Portugal
O Benfica decidiu piscar o olho a um cego
Mauro
2018-10-27 22:55:00
O Benfica criou muito e poderia ter goleado, mas tanto desperdício merece ser penalizado.

Sabe o que acontece quando se pisca o olho a um cego? Pois. Nada. O Benfica perdeu com o Belenenses, no Jamor, por 2-0, neste sábado, num jogo em que os criativos piscaram o olho, mas os finalizadores pareceram ser “cegos”. E mais: o problema é que, do outro lado, o guarda-redes tinha uma visão tremenda. Mais ainda: Rui Vitória não ajudou nada a equipa encarnada. Já lá vamos.

Contámos qualquer coisa como 14 oportunidades de golo desperdiçadas pelo Benfica. Este dado permite-nos analisar este jogo de forma transversal: é verdade que o Benfica criou muito e poderia ter goleado, mas também é verdade que tanto desperdício merece ser penalizado.

De início, o Benfica fez, provavelmente, os melhores 25 minutos iniciais da temporada. Se não foi, anda lá perto. A equipa começou por ter "apenas" dinâmica e triangulações, mas, a partir dos 15 minutos, conseguiu o que faltava: envolver Seferovic. Expliquemos: o Belenenses trouxe uma equipa bastante recuada – algo que foi estranho e nem vai ao encontro do que é habitual – e, com isso, a única forma de penetrar na área, com bola, seria desposicionando os centrais azuis. Ou, pelo menos, um deles. Para isto, o avançado (Seferovic, neste caso) tem de baixar em apoio frontal e, assim, obrigar um dos centrais a acompanhar. Espaço criado na zona do central arrastado e, aí sim, possibilidade de furar por essa zona. Isto foi bem feito e apareceram Rafa, Pizzi e Gedson, mas o desperdício impediu os encarnados de fazerem o 1-0.

Depois de Salvio ter falhado um penálti que Artur Soares Dias assinalou com recurso ao VAR, o Benfica perdeu-se. O Belenenses explorou duas vezes as costas da defesa encarnada e fez dois golos: primeiro, Eduardo não falhou o penálti ganho por Licá na profundidade. Depois, o próprio Eduardo serviu Keita num contra-ataque. Dois lances nos quais a transição defensiva foi feita a passo. Num trote tranquilo. E isto é fatal, sobretudo quando o contra-ataque é bem feito e bem decidido.

Foi curioso que, depois de marcar, o Belenenses fez aquilo que seria expectável que tivesse feito desde o início: subiu as linhas de pressão. Esperava-se isso mais cedo não só pela matriz habitual da equipa, mas sobretudo porque é isso que mais condiciona o Benfica atual. O Belenenses terminou assim a primeira parte e foi assim para a segunda.

Rui Vitória parece não ter ajudado muito

Sim, claro que fazer o Totobola à segunda-feira é muito fácil. Ainda assim, não é difícil perceber que o dedo de Rui Vitória, nesta noite, no Jamor, não foi de Midas. E o problema não foi a magia. Já depois de ter entrado Jonas para junto de Seferovic – fez sentido –, e de o Benfica ter desperdiçado mais umas quantas oportunidades, Rui Vitória decidiu tirar Pizzi do jogo e, como é habitual em momentos destes, amontoar pontas de lança, com Castillo.

O problema é que tirar Pizzi – um dos melhores jogos que fez nos últimos tempos – e ter Seferovic na ala deixou a equipa totalmente incapaz criar (até porque Gedson não é Pizzi)Como diria Jorge Jesus, ter muitos avançados não é estar mais perto do golo. Ou seja: houve uma equipa com muitos finalizadores, mas esses finalizadores deixaram de ter coisas para finalizar. A ideia de Rui Vitória poderia fazer sentido se fosse para apostar em jogo direto na última meia hora. Aí, sim. O problema é que a ideia foi continuar a criar pelo chão e isso, com a malta que lá estava, seria sempre difícil. Houve posse de bola inútil em zonas defensivas – muito pouco Grimaldo, um jogador-chave na criação do Benfica – e o Belenenses foi estando cada vez mais confortável. Os azuis ainda puderam matar o jogo aos 70 e aos 72 minutos, mas nem foi preciso.

Por fim, duas notas individuais: bom jogo de Rafa, tremendo jogo de Muriel – monstruoso – e belos pormenores de Eduardo (faz lembrar o saudoso Desmarets).

O Benfica, hoje, decidiu que piscaria o olho a cegos. E isso, na prática, vale muito pouco.