Portugal
O Benfica é um clube que não gosta de Hélios
Diogo Cardoso Oliveira
2018-08-09 19:00:00
Nenhum dos dois conseguiu impor-se na Luz. Agora, vão para o Campeonato de Portugal.

Hélio Pinto e Hélio Roque foram, em tempos, dois dos principais craques a sair da formação do Benfica. Camacho e Koeman chegaram mesmo a lançá-los na equipa principal. Assim ao de leve. Suavemente. Sem grande convicção. Nenhum dos dois conseguiu impor-se na Luz. Mais: nenhum dos dois conseguiu impor-se em Portugal. Andaram ambos lá fora e, agora, regressam. Um com 34 anos e o outro com 33, vão jogar no Campeonato de Portugal.

O Bancada falou com os dois Hélios e tem historinhas boas com motas, adeptos “trocados”, Game of Thrones e peladinhas na Arábia. Uma delas pode vir já. As restantes, deixamos mais para a frente.

Hélio Pinto conta-nos uma do Catar. Por lá, jogou numa equipa fraca. Tão fraca que… qualquer um podia lá ir. “Conto sempre esta, porque é uma coisa raríssima. Eu adorei viver no Catar. Foi fantástico. O menos bom é que a minha equipa era muito fraquinha, para falar curto e grosso. Os jogadores locais não queriam jogar lá, porque sabiam que a equipa era limitada. No início da época o treinador até perguntou o que nós achávamos e a maioria disse que íamos descer. Durante o ano todo, apreciam jogadores para treinar que nem o trinador sabia quem eram. Eu chegava a dizer a amigos meus ‘apareçam lá para a peladinha’”.

Antes de mais coisas bizarras, vamos aos Hélios. O Pinto, algarvio, está de regresso ao Algarve, para jogar no Louletano. O Roque, que cresceu e começou a jogar futebol junto à margem sul do Tejo, também regressa a “casa”: vai para o Olímpico do Montijo.

“O Colégio Militar era uma confusão danada”

Mas o que falhou, nestas carreiras, para terem ficado aquém do que se esperou? Hélio Roque e Hélio Pinto reconhecem que, se fossem hoje uns jovens de 20 anos, teriam tido mais oportunidades no Benfica. “Nunca se pode ter a certeza, mas acredito que sim, porque nos juniores fui campeão e tive uma média de 30 golos. Depois, no ano seguinte, na equipa b fui campeão e o melhor marcador, com 18 ou 20 golos. Acho que se fosse nos tempos de hoje seria diferente, porque na minha altura não se apostava muito nos jovens. Chegou a um ponto em que começámos a ficar desmoralizados, mas faz parte”, assume Hélio Roque, reconhecendo que chegou a ter esperanças, até porque, em 2005, Koeman lançou-o na parte final de três jogos da Liga e levou-o para o banco na Champions, frente ao Manchester United.

Hélio Pinto tem uma visão semelhante. “Acredito que, hoje, poderia ter mais oportunidades, até pela forma de gestão que eles têm agora. Têm o Seixal bem organizado. No meu tempo, só havia o Colégio Militar, que era uma confusão danada”.

Na forma como olham para o passado é que existem diferenças entre os Hélios. Um, não se arrepende de nada. O outro, assume que tomou uma má opção, por engano. “O meu percurso foi bom para crescer e não me arrependo de nada. Foram fantásticos, esses momentos”, garante Hélio Roque, ao Bancada.

Já Hélio Pinto – que, um dia, foi lançado por Camacho na Liga Europa – recorda que, com a saída do espanhol, foram-se as oportunidades. O Benfica ofereceu-lhe um contrato para a equipa B e o jovem, na altura, não quis. Em certa medida, arrepende-se da escolha. “Fui para o Sevilha, mas aquilo acabou por ser um engano. Disseram-me que ia para a equipa principal e, quando lá cheguei, fui para a equipa B. Se soubesse disso, nem teria saído do Benfica”.

Vão-se embora? Já? Mas ainda é tão cedo…

O subtítulo anterior foi a pergunta que muita gente fez, em 2004 e 2007, quando os Hélios decidiram deixar Portugal para trás e dar corda aos sapatos. Primeiro, andaram pouco. Hélio Pinto foi na tal aventura falhada no Sevilha B, antes de ir para o Chipre. Já Hélio Roque andou por Setúbal e pelo Olivais e Moscavide – bela temporada, na II Liga –, antes de ir ter com o outro Hélio, ao Chipre.

