas meias-finais da Taça de Portugal. Mas o que há de tão curioso na história de Pedro Emanuel, que um dia, jogava ainda no modesto Marinhense, viu dois miúdos entrarem dentro do autocarro da equipa, parado numa estação de serviço, para pedirem autógrafos, a ele e a Hugo Pinheiro? Mas a isso chegaremos. Aos 36 anos, Pedro Emanuel revelou ao Bancada um dos seus maiores arrependimentos: ter optado por não ter um empresário, o “empurrão” que lhe faltou para outros voos.

“O telefone hoje ainda não parou”, começou por dizer o jogador que fez com que todos os habitantes das Caldas da Rainha andassem, hoje e nos próximos dias, com um sorriso de orelha a orelha. Mas isso já somos nós a dizer, porque para Pedro Emanuel, o que aconteceu no Campo da Mata foi resultado de um “esforço enorme de toda a equipa.” Mas de regresso à conversa com o simpático Pedro, professor de Educação Física. “Estive a trabalhar de manhã, vim a casa almoçar e depois vou trabalhar outra vez”, contou-nos. Mas calma, desenganem-se aqueles que pensam que este foi o ponto mais alto da carreira de Pedro Emanuel. Porque não foi. Pelo menos para mim e para muitos amigos meus.

É que Pedro Emanuel é uma das grandes estrelas do famoso simulador de futebol, Championship Manager (agora Football Manager). Na época 2001/02, médio/avançado do Marinhense, Pedro Emanuel começava como uma das mais valiosas jóias do clube, com grande margem de evolução. E a verdade é que a promessa viria a cumprir-se. Pedro Emanuel tornava-se sempre um dos jogadores com melhor avaliação. Algo de extraordinário. Aliás, algo que aguçou o interesse do jornalista João Vasco Nunes que contactou Mario Rui Nicolau, a pessoa responsável pela avaliação do plantel do Marinhense.

 

                                         Início do jogo, época 2001/02

              

“Não houve qualquer equívoco na avaliação do Pedro Emanuel - como noutros casos” -, começou por dizer Mário Rui Nicolau, colaborador da empresa produtora do tal simulador, em Portugal. “Era um jogador com muito potencial. Tinha muita técnica, mais até do que muitos jogadores da Primeira Liga”, sublinhou. Quisemos confirmar esta teoria e falámos com Hugo Pinheiro, guarda-redes e colega de Pedro Emanuel no Marinhense, também ele um fenómeno do CM (aqui foi o equívoco) que nos confirmou, “toda a gente dizia, na altura, que o Pedro era um jogador acima da média.”

Toda esta situação merece de Pedro Emanuel uma boa gargalhada, aliás, foi sempre com uma enorme boa disposição que o herói das Caldas nos respondia às questões que lhe íamos colocando, mas não foi por isso que se coibiu de deixar um desabafo. “Toda esta história deixa-me um sabor agri-doce”, começou por dizer. “É claro que fico feliz, mas ao mesmo tempo sinto que as coisas poderiam ter corrido de outra forma na minha carreira. Não vou ser hipócrita”, acrescentou, dizendo ainda que nem tudo é compartimentável como muitas vezes se quer fazer crer.

“Há aquela frase feita que diz que ‘quando trabalhas no limite, das tudo de ti e quando acreditas que é possível, tu vais conseguir’. Épa isto é uma frase feita que para mim é das mais vazias que há. Porque há muita gente que trabalha no seu limite, que se esforça muito e que tem condições para atingir aquilo que pretende e não consegue fazê-lo. Ou por falta de um “empurraõzinho”, ou por falta de uma oportunidade, por variadíssimas razões”, sublinhou o jogador que acredita que não foi por falta de valor que não jogou nos campeonatos profissionais.

 

                                          Evolução de Pedro Emanuel em 2006

               

“Sinceramente, acho que podia, pelo menos, ter chegado aos campeonatos profissionais. Pelo que já vi e pelas equipas contra quem joguei ao longo da minha carreira tenho a noção que poderia ter jogado na Segunda ou até mesmo na Primeira Liga”, disse Pedro Emanuel que, no entanto, aponta a si próprio o maior erro da sua carreira como futebolista: ter sempre optado por não ter um empresário.

“Não ter empresário foi um dos meus piores erros. Nunca quis ter. Mas com o passar do tempo fui-me apercebendo que era fundamental. A culpa foi minha. E deixo aqui um conselho aos jogadores mais novos: que deixem de ser orgulhosos, que foi o meu caso, e hoje arrependo-me. Porque basta um pequeno empurrão, uma pequena ajuda para depois teres a oportunidade para te mostrares”, disse, em jeito de lamento.

Mas o que lá vai, lá vai Pedro. Pela frente há uma meia-final da Taça de Portugal diante do Aves e uma segunda metade de campeonato que “vai ser muito exigente”. Os golos de Pedro Emanuel frente ao Farense vão ficar na história do Caldas SC, mas para o jogador o que interessa é a vitória final. “Desde há uns anos para cá que não me preocupo tanto com os meus golos, quero é ganhar”, disse o atleta que revelou, ainda, estar “completamente morto” de cansaço. “Não sei como aguentei aqueles 120 minutos Isto depois de umas quantas viagens aos Açores. Quase nem dormi”, contou-nos.

Pedro Emanuel vai disputar a meia-final da Taça de Portugal e o que resta da Serie D do campeonato de Portugal. Certo. Mas em casa de vários milhares de portugueses pode estar a disputar uma final de Liga dos Campeões qualquer, é jogador para isso.

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