Portugal
“Na terra do vulcão temos orgulho no rapaz”, diz o treinador que lançou Zé Luís
2019-12-03 09:50:00
O 'rapaz da terra do vulcão' parecia adormecido. Porém, era fogo de vista: Zé Luís 'explodiu', de forma avassaladora

Pelas ruas de São Filipe, ilha cabo-verdiana do Fogo, não há quem fale de Zé Luís, um dos goleadores da I Liga portuguesa, sem esconder orgulho no “rapaz da terra do vulcão” que pedia para jogar com os mais velhos.

O golo de Zé Luís, nesta segunda-feira, uma obra-prima perfeita, na vitória diante do Paços de Ferreira, encaixa nesta analogia: o goleador parecia adormecido no banco de Conceição, foi chamado a substituir Aboubakar e 'explodiu' com um remate notável.   

É certo que na ilha, por estes dias, ainda faltam camisolas do avançado com o número 20 do FC Porto, algo que não desanima os amigos, muitos dos quais adeptos do rival Benfica, mas também incondicionais fãs do agora ponta de lança portista.

É o caso do seu primeiro treinador, Manuel Dinis, do bairro de Lém, cidade de São Filipe, que seguia a caminho de mais um treino na equipa de futebol da terra onde o vulcão, a mais de 2000 metros de altitude, continua ativo.

 “O Zé Luís era muito pequenino e andava sempre atrás de nós, pedia para jogar. Dizia-me sempre, ‘Manel, quero jogar, quero jogar’. No primeiro dia em que o coloquei a jogar tomou conta do campo e nunca mais foi para o banco, com 13/14 anos. Era um miúdo talentoso, uma maravilha”, recorda.

O então treinador da equipa de sub-17 da Associação Académica do Fogo, hoje com 51 anos, arriscou e lançou Zé Luís a jogar juntamente com o irmão, Lucas, depois de uma primeira passagem pela Europa, onde esteve em testes aos 10 anos. Treinou-o depois durante duas épocas, há mais de uma década.

Desde a primeira hora que ficou a convicção: “Toda a gente sabia que era um miúdo que não ia ficar por aqui”.

“Na terra do vulcão temos orgulho neste rapaz”, conta ainda o treinador, enquanto abre a porta da sede do clube para mostrar as fotografias de Zé Luís, hoje com 28 anos, em destaque nas paredes do edifício.

José apontando, ao fim de 12 jornadas, sete golos. O mais recente foi uma obra que fica registada na Liga.

“Fico muito encantado agora. Eu sou benfiquista de coração, no dia em que ele marcou o golo [primeiro golo da vitória do FC Porto no Estádio da Luz] fiquei contente e triste, porque tive oportunidade de ver o Zé Luis a singrar no futebol português”, conta, emocionado o ainda treinador da antiga filial na ilha do Fogo da Associação Académica de Coimbra, de Portugal.

Também Joaquim Jack, de 54 anos, tio de Zé Luís e figura central no bairro de Lém, confessa-se orgulhoso pelo percurso e por o sobrinho ser “o mesmo rapaz” de sempre.

 “Quando vem cá nas férias acompanha-nos. Mas bebidas não”, brinca.

Destaca que já em criança, ao dar os primeiros passos no futebol, em São Filipe, o atual goleador do FC Porto não desperdiçava oportunidades, destacando-se pela cabeça e faro para o golo: “Qualquer buraquinho que surja, já está”.

 “O Zé Luís nasceu para o futebol. No meio dos outros mais velhos ele sempre se destacou”, conta o tio, enquanto a mãe, Maria José Mendes, confessa já estar habituada a ouvir os comentários no bairro.

 “São bons comentários. É bom jogador, bem-educado. Continua a ser igual, tenho muito orgulho no meu filho, muito amigo da sua mãe”, conta.

Patrick Dinis, um ano mais velho que Zé Luís e benfiquista ferrenho, vibra agora com os sucessos do seu antigo vizinho no bairro de Lém. Com a camisola que o amigo lhe ofereceu quando ainda jogava na Rússia no ombro, Patrick recorda os tempos em que jogava à bola com Zé Luís.

“Toda a gente sabia do potencial que ele tinha, mas também, como tudo, era preciso ter sorte e inteligência. Mas entre nós, ele destacava-se”, admitiu.

Patrick conta que Zé Luís é hoje uma “grande influência” para os jovens da terra, por, a partir daquele pequeno bairro da remota ilha do Fogo, ter chegado a “uma equipa grande”. E por isso também um “exemplo”.

 “E hoje é amigo de toda a gente nesta zona. Vem sempre ter com os amigos”, explica ainda.

Foi também no bairro de Lém que Adilson Cardoso, hoje com 41 anos, conheceu o “rapaz” Zé Luís. Chegou a ver jogar o agora internacional cabo-verdiano, que descreve como “o orgulho” da terra, pelo percurso desportivo.

 “Era bom de cabeça. Quando o via jogar sabia que tinha talento para chegar a uma equipa mais forte. É um orgulho para nós”, atira Adilson, enquanto espera pela camisola 20, azul e branca, da próxima vez que Zé Luís regresse a São Filipe.