Estava um pouco cansado de estar aqui e ir para o Chipre foi a melhor coisa que me aconteceu. Reconheceram muito o meu valor e também foi lá fora que conheci a mulher da minha vida, com quem casei e tenho dois filhos fantásticos. Se calhar, o destino era assim mesmo”, conta, ao Bancada.

O Hélio que já lá estava, o Pinto, diz que viveu, por lá, o ponto alto da carreira. “O ponto alto foi jogar a Champions. Fui muito utilizado e fui muito feliz”, recorda, antes de confirmar, ao Bancada, que o percurso como jogador profissional foi feito de frente para trás. “Comecei como defesa esquerdo e o Benfica contratou-me para defesa. Depois, passaram-me para extremo e, às vezes, para jogar atrás do ponta de lança. No APOEL é que comecei a jogar a oito, como médio de transição”.  

Pausa na história, para mais uma historinha. Hélio Pinto esteve na Noruega, depois de sair do Catar. Por lá, viu neve. “Era neve até ao pescoço. Fomos de viagem para um jogo e, no meio do caminho, havia uma montanha congelada, que parecia saída do “Game of Thrones”. Fiquei pasmado com a vista, porque aqui em Portugal não acontece”.

Voltando ao Chipre, engana-se quem pensa que, para lá, só vão os “pernetas” sem talento para a Liga Portuguesa. Hélio Pinto, por exemplo, chegou a jogar na Champions frente a Real Madrid, FC Porto, Lyon ou Zenit. Era estrela naquela equipa do APOEL que venceu o FC Porto, em Nicósia, com um golo de Manduca.

Hélio Roque também não andou por lá a passear. “Joguei quatro anos no AEL Limassol, clube gigante do Chipre. Tem milhares de adeptos. É incrível, parece o Benfica. Fui muito acarinhado e, no terceiro ano, já era um dos capitães”, recorda, antes de contar: “Até tive uma abordagem de um empresário para voltar, mas o ordenado que ganhava lá era muito superior ao que ganharia aqui em Portugal”.

Como estes dois rapazes parecem ter feito toda a carreira em papel químico, também Hélio Pinto assume que teve propostas para voltar. “Tive uma oferta para ir para o SC Braga, para o lugar do Hugo Viana. Mas depois não se concretizou e fui para a Polónia”.

Campeonato de Portugal não sabe a pouco?

Hélio Roque vai, agora, para o Louletano. Nada que o incomode, apesar de ainda sonhar em subir um patamar, se for possível. “Gosto de pensar dia-a-dia e dar tudo no Olímpico do Montijo, onde me receberam bem. Se, mais tarde, houver oportunidade, é claro que gostaria de voltar a patamares acima, mas estou feliz agora no Montijo. Só penso em ganhar forma e estar à altura para ajudar este grande clube”, diz, alertando: “Fiz sacrifícios para voltar. Tinha muitas propostas tentadoras para fora, mas é a altura certa para voltar a Portugal”.

Mais abaixo, no Algarve, estará o outro Hélio. Aos 34 anos, o Pinto já não acredita em subir de nível. Nem é esse o plano. “Neste momento, já não penso muito nisso. Vim para Portugal por questões familiares. O meu filho tem seis anos e eu quis voltar, jogasse ou não jogasse. Sinto-me bem fisicamente e dá para fazer uma perninha. Estou em casa, no Louletano”.

400 motas? "Só"?

Por fim, vamos à historinha das motas e dos adeptos “trocados”. Palavra de Hélio Roque.

“Na época 2015/2016, fui contratado para o Benfica de Luanda e, nessa altura, montaram um plantel com os melhores jogadores. Um plantel de muita qualidade, com um orçamento gigante. Os adeptos queriam sempre ver os jogadores, parecíamos umas estrelas. Nas províncias, vivem muito o futebol e, quando íamos jogar fora, eles ficavam excitados para ver os jogadores das equipas grandes. Era incrível porque até no jogo, quando nós marcávamos, os adeptos adversários também festejavam. Mas moderados, claro”, recorda, entre risos, antes de conta o resto: "Houve um jogo na província de Saurimo e, quando saímos do aeroporto para o hotel, começámos a olhar para trás e todas a motas da cidade iam atrás do autocarro, a fazer festa até ao hotel. Foi lindo. Chegámos ao hotel e eram quase 400 mota. E eram adeptos da equipa adversária. Foi muito engraçado e marcou-me muito”.

